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CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Sene-Sene-Senegal

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— Táxi?
— Não, obrigado.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Mas alguém vem te buscar?

Daniel Cariello - (07/08/2008)

Não existe nada no mundo como o aeroporto de Dakar, a capital do Senegal. Pelo menos no meu mundo nunca existiu nada semelhante. A coisa é tão confusa aos olhos de um estrangeiro - mas ao mesmo tempo funciona tão bem dentro desse caos - que se tentarem organizar, acredito, entra em colapso instantâneo. É como uma música do Frank Zappa. Ou um filme do Fellini. Ou um X-Tudo de beira de estrada, com muito X e muito tudo. Não tente compreender sua lógica. Apenas aceite a existência.

A introdução dessa nova realidade é a sala de desembarque. Existe esteira para as bagagens, claro, mas ela está ali só porque deve ser obrigatória a presença de uma nos aeroportos. Sua função prática é discutível. Algumas poucas malas, mais afortunadas, circulam por ela. Mas a grande maioria fica mesmo espalhada pelo chão, criando uma variante da corrida com barreiras. A diferença é que o cara saltando ao seu lado não está se exercitando espontaneamente. A única coisa que ele quer é ter o direito de alcançar suas valises antes que elas entrem num universo paralelo e desapareçam para todo o sempre. Um fato que deve ser comum no lugar, levando em conta a quantidade de sacos, sacolas e pacotes encostados pelos cantos, umas 20 vezes maior do que o número de pessoas presentes. Mas no fim das contas, e para o meu espanto, a impressão que eu tive é que todo mundo conseguiu recuperar seus pertences. Eu incluso.

Ao sair da sala, dezenas de pessoas vieram ao mesmo tempo me oferecer os mais diversos serviços. E, se existe um povo insistente, é o senegalês. O maior erro que se pode cometer em Dakar, e isso eu só fui descobrir mais tarde, é dar corda para quem queira te vender qualquer coisa no aeroporto, na rua ou onde quer que seja.

— Táxi?

— Não, obrigado.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Mas alguém vem te buscar?

— Vem.

— Quem é?

— Como?

— Quem vem te buscar?

— Demba.

— Eu não conheço.

— Eu também não.

— E como você sabe que ele vem?

— Eu sei que vem.

— Tem o número dele?

— Tenho.

— Acho melhor você ligar.

— Não precisa.

— Vai que ele não vem.

— Ele vem.

— Liga.

— Não quero.

— Eu tenho telefone.

— Se eu precisar, aviso.

— Mas vai ficar tarde.

— Não tem problema.

— Tô aqui do seu lado.

— Não se incomode. Pode ir pra lá.

— Me chama se precisar?

— Chamo sim.

— Não vai ligar agora mesmo não, né?

— Não, obrigado.

— Tá. Vou ficar ali.

— Merci.

— Ali.

— Já sei.

— Naquele canto.

— Merci...

Tudo isso aconteceu mesmo antes que eu saísse da área reservada. É que no aeroporto de Dakar, ao deixar o desembarque, já na rua, existe uma barreira. Dentro, só quem tinha acabado de chegar de viagem e alguns outros que, não sei como, foram parar ali também. Fora, um mar de gente aguardava. Alguns ostentavam papéis com nomes de pessoas que chegavam. Outros ofereciam produtos e serviços diversos para os "toubabs", que é como eles chamam os brancos. Eu fiquei ali dentro, claro. Mas era só bobear que algum desses que furou o bloqueio chegava perto.

— Táxi?

— Não.

— Ligação?

— Não.

Enquanto isso, do lado de fora da barreira, uma mulher discutia com um guarda, ao mesmo tempo que segurava um papel com o nome de alguém. Ele saiu e voltou com um companheiro, maior. A mulher, pequena, enervou-se ainda mais e passou a berrar em dobro. No meio de toda a gritaria, um ambulante oferecia milho para os guardas. Outro passava do lado balançando uns pacotes de cuecas, também à venda. Depois de alguns minutos, e vendo que não ganhariam a discussão, os dois deram as costas e saíram de perto. Nisso, o sujeito que tinha puxado assunto comigo volta mais uma vez.

— Seu amigo apareceu?

— Como?

— O Demba apareceu?

— Ainda não.

— Eu tenho um táxi, viu?

— Sim, já sei.

— Não quer mesmo?

— Não, não, obrigado.

— E ligar, quer?

— Não.

— Ó, tô ali.

— D’accord. Merci.

Mas ainda faltava o grand finale. O toque surreal derradeiro. O boi com asas. E ele não demorou a chegar. De repente fez-se um silêncio. Lentamente, um grupo de freiras saiu da sala de desembarque, em fila indiana, atravessou a barreira e cruzou a multidão, que de forma espontânea abriu para elas passarem. Assim que sumiram, o caos voltou instantaneamente. Uma cena completamente deslocada, e por isso mesmo totalmente integrada com aquilo tudo. Voltei a mim quando senti um cutucão no ombro.

— Só pra te lembrar que eu tô ali no canto, viu?

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Pequenos espaços, grandes problemas
— E aí escolheram a resposta mais criativa. — Que pergunta? — "Qual a diferença entre a mulher e a televisão?" — E o que você respondeu? — O controle remoto!

Arigatô, monsieur
. No bairro chinês tem um McDonalds com cardápio em chinês. Ou em japonês, sei lá.
. Apesar de ter sido criado por um japonês, o Miojo e seus derivados são chamados aqui de "macarrão chinês".
. O bairro chinês, na verdade, fica na Praça da Itália.

Um quadro, três histórias
Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja

Salamaleque!
— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra. — Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir. — Bra bra bra bra bra loja... Gentil bra bra. — Que isso... Precisando é só chamar.

Roteiro de viagem — Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.

Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.

Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"

Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



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