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LITERATURA

Ficção e ensaio

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Em Philip Roth, como em J. M. Coetzee, a arte não redime nem consola

Gregório Dantas - (08/08/2008)

Philip Roth e J. M. Coetzee são dois dos escritores contemporâneos mais respeitados em todo o mundo. Coetzee venceu o prêmio Nobel de Literatura em 2003, enquanto Roth, cogitado há anos para o prêmio, teve recentemente sua obra editada pela Library of America, o que o coloca ao lado dos grandes nomes da literatura norte-americana (na verdade, foi o único autor a receber a honraria em vida). Além da fama de mal humorados, os escritores não possuem muito em comum; ainda assim, não pude evitar de localizar algumas semelhanças temáticas e estilísticas em seus últimos romances, lançados originalmente o ano passado, e recentemente em sua versão brasileira. Quanto ao tema, ambos possuem protagonistas narradores idosos, enfrentando as limitações físicas e intelectuais da velhice. Quanto ao estilo, ambos romances possuem um pendor ensaístico que, embora realizados de maneiras bastante distintas, concentram-se na figura desses personagens deslocados, quase excêntricos. Não à toa, ambos protagonistas são escritores.

***

J. M. Coetzee apresentou, em A vida dos animais (1999), um personagem considerado por muitos um alter ego do autor, a também escritora Elisabeth Costello. Ela desenvolve uma longa explanação — em forma de palestras — sobre as responsabilidades ignoradas pelo homem em relação aos animais. Tal questão, essencialmente ética, é absolutamente legítima, e importante como poucas, hoje. Além disso, os argumentos da palestrante, considerados excêntricos e até senis, promovem desdobramentos filosóficos pertinentes sobre, por exemplo, a função social do intelectual. A arte não possui finalidade clara e não possui compromisso com a verdade — como a filosofia — e a tragédia dessa escritora é aparentemente acreditar que possui essa responsabilidade, ou tentar racionalizar um difuso sentimento de compromisso.

É preciso que se diga, porém, que o engajamento de Costello não é romântico, ingênuo. Mesmo gerando o descrédito de seus pares, consciente de seu lugar entre os “graus de obscenidade” do comportamento humano, e duvidando da eficácia de suas idéias, a escritora continua seu trabalho, movida por uma inominável inquietação. E ao final do livro, sua argumentação não se resolve inteiramente. Embora haja um apêndice com algumas contribuições de diferentes áreas ao debate proposto por Costello, A vida dos animais não é um livro de ensaios, afinal. Trata-se, ainda, de literatura, e é assim que o livro se resolve, com um entrecho ficcional sensível e comovente.

Há quem considere Elisabeth Costello uma personagem inverossímil, mal construída ou simplesmente uma chata. São opiniões legítimas e podem promover um bom debate. Mas que algumas dessas opiniões sejam baseadas na “inadequação” ou na “estranheza” do discurso de Costello, ou seja, na própria essência de seus argumentos, isso apenas reproduz, fora do livro, a cínica recepção que a escritora encontrou no âmbito da ficção. O que comprova o valor literário não apenas do livro de Coetzee, como também dessa complexa e sofisticada personagem.

Dando continuidade a seu projeto de entrecruzar ensaio e ficção, em 2003 Coetzee reuniu os dois textos de A vida dos animais a seis outras “palestras”, e as reuniu sob o título de Elisabeth Costello. Agora, em seu último romance, Diário de um ano ruim, o autor dá um passo ainda mais ousado formalmente. Em primeiro lugar, o protagonista, que, desta vez, está ainda mais próximo da figura de J. M. Coetzee: identificado apenas pelas iniciais, J. C. também é um sul-africano radicado na Austrália e autor de um romance chamado À espera dos bárbaros. Octagenário, porém, é mais velho que Coetzee, que nasceu em 1940 (os especialistas na biografia de Coetzee poderão se deliciar procurando pontos de contato entre a vida do autor e a do personagem). Além disso, se nos livros anteriores as reflexões da protagonista se desenvolviam dentro da narrativa, em Diário de um ano ruim há uma divisão formal entre três níveis: os ensaios propriamente ditos, assinados por J. C.; a narrativa, feita por ele mesmo, de seu relacionamento com uma jovem vizinha, Anya, que lhe ajuda a digitar seus textos; e o relato de Anya sobre essa convivência. Os três níveis estão graficamente sobrepostos na página, o que faz da leitura um exercício lúdico.

Os ensaios subdividem-se em dois grupos. O primeiro, o das “opiniões fortes”, trata de assuntos graves como terrorismo, Al-Qaeda, pedofilia, anarquia. São comentários que parecem verbetes, alguns muito breves e cínicos, outros um pouco mais longos e graves, mas todos dotados da mesma veia provocativa. J. C., o personagem escritor que é autor desses textos, chega a sugerir, por exemplo, um balé com o nome “Guantánamo, Guantánamo!”, no qual um grupo de dançarinos simulariam as mais cruéis torturas:

(...) guardas de fardas verde-oliva se empinam com demoníaca energia e ânimo, aguilhões de gado e cassetetes em prontidão. Eles tocam os prisioneiros com os aguilhões e os prisioneiros saltam; submetem e imobilizam os prisioneiros no chão, enfiam os cassetetes em seus ânus e os prisioneiros têm espasmos. Num canto, um homem sobre pernas-de-pau com uma máscara de Donald Rumsfeld alterna a escrita em seu pódio com danças de pequenas gigas estáticas.

Na segunda parte do romance, intitulada “Segundo diário”, os temas são relativamente mais brandos, e mais pessoais: J. C. fala de memórias íntimas, de seus sonhos, de ídolos literários. Embora pareça haver uma atenuação de temas, o fato dos ensaios serem mais pessoais não os torna menos sérios. Como quando se fala da velhice:

Meu quadril doeu tanto que hoje não consegui andar e mal conseguia sentar. Inexoravelmente, dia a dia, o mecanismo físico se deteriora. Quanto ao mecanismo mental, estou continuamente alerta para engrenagens quebradas, fusíveis queimados, esperando sem esperança que ele sobreviva a seu hospedeiro corporal. Todo velho se torna cartesiano.

J. C. é um solitário. O cheiro do paletó velho, mofado, é o cheiro da velhice, como em um dos momentos mais tocantes de A vida dos animais. Seu isolamento revela-se na decadência física, que impede sua liberdade de movimentos e de criação (ele não consegue escrever com desenvoltura), e no desejo sexual tanto mais patético quando menos chance tem de se realizar (tema presente também na “castração” das pernas em Homem lento). Vale lembrar que o sexo, nos romances de Coetzee, é no mais das vezes destituído de qualquer erotismo, uma extensão da decadência moral dos personagens.

Mas o isolamento do escritor também se faz notar na gravidade de suas opiniões, confundida com excentricidade ou com senilidade, a exemplo do que acontece a Elisabeth Costello. Neste sentido, é significativo seu embate com o namorado de Anya, o verdadeiro antagonista de J. C.: jovem e ambicioso, é abertamente arrogante e antiético, e lida com seus problemas diretamente, sem nuances ou metáforas. O velho escritor, pelo contrário, comprometido com reflexões éticas e filosóficas, questões de natureza nada prática (ou utilitárias, no sentido mais banal do termo), possui na palavra escrita seu único meio de intervenção.

Embora o leitor não deva concordar totalmente com as opiniões de J. C. (e no mais das vezes elas são difíceis de digerir), também não pode negar que são provocadoramente lúcidas. Mesmo se eventualmente simplistas, tocam em aspectos normalmente omitidos, tangenciados pela opinião pública.

Vale, enfim, reiterar o óbvio: Diário de um ano ruim é, assim como A vida dos animais e Elisabeth Costello, um romance, não um livro de ensaios. Dizer que é pretensioso, grave, filosófico demais, não diz muito sobre sua qualidade literária. Afinal, a gravidade não é um defeito literário. A leviandade, sim.

***

Já Philip Roth, em Fantasma sai de cena, não manipula a forma ensaística de maneira tão deliberada quanto Coetzee. Mas, sem dúvida, seu romance desenvolve questões debatidas pelos personagens de maneira quase ensaística, seja através dos longos diálogos, seja através das reflexões do narrador protagonista.

Antes, porém, vale fazer um breve retrospecto. Em 1979, Philip Roth lançou o primeiro livro protagonizado pelo seu mais famoso personagem, Nathan Zuckerman, considerado por muitos um verdadeiro alter-ego do autor. O livro é Ghost writer, e está fora de catálogo no Brasil. Com sorte, pode ser encontrado em sebos, sob o título de Diário de uma ilusão, na tradução de Luís Horácio da Matta e edição do Círculo do Livro. O enredo do romance trata de como o jovem escritor judeu Nathan Zuckerman conhece seu grande ídolo literário, o recluso E. I. Lonoff. Convidado para jantar, Zuckerman acaba presenciando um episódio constrangedor na vida íntima daquele escritor consagrado: o desfecho de um triângulo amoroso entre ele, sua esposa, e uma jovem agregada chamada Amy Bellette. O ano é 1956, e acompanhamos a noite que Zuckerman passa na casa de Lonoff, enquanto o rapaz rememora questões relativas a seu difícil início de carreira, dúvidas literárias e conflitos familiares, e arrisca criar uma pequena ficção sobre Amy, por quem se sente atraído. O intertexto mais importante do romance é a novela de Henry James, A idade madura, na qual se lê: “Nossa dúvida é nossa paixão e nossa paixão, nossa tarefa. O resto é a loucura da arte”. Pois é precisamente esse “resto” que mais interessa a Roth.

Quase trinta anos depois — e depois de clássicos como Pastoral americana e A marca humana — Philip Roth lançou o que anunciou ser o último romance protagonizado por Nathan Zuckerman, Fantasma sai de cena. Agora, em 2004, Zuckerman é um escritor consagrado, maltratado por um câncer na próstata, que o deixou impotente e incontinente. O escritor arrisca sair de seu refúgio, uma pequena casa de campo onde vive há 11 anos, isolado da política, das novidades tecnológicas e das vaidades do mundo literário, para se submeter a uma procedimento médico que pode ajudá-lo a minimizar os efeitos da incontinência urinária. Em Nova York, porém, ele se deixa levar pelo ímpeto de conhecer um jovem casal de escritores dispostos a fazer uma troca de residências por um ano. Logo o escritor se vê enredado em uma série de eventos incontroláveis: o desejo pela jovem e atraente escritora Jamie Logan; o assédio de um aspirante a biógrafo, disposto a devassar o passado de E. I. Lonoff; o reencontro com Amy Bellette, agora uma idosa desamparada, vítima de um câncer no cérebro.

É um romance desalentador que trata, a exemplo dos últimos livros de Roth, principalmente da velhice. Mas ao contrário de Homem comum — em que a metáfora do corpo como máquina não permitia qualquer alternativa para sua inevitável falência —, em Fantasma sai de cena existe a literatura. Não que ela seja redentora, ou estabeleça um sentido para a vida. Mas permeia todas as reflexões do escritor (ainda que na iminência de ser perdida irremediavelmente pela falta de memória).

Em Fantasma sai de cena, a principal referência literária é A linha da sombra, de Conrad: ultrapassando a linha da sombra da velhice (sua vida “póstuma”), o velho escritor assiste à loucura contemporânea da arte com olhos incrédulos, e perplexos. Roth não poupa seu personagem. A tragédia de Nathan Zuckerman se dá em três níveis: a falência do corpo, a falência do sexo (do desejo não realizado, como o Animal agonizante) e, finalmente, a falência intelectual. A decrepitude é irremediável para os que sobrevivem, e seu último estágio é a confusão mental, o esquecimento.

Nesse sentido, Nathan Zuckerman tem muito dos personagens de Coetzee, Elisabeth Costello e J. C.. São todos escritores cujas convicções supostamente excêntricas se confundem (para o senso comum) com senilidade. E o mau cheiro da velhice e do mofo, que se vê nos livros de Coetzee, em Fantasma sai de cena é o cheiro da urina, do absorvente não trocado. Philip Roth, a exemplo de Coetzee (e apesar das diferenças essenciais), utiliza-se de seu personagem “não-confiável” como porta-voz de uma série de opiniões incompatíveis com o estado de coisas atual, principalmente no mundo da indústria cultural (da qual o mundo literário faz parte, ainda que nem sempre o assuma).

É a opinião do excêntrico. É assim que o velho escritor é visto pelo jovem e enérgico Richard Kliman, jornalista determinado a devassar a vida de Lonoff e a ingressar no seleto clube dos intelectuais renomados. Os contrastes físicos e de comportamento entre Kliman e Zuckerman são bem representativos da distância ideológica entre eles, debatida em alguns diálogos calorosos. O requinte de crueldade está no fato de que Kliman, Zuckerman supõe, já deve ter sido amante da linda Jamie (interessante notar que, na imaginação de Zuckerman, seu rival não é o marido de Jamie, o pacato e passivo Billy, e sim seu possível amante, o arrogante e agressivo Kliman). De modo que o rancor de Zuckerman contra Nova York e contra os jovens intelectuais é, claro, ideológico, de resistência, mas é também puro ressentimento da velhice. Ou seja: Roth consegue estabelecer um conflito argumentativo entre os personagens sem reduzi-los a tipos defensores desta ou daquela postura política ou ideológica. Os argumentos de cada personagem são, para o bem e para o mal, extensões de sua caracterização, de sua história, de suas idiossincrasias. Assim, os argumentos não se resolvem como em um ensaio, mas “se perdem” na ficção.

Nada disso impede a ficção de Roth de denunciar determinados desvios e deturpações impostos à literatura e à cultura em geral pela lógica da indústria cultural. Quando Amy Bellette encaminha uma carta algo insana para uma revista, indignada com o tratamento biográfico e superficial conferido a Hemingway em uma matéria, ela quer defender o fato, incompreensível para a indústria cultural, de que “a ficção séria não permite a paráfrase e a descrição — e portanto requer pensamento”. Apesar dos deslizes, seu principal argumento é dos mais relevantes, o de que a literatura foi reduzida — por críticos, professores, jornalistas, leitores e escritores — à anedota biográfica, e esvaziada de seu sentido mais essencial, o de ser a “mentira que revela a verdade”, que não admite concessões, e cujas “exigências transformadoras (...) não permitem sonhos dourados”, agora nas palavras de Zuckerman.

E não mesmo. Em Philip Roth, como em Coetzee, a arte não redime nem consola. Zuckerman define-se como “um lunático da literatura (...), como todos aqueles que reservam suas paixões mais violentas para os livros”. Não há, porém, qualquer idealização:

Mas o quociente de dor que a gente sofre já não é chocante o bastante para não precisar de uma amplificação ficcional, que dê às coisas uma intensidade que é efêmera na vida e que por vezes chega a passar despercebida? Não para algumas pessoas. Para umas poucas, muito poucas, essa amplificação, que brota do nada, insegura, constitui a única confirmação, e a vida não vivida, especulada, traçada no papel impresso, é a vida cujo significado acaba sendo mais importante.

Ainda assim, e como em Diário de uma ilusão (ou seja, preservando um comportamento de sua juventude), é à ficção que o velho escritor irá recorrer, quando nada mais restar.

Referência bibliográficas:

COETZEE, J. M. Diário de um ano ruim. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

ROTH, Philip. Fantasma sai de cena. Trad. Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2008



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