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Para aqueles que apostam suas fichas em Barack Obama, o candidato democrata já assinalou que seguirá a política externa de Kennedy e Bush pai

Serge Halimi - (15/08/2008)

Barack Obama é um homem de sorte. Surge após um dos presidentes mais impopulares da história de seu país, é jovem, mestiço e todo o planeta parece esperar que ele chegue à Casa Branca. Está, portanto, mais bem municiado que qualquer outro concorrente para “renovar a liderança norte-americana no mundo” [1], ou seja, reabilitar o nome América e tornar mais efetivas – devido à maior aceitação e adesão – as intervenções dos Estados Unidos no exterior.

Aí se incluem operações militares, particularmente no Afeganistão: “Construirei o exército do século21 e uma parceria tão forte quanto a aliança anticomunista que venceu a Guerra Fria, para que possamos ficar sempre na ofensiva, de Djibouti a Kandahar” [2]. Para aqueles que ainda acreditavam que um presidente “multicultural”, nascido de um pai queniano, representaria automaticamente a emergência de uma [America new age, onde o povo todo estaria de mãos dadas, o candidato democrata já assinalou que se inspirará menos em Pink Floyd ou George McGovern e mais na política externa “realista e bipartidária, de George Bush pai, John Kennedy e, em certos aspectos, de Ronald Reagan” [3]. O multilateralismo não figura no horizonte imediato. O imperialismo, entretanto, será mais soft, mais habilidoso e bem orquestrado. E, quem sabe, um pouco menos mortífero – apesar de os oito anos de embargo econômico que a gestão Clinton impôs ao Iraque também terem tirado muitas vidas...

Barack Obama tem muito talento. A audácia de ter esperança, seu livro-programa, dá a medida de sua mescla de inteligência histórica, de astúcia, humor, “empatia” política pelos adversários – sobre os quais ele afirma “entender as motivações e reconhecer neles valores que compartilho”–, de declarações sabiamente equilibradas – que não constituem uma grande solução, mas satisfazem a (quase) todos –, e até mesmo de convicção. Convicção essa dosada por uma inquietante homenagem ao ex-presidente Clinton, que teria “extirpado do partido democrata alguns dos entraves que o impediam de vencer as eleições” [4]. Quais entraves? A recusa da pena de morte? A ajuda social aos pobres? A defesa das liberdades públicas? O respeito ao direito internacional?

Barack Obama é ambicioso. Mas até onde o conduzirá a pretensão – legítima, cabe observar – de “vencer as eleições”? Os últimos meses parecem sugerir a resposta: mais à direita. Não a ponto de torná-lo equiparável ao republicano John McCain e, portanto, de justificar a palavra de ordem “trocar seis por meia dúzia”. Mas suficientemente distante do discurso progressista do início de sua campanha, e ainda mais longe do que poderiam crer seus partidários mais idealistas, pois o bordão “Yes, we can” (Sim, nós podemos) tornou-se também: sim, podemos criticar uma decisão da Corte Suprema, ela mesma muito conservadora, que proíbe a execução de estupradores não culpados de assassinato; sim, podemos proferir junto ao lobby pró-israelense um discurso que se alinha com as posições mais inflexíveis do governo de Ehud Olmert; sim, podemos associar sistematicamente a criatividade ao setor privado, completar a missão de redefinir o progresso – lançada por Clinton e Tony Blair – e promover uma aliança de classe cujos dirigentes seriam os atores-chave.

Há mais com que se inquietar. Animado pela enxurrada de contribuições financeiras que inundam os cofres de sua campanha, Obama acaba de desferir um golpe certeiro, talvez fatal, no sistema de financiamento público das eleições. Dessa forma, ele anunciou que seria o primeiro candidato à presidência desde o escândalo de Watergate a renunciar ao montante doado pelo Estado (US$ 84,1 milhões em 2008) a cada um dos dois grandes rivais, em troca de aceitar um teto de despesas equivalente à soma recebida. O peso do dinheiro na política não é um problema de menor monta nos Estados Unidos, e Obama já assinalou que não o resolverá. Em outros setores, porém, ele ainda tem a chance de não decepcionar. O que permitiria também aos verdadeiros amigos do povo americano conservar a tal audácia de ter esperança.



[1] Barack Obama, “Renewing American Leadership”, Foreign Affairs, Nova York, julho de 2007.

[2] Ibid. Essa pretensão implicará um aumento do orçamento do Pentágono e o acréscimo de “65 mil soldados e de 27 mil marines” nas forças armadas norte-americanas.

[3] Discurso de Greensburg, Pensilvânia, 28 de março de 2008.

[4] Barack Obama, The audacity of hope, Nova York, Crown, 2006.


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