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LITERATURA

Notas sobre contos machadianos

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Nem tudo da farta produção de Machado de Assis, quase uma centena e meia de narrativas breves, merece ser lido

David Oscar Vaz - (15/08/2008)

Os melhores livros do contista Machado de Assis foram publicados no período que se convencionou chamar de sua fase realista: Papéis avulsos; Histórias sem data; Várias histórias; Páginas recolhidas e Relíquias de Casa Velha. Nesses volumes podemos encontrar as melhores peças produzidas pelo autor. Nem tudo de sua farta produção, quase uma centena e meia de narrativas breves – incluídos aqui os dois livros da fase romântica e os vários textos publicados, na época, apenas em jornais e revistas –, merece ser lido: alguns temas repetidos são melhores realizados num que noutro, alguns são de puro entretenimento e convencionalismo. Apesar disso, basta uma seleção de uma dúzia de seus melhores contos para reconhecer Machado como um dos mestres do gênero.

Tivesse permanecido apenas na sua fase romântica, Machado teria entrado para a história como um escritor medíocre, pois não possuía a imaginação de caráter popular de Manuel Antônio de Almeida, não era um escritor da paisagem, e nem temas tão caros ao Romantismo, como o indianismo, atraíam sua pena – e nenhuma de suas obras iniciais, mesmo as melhores, jamais chegaram perto do vigor dos romances urbanos de Alencar.

Foi a adoção de um novo ponto de vista, que melhor se adequava à sua natureza, que fez toda a diferença. A grande transformação se deu por volta dos quarenta anos, com a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas. O espanto diante de tal mudança fez surgir algumas hipóteses sobre sua causa: a crise de saúde pela qual passou e as primeiras férias forçadas que se viu obrigado a tirar para o tratamento; e a morte de José de Alencar, por quem nutria grande amizade e apreço intelectual.

Fazendo a vinculação da biografia do autor com tal mudança, Lúcia Miguel Pereira toca com muita perspicácia no cerne da questão, recordando uma conversa de Mário de Alencar com o escritor:

A Mário de Alencar, que lhe perguntou um dia como, depois de ter escrito “Helena”, pôde ele escrever o “Brás Cubas”, explicou o romancista que se modificara porque perdera todas as ilusões sobre os homens. Depois da crise por que passou em 79, já não os via com os mesmos olhos, com olhos afeitos ao aspecto convencional, mas com uma visão interior, implacável, penetrante. Através das palavras polidas, descobria o sentimento egoísta ou cínico; através do sorriso, a dureza do coração. O véu da hipocrisia rasgou-se diante dele. A vocação do romancista se realizava plenamente, a um tempo tormento e delícia. Tormento por não poder crer nas criaturas, de lhes perceber todos os cálculos, todas as espertezas, mas delícia, delícia suprema de apreciar o jogo dos sentimentos, de ver como nascem e morrem as paixões, de ser o espectador que aprecia a um tempo a platéia e os bastidores [1].

Dessa situação nasceu seu humorismo, conclui a autora, fruto da sua simpatia humana aliada a seu pendor crítico. O definitivo é que o instrumental romântico que possuía não poderia levá-lo mais adiante do que o ponto ao qual já havia chegado sua criação. A perda da ilusão não o atirou na melancólica prostração estéril, ao contrário, dotado de uma natureza racionalista, o escritor mergulhou fundo na observação destemida dos verdadeiros móveis das ações humanas.

Não é que o que escrevia antes era mal escrito, mas é que um grande escritor precisa ser mais do que alguém que escreve bem. Machado continuaria, portanto, a ser o mesmo escritor dono de um português correto, com suas frases elegantes e avesso aos exageros naturalistas, o mesmo estilista criador de imagens tão ao gosto do tempo e de metáforas que se desdobram umas nas outras. Carregou, enfim, para a nova fase as mesmas virtudes e os mesmos defeitos da fase anterior.

Diz a genética que uma mínima alteração no DNA de um ser resultará num outro ser que, embora possua enormes semelhanças com aquele do qual nasceu, é outro completamente diferente. Ora, o que ocorre com a escrita machadiana é algo semelhante: a mudança do ponto de vista adotada pelo autor, que passará a ser de uma perspectiva mais interna, resultará numa renovação completa de sua escrita. O procedimento adotado procurará mostrar as ações das personagens e, ao mesmo tempo, suas intenções ocultas, as falas que escondem os verdadeiros desejos. Ou seja, Machado fará do que era deficiência uma virtude.

Já se apontou que em seus textos nada de relevante parece acontecer exteriormente, o que ocorre a seus personagens são as coisas corriqueiras que acontecem a toda gente, nada de tramas emocionantes em que os heróis, como projeção de valores éticos, estão ali para realizarem grandes feitos e para isso terão de saltar magníficos obstáculos. Não vamos encontrar nos seus escritos nenhum Hamlet, nenhum Quixote, nenhum Artur. O mais certo, no entanto, seria dizer de outra maneira, que os acontecimentos externos só passam a ter importância na medida e na maneira como repercutem no interior de seus personagens, de tal modo que os fatos mais prosaicos da vida adquirem fantásticas proporções no interior de seus protagonistas. E assim, na vida comum de personagens comuns do universo carioca, de um alferes, de um advogado, podemos ver os reflexos de grandeza da alma de um César, ou as frustrações de um apaixonado Romeu.

Os contos da nova fase

Depois de Memórias póstumas de Brás Cubas, romance publicado em 1881 e que marca o início do Realismo e da transformação do autor, o primeiro livro de contos que segue na mesma toada, como exemplo de narrativas curtas de sua nova fase, é Papéis avulsos, que veio à luz em 1882. O texto de abertura é O alienista, que a rigor não pode ser considerado propriamente um conto, mas uma novela, obra excelente tanto pela execução quanto pela escrita enxuta, que ficaria muito melhor se publicada em livro à parte. Mas como o intuito aqui é falar de contos no sentido mais específico, e só por isso, deixo os comentários desse texto de lado para me dedicar a outros.

Primeiro, uma observação de ordem geral: algo que chama a atenção na leitura de Papéis avulsos é que a variedade dos temas encontra, na maior parte das vezes, uma variante formal própria e inusitada; são poucos os textos que adotam um narrador de terceira pessoa no sentido mais tradicional. O mais das vezes, os contos são como composições de outra ordem: dois deles adotam a forma dialogada, à maneira de teatro, embora não tenham a tensão dramática própria do embate entre os personagens; outros são capítulos inéditos de obras antigas, um se compõe como se fosse um fragmento do Gênesis da Bíblia, outro um capítulo inédito de Peregrinações, obra de Fernão Mendes Pinto; outro assume a forma de uma conferência científica realizada por um certo cônego Vargas; outro se apresenta em forma de carta enviada pelo Desembargador X ao Chefe de Polícia da Corte. Essa liberdade formal para tratar os velhos assuntos reflete a necessidade do autor de reescrever o já escrito sob um novo ponto de vista.

Falemos agora de alguns contos. Dos textos desse livro gostaria de destacar três peças.

Aparência e valor social

A primeira é bastante freqüente em muitas antologias do autor: “Teoria do medalhão”. Trata-se de longo diálogo entre pai e filho no dia em que este completa 21 anos. O último convidado já saiu e o conto todo é a exposição da conversa em que o pai aconselha o filho acerca da profissão que o jovem deve abraçar. O que mantém o interesse do conto não é a trama, que não existe; não é também a tensão do diálogo fruto do embate entre os personagens, como é próprio do gênero dramático, pois, a rigor, não temos diálogo nem à maneira socrática (e a fala do filho não se constitui como discurso que contribui, na forma dialógica, para se chegar a alguma verdade). O filho está ali apenas para não tornar o discurso menos enfadonho e legitimar o monólogo do pai; o que mantém o interesse do texto é o tom presente na fala de autoridade paterna, uma mistura de descaramento e sinceridade. O que diz o pai, enfim, é que a felicidade em sociedade é ser notável, “que te levantes acima da obscuridade comum”, diz o homem, para isso não é preciso ser grande, mas exige grande esforço. A melhor maneira de se sobressair na sociedade é não ter idéias originais e, apesar disso, parecer brilhante, coisa que se consegue não permitindo que o cérebro elabore idéias próprias, repetindo o senso comum como se fosse original. É perigoso ser diferente, é a lição de fundo, é preciso muita disciplina para repetir a mesmice com os ornatos de novidade.

Intuímos o humor, não do pai conselheiro, que acredita piamente no que diz, mas do escritor por trás da montagem do diálogo. A falta de um narrador, que em outros textos faz a delícia do leitor, ao revelar a intenção oculta nas falas das personagens, aqui se justifica porque o discurso desse pai cuidadoso não tem nada a esconder. Não prega moral, não aconselha o filho a alimentar grandes propósitos, não incentiva nenhum ato superior, mas tão-somente ensina, no papel de quem conhece os mecanismos da vida em sociedade, como agir para ser notável. Não é à toa que o texto termina com uma referência a Maquiavel nas palavras do pai: “Guardadas as proporções, a conversa dessa noite vale o Príncipe de Maquiavelli”.

Outros contos irão explorar esse tema da aparência como um valor social em si, como “O segredo do Bonzo”, mas a obra-prima nessa matéria é, sem dúvida, “O espelho”. Contrário ao comentado acima, temos aqui uma engenhosa construção da trama. Trata-se, como o subtítulo diz, de um esboço de uma teoria sobre a alma humana; qual seja, que o homem possui não uma, mas duas almas: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro – e a finalidade de ambas é transmitir a vida. A perda de uma delas equivale a perder a vida. Jacobina conquista o posto de Alferes, esta foi sua alma exterior, consubstanciada na farda que recebeu de presente dos amigos. Foram tantos os elogios e rapapés que a alma exterior dominou-o completamente. Passando uma temporada na casa de tia Marcolina, orgulhosa com a ascensão do sobrinho, queria vê-lo só de farda e mandou colocar em seu quarto um antigo espelho da família, a peça mais valiosa da casa. Tudo que não tivesse relação com o posto e a farda era indiferente ao moço. Como diz o narrador: “O alferes eliminou o homem”. Aconteceu então que a filha de tia Marcolina, que morava distante, adoeceu e a senhora deixou o sobrinho com os escravos e partiu; aproveitando-se da ocasião, uma noite todos os escravos fugiram. O jovem se viu numa terrível solidão, sentia intensamente o abandono de si na sucessão dos dias, e é difícil encontrar na literatura páginas que descrevam o isolamento humano de maneira tão admirável. Não mais havia os olhos da opinião pública para reconhecê-lo como alferes – e com isso perdera sua alma exterior.

Conflito de interesses

Um dos modos de composição de Machado, na elaboração de muitos de seus contos, é colocar em cena – e de forma aguda – um conflito de interesses. Caso exemplar, ainda do livro Papéis avulsos, é “A chinela turca”. O bacharel Duarte terminava de se arrumar para ir a um baile, pois lá estaria uma moça por quem estava apaixonado e com quem já começara a se envolver, quando chega uma visita. Lopo Alves era um velho amigo de seu pai e aparentado de sua pretendente, alguém que poderia recorrer para a concretização do relacionamento, caso houvesse necessidade. O homem havia assistido a um drama ultra-romântico e, influenciado por este, decidira escrever um, que agora trazia para ler ao amigo. Duarte não pode cometer a indelicadeza de mandar o visitante embora. Então, senta-se para ouvir, torcendo para que a leitura fosse breve e ele pudesse ir encontrar sua amada. Da leitura da peça interminável e cheia de lances próprios do ultra-romantismo irá brotar outra aventura, que tem o jovem bacharel como protagonista. Os episódios se sucedem de maneira vertiginosa, uma história de aventura e mistério de tirar o fôlego do leitor. E tudo que acontece irá se revelar falso no final, pois o verdadeiro drama ainda está acontecendo, que é o bacharel Duarte ter de ficar ouvindo uma obra romântica quando seu desejo era estar no baile com sua amada. Ao elaborar a história dessa forma, o escritor reescreve a escrita romântica sob novo enfoque. Nesse aspecto, o conto poderia ser lido como um metaconto, em que o autor propõe, na própria elaboração da obra, a criação de algo novo a partir de algo muito manjado.

Outro conto em que o autor realiza esse mesmo procedimento, de colocar em cena conflitos de interesse e chegar a uma tensão dramática violenta, é “Pai contra mãe”, do livro Relíquias de Casa Velha. Sempre houve a acusação de que Machado nunca foi entusiasta de grandes causas sociais, como a da abolição da escravatura. Isto é uma verdade, agravada pelo fato de o grande escritor ser descendente de escravos, mas é uma verdade também que poucas vezes a escravidão foi descrita de maneira tão cruel na literatura. Cândido Neves era um homem livre e pobre que não conseguia se firmar em nenhum ofício; casado com Clara, passam ambos por momentos de dificuldade e a situação é agravada com a chegada de um filho. Sem dinheiro, sua única saída seria entregar o filho à Roda dos Enjeitados. Na tentativa de conseguir algum sustento, atira-se à infame atividade de caçar escravos fugidos. Depois de várias tentativas frustradas, consegue capturar uma escrava cuja recompensa salvaria seu filho da Roda. A escrava grávida havia fugido exatamente para poder ficar com seu bebê e criá-lo em liberdade. Aí está o nó da questão: entre a sua felicidade de pai e o destino cruel que isso significava para a escrava e sua criança, a opção de Cândido era evidente. “Nem todas as crianças vingam”, justifica-se Cândido. O que está sendo relatado é um caso específico, mas o que ele revela em sua especificidade é uma realidade social atroz, que propicia que casos de tamanha violência possam ocorrer como coisa banal.

Outro conto que trata do mesmo tema – e aparentemente de forma mais sutil e menos cruel – é “O caso da vara”, do livro Páginas recolhidas. Nessa narrativa se vê com muita evidência que a autonomia do sujeito é uma falácia, pois há uma corrente de interesses próprios em que uns agem sobre os dos outros. Damião é um adolescente que odeia a vida do seminário, fugiu e não quer voltar para lá. Sabe que não pode ir diretamente para casa, pois o pai o levaria de volta depois de uma boa surra. Busca, então, refúgio na casa da amante do padrinho, Sinhá Rita, e, graças a muita bajulação, convence a senhora a ajudá-lo. A mulher pressiona o amante a convencer o pai do garoto a aceitar o menino de volta. Sinhá Rita tem na casa algumas crias e também ensina trabalho com agulha a moças de fora. O rapaz simpatiza com uma das escravas, Lucrécia, uma pequena de aparência frágil que riu de suas piadas. A dona da casa adverte à pequena que, se ao final do dia o trabalho não estiver terminado, a menina receberá o castigo de costume. Damião compromete-se intimamente a interceder pela escrava caso isso aconteça. O interesse do moço é deixar o seminário, mas a negociação com o pai é bastante difícil. Ao final do dia, o rapaz não pode fazer o que havia se comprometido intimamente, pois a interferência em favor da escrava poderia deixá-lo mal com sua benfeitora. Então, quando esta pede que Damião lhe alcance a vara para castigar a escrava, o jovem obedece.

O que vemos aqui é que todos dependem uns dos outros e, assim, ninguém é realmente livre. Claro que a violência maior recairá sobre quem se encontra no extremo dessa corrente, Lucrécia, a criatura mais frágil e desprotegida. Mais ainda, essa violência recebe o aval daquele a quem Sinhá Rita está fazendo um favor. Seria uma ingratidão, afinal, não ratificar a ação dessa senhora. O Poder exige o reconhecimento por palavras e ações.

Em alguns contos o conflito de interesses não se dá externamente entre personagens, mas dentro de um único sujeito. É o caso de “Entre santos”, do livro Várias histórias. O episódio é narrado por um velho padre, ocorrido quando era capelão de São Francisco de Paula. Vendo, certa noite, que havia luz na igreja, quando tudo já devia estar escuro, entra sorrateiro para ver o que se passava. O que vê é que os santos haviam saído de seus nichos e conversavam a respeito dos fiéis que tinham ido à igreja com seus pedidos. Como ocorre em muitos escritos de Machado, o caráter sobrenatural não está aqui para afirmar o sobrenatural, não estamos frente a um texto de Paulo Coelho, mas o intuito é desvendar os motivos bem humanos e terrenos. Como os santos são capazes de ver o que se passa dentro da pessoa, este é um artifício criado pelo escritor para contar o drama de um homem que estivera na igreja. O devoto chamava-se Sales e possuía um apego enorme pelo dinheiro. O caso é que tinha a esposa à beira da morte e estava ali para pedir, oferecendo uma contribuição monetária condizente, a intervenção do seu santo padroeiro. Amava de verdade a esposa, mas também o dinheiro que estava disposto a dar como sacrifício pelo seu pedido. São Francisco de Sales narra aos outros santos a luta que se travou no interior desse homem, de um lado o desejo de salvar a mulher, de outro o apego ao ouro que não lhe permitia soltar qualquer contribuição facilmente. Venceu a avareza, mas plenamente justificada, por meio de uma desculpa que serviu para aplacar a consciência do fiel: trocou a contribuição financeira por mil padre-nossos e mil ave-marias, que era moeda corrente mais própria do céu que da terra.

Vocações

É muito comum vermos os personagens machadianos buscando realizar seus desejos e encontrando obstáculos enormes. Ora esses obstáculos estão no mundo, ora dentro do próprio sujeito. Sobre este último temos o tema do desejo de realização artística atrapalhada pela falta de vocação, que se encontra admiravelmente bem realizado no conto “Um homem célebre”, do livro Várias histórias.

Pestana era um compositor popular de enorme sucesso. Suas polcas caíam facilmente no gosto popular, mas o que poderia trazer grande satisfação pessoal a qualquer outro era, para ele, o seu tormento. O que desejava era compor uma peça clássica, uma obra que fosse tão bela como a realizada por seus grandes ídolos, Mozart, Bach, Beethoven. Contudo, cada vez que se sentava ao piano, o que saía de seus dedos eram polcas, buliçosas polcas que, se lhe davam algum prazer inicial, eram vistas logo em seguida como as provas de sua incapacidade artística no campo da música clássica.

Em contraponto a este personagem, pensemos em Fortunato, um dos protagonistas de “A causa secreta”, do mesmo livro, Várias histórias. Este homem tem como parte essencial de sua personalidade sentir prazer com o sofrimento alheio. Mas o que seria um grande empecilho para qualquer um, afinal o sadismo é socialmente condenável, não é para Fortunato, que sabe converter o defeito em seu próprio favor, fazendo dele um bem social: funda uma Casa de Saúde e é o seu mais dedicado funcionário. Assim, pode ser sádico à vontade, contanto que faça o bem – ou seja, soube direcionar um desvio da normalidade para a realização de uma atividade respeitosa. Talvez, de fato não seja conveniente para a maioria de nós saber quantos médicos existem por aí que, como o nosso personagem, se empenham em salvar vidas e ajudar na recuperação da saúde alheia graças ao perverso gosto que possuem de ver sangue, de cortar a carne humana e costurá-la...

Diversos amores

Quando o empecilho é externo, é comum que o desejo se depare com a barreira das normas sociais. O amor ou desejo sexual podem encontrar o impeditivo da convenção; e quando isso acontece nas obras de Machado, temos o adultério – em grande número, aliás –, única possibilidade de realização do desejo. O problema, além da própria moral internalizada a ser vencida, apresenta a repugnância em relação ao ato vil, principalmente quando existe amizade entre os componentes do triângulo amoroso. Mas é o risco que a realização do desejo traz em si.

O conto “A cartomante”, do livro Várias histórias, é um exemplo notável na exploração desses aspectos. Os amantes aqui descuidam do risco que envolve seus encontros e pagarão de forma terrível por não terem tido nenhuma atenção a todos os indícios concretos de que o caso já era conhecido por outros. Preferiram acreditar no que seus corações queriam acreditar. O romantismo cego leva à destruição dos amantes, parece estar nos dizendo Machado sempre que trata do tema amoroso.

Ainda sobre o risco dessa crença absoluta no amor, só que em sentido completamente diverso, temos o conto “Noite de almirante”, do livro Histórias sem data. O casal de amantes fez juras de amor eterno, o rapaz era marinheiro e partiu em instrução de viagens. Após dez meses o moço retorna, orgulhoso por ter conseguido cumprir a palavra empenhada, mas descobre que a moça está agora com outro. Há na conversa da moça um impressionante jogo de dissimulação como bem apontou Alfredo Bosi [2] na apresentação desse conto. O curioso é que esta história parece ser a reescrita, guardadas as proporções, da fábula de Ulisses, só que de cabeça para baixo. Não é a história do marinheiro que sai, tem mil aventuras, inclusive amorosas, e retorna para a esposa que permaneceu o tempo todo fiel. A Penélope aqui é outra, mais realista, por certo: quem sabe o que o namorado andou aprontando enquanto esteve fora? Sabe-se lá se voltava? Por via das dúvidas arrumou outro, um mercador de curtas viagens, mais preso à terra e a ela.

Outra narrativa em que a prudência vale mais que a aventura amorosa é o conto “Uns braços”, do livro Várias histórias. Inácio, um adolescente, vê-se atraído por Dª Severina, uma mulher mais velha e casada. O moço vive na casa de Dª Severina, trabalha para seu marido. O rapaz nunca chega a declarar-se, é criança demais para qualquer ousadia, o máximo que faz é olhar para os braços da mulher, fantástica metonímia do corpo feminino. Um dia ela descobre através dos olhares de Inácio que é desejada. É o desejo do moço que faz nascer nela também o desejo. Mas a concretização deste se dará com um beijo, um beijo de sonho para o rapaz e de realidade para a mulher, numa cena magistralmente construída. Dª Severina, atordoada com o impulso que tivera – foi ela que, aproveitando-se do sono do jovem, deixou que, num momento, seu desejo se manifestasse –, logo se retrai. Entre uma aventura inconseqüente e a segurança do casamento, a mulher fica com a última.

Há coisas que só se pode perceber depois de haver transcorrido um longo tempo. “Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta.” Esta é a primeira frase do narrador-protagonista do conto “Missa do Galo”, do livro Páginas recolhidas. Nogueira lembra-se do episódio que se passa na véspera de Natal, ocorrido muitos anos antes, quando ele não tinha malícia suficiente para entender que toda aquela conversa com Dª Conceição era um jogo de sedução empreendido pela mulher. Como é próprio da linguagem da sedução, tudo aqui está subentendido. O marido vai se encontrar com a amante na véspera do Natal, mas isso não é dito de maneira direta: ia ao teatro, era a metáfora ou o eufemismo para dizer que Meneses dormia uma vez por semana com outra mulher. Tudo é dito pelo não dito, e Conceição fala não só por palavras, mas também com a linguagem do corpo, o balanço do andar, as aproximações, os gestos lentos, o falar sussurrado e o fechar e abrir dos olhos. O rapaz vê tudo, mas não percebe, e por isso o ato amoroso não se concretiza.

É possível observar um tema que atravessa – ora mais evidente, ora menos – todos os contos comentados até aqui, que é o da autonomia do sujeito, ou da falta de autonomia. A Natureza carregou os homens de desejos e aspirações, mas a todo instante encontramos empecilhos de ordem física ou social que impossibilitam ou condicionam suas realizações. A nossa felicidade depende de fatores independentes da nossa vontade, em alguns momentos da vontade do outro, muitas vezes da própria infelicidade do outro. Eis aí o pessimismo machadiano.



[1] Pereira, Lucia Miguel. Machado de Assis (estudo crítico e biográfico). Gráfica Editora Brasileira LTDA. São Paulo, 1949 – 4ª edição (p.145).

[2] Bosi, Alfredo. O enigma do olhar. Editora Ática, São Paulo, 1999.

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