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Pela terceira vez, teria de construir uma existência nova a partir de uma que já era inteira. Não que rejeitasse o desígnio. A esse ponto, já fervilhava o desejo de demolir noção atrás de noção, invadir uma a uma as camadas da outra vida, superar as definições reduzidas em nome da interminável descoberta

Diego Viana - (08/08/2008)

Quando a viu pela primeira vez, viu-a já por inteiro. Foram dois pedestres que se atravessaram enquanto cruzavam a rua. Fora da faixa, porque o asfalto entre um lado e outro é vasto demais para se deixar conter nas listas brancas. Em sua percepção inconsciente, ele deu pela desconhecida que saltitava, bela e vibrante, para vencer a ansiedade dos carros, que bufavam à espera da virada do sinal. Como ele, que corria para lá, ela buscava a segurança do lado de cá da avenida. E no vazio biográfico entre as duas calçadas, momento de selva e movimento que os dois compartilhavam, as atenções tomavam nota das formas do entorno. Obstáculos, árvores, ambulantes, buracos do calçamento, um mosaico previsto para esmaecer logo em seguida. Mas, entre as formas que ocupavam o espaço e balançavam de lá e de cá, algo nele guardou a imagem de um vestido colorido e solto, de uma cabeleira esvoaçante, um olhar determinado, impassível, por baixo do par de sobrancelhas grossas.

Que fosse um fragmento, grão insignificante de uma existência com mil milhões de camadas, não lhe competia cogitar. O que retinha atrás dos olhos era uma existência bem delimitada, cujos segredos só contribuíam para compor um princípio e um fim. Ela era, pois, aquela pedestre, aquela desconhecida, aquela mulher misteriosa, bela, que atravessou a Rio Branco naquele dia, àquela hora. Nada mais, e não era preciso mais. Nem o nome lhe faltava. O que pode ser mais adequado a uma mulher desconhecida do que um nome ignorado? O mesmo valia para o endereço, o timbre da voz, a profissão, os interesses. Antes mesmo de integrar a miríade de traços que compõem uma pessoa, eram caracteres a reforçar a essência da mulher. Enigmas, para uma substância puramente enigmática.

À tarde, saciado do almoço, reclinou-se na cadeira do escritório, posição de repouso, a morder distraído a tampa da caneta. O olhar saltimbanco quis atravessar as janelas, foi. Do outro lado da avenida, avistava, como todo dia ao descansar dos papéis, o edifício mais alto, de vidro espelhado, o mais antigo, de concreto enegrecido, e entre os dois um mais recente, de arquitetura esquisita, ondulante, criação contemporânea. Então, sem motivo, unindo o presente ao recém-passado, o exame inconseqüente quis das construções algo além das fachadas. Parou sobre cada retângulo de vidro, na esperança de vislumbrar movimentos de braços e rostos. Deveria, ora, haver pessoas em cada pavimento, quem sabe mulheres de vestido colorido e solto, sobrancelhas grossas, madeixas compridas. Essa população velada, verdade até então evidente, mas irrelevante, se fez surpreendente e crucial. Assim como era pleno de vida seu escritório, cada endereço da cidade era um organismo a pulsar, entre gravatas e cadarços, agonias e concordatas, exames e celebrações. E, é evidente, cada minúscula partícula teria um nome e uma razão de ser, tão bem e tão mal conhecidas de alguém quanto bem e mal conhecidas dele eram as partículas de sua vida. Por um instante, aquilo lhe pareceu belo, quiçá poético: que o campo das outras realidades fosse infinito, cada uma frouxamente ligada à outra por estreitas pontes de barbante entre o familiar e o desconhecido.

E assim teria seguido, descoberta bastante para uma consciência que perambulou por uns instantes, em busca de vazios para enriquecer suas certezas. A multidão dos pares, atrás de outras janelas, quedaria muito contente, cristalizada sob a alcunha de desconhecidos. Aquele que até então se bastava como edifício, apresentado com um rosto ou outro sob a forma de fachada, voltaria a se bastar, agora como sede de inúmeras operações anônimas, alheias, romanticamente enigmáticas. Haveria de parecer vago, porventura, mas seria inteiro e perfeito em seu invólucro de dúvida. Um passo ao lado, para uma perspectiva quase idêntica. Retornou aos papéis.

Contudo, ao encerrar-se o expediente, salvou-o mais uma vez a imagem da mulher, surgida de supetão como se apenas imaginada, ao abrir-se a porta do elevador. Ele, impressionado, congelou, tomou o susto que deveria tomar. Seria um louco se não tomasse, se pudesse manter o sangue diante da surpresa. Emudeceu. Pela terceira vez, teria de construir uma existência nova a partir de uma que já era inteira. Não que rejeitasse o desígnio. A esse ponto, já fervilhava o desejo de demolir noção atrás de noção, invadir uma a uma as camadas da outra vida, superar as definições reduzidas em nome da interminável descoberta. A antiga transeunte anônima vinha de incorporar, pela força de sua presença, a idéia singela de vizinha. Ao olhar determinado, cravado na face que a memória desenhara, acrescentava-se o cansado e perdido, o olhar de fim de tarde que, bem se via, ela conhecia igualmente. O vestido de cores vivas era também, afinal, um pouco amarrotado, ao termo de um dia inteiro imprensado contra a cadeira, e poderia ser muitas outras coisas.

Restava ainda como dúvida o nome e, além do nome, os detalhes. Tom da voz, gosto musical, opinião política, cozinha predileta. Como resultado, antes que ele percebesse o impulso, já se encontrava em estado de movimento, semelhante àquele do meio-dia, na avenida Rio Branco. De um lado da calçada, o relance em que a transeunte nasceu, completa como Minerva. Do outro, o destino desejado, a consciência pura, a convivência plena, ainda submetida a um ideal que restava por enunciar. No meio, a flutuar sem pressa, ele e ela, reclusos no elevador.



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