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LITERATURA

Tantas palavras

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Quase ri dessa idéia absurda, outra que me cruzava o pensamento sem que eu soubesse de onde nem por que ela vinha. Mas me contive a tempo diante de um par de olhos que pareciam estar levando bem a sério a aventura

Luiz Paulo Faccioli - (22/08/2008)

Ela crispava as mãos aflitas, olhos grudados na pequena tela, o filme que já nem era novidade e eu apenas espiava de quando em quando, sem sequer usar os fones de ouvido. Seus lábios dublavam silenciosos uma cena de despedida, com uma paixão que me fez invejar o protagonista daquela história açucarada na tela minúscula da poltrona do avião que me trazia de volta ao Brasil. Apenas o corredor e um assento vazio nos separavam. Mesmo assim, fiquei um bom tempo a observá-la sem que ela me percebesse. Até que me descobriu de repente e estacou. Tentei com os olhos dizer-lhe que relaxasse, não prestasse atenção à atenção que eu lhe prestava. Só isso, mas nem isso consegui. Voltou ligeiro para o filme, o rosto agora impassível diante das palavras de amor que o casal seguia desperdiçando.

Que filme era aquele?

Depois que a pequena emudecera o movimento dos lábios, a tela ficou menor, e a ficção, ainda mais sem graça. Virei a cabeça, fechei os olhos. Não queria me interessar outra vez por um rosto jovem para em seguida descobrir os graves segredos que a delicadeza sempre mascara. Quais seriam dessa vez? Dormir, porém, foi impossível. De olhos fechados, acompanhava-a crispar as mãozinhas, mirar furtiva em minha direção, os lábios retomando pouco a pouco a mímica interrompida, primeiro uma ou outra palavra, depois uma frase solta, depois outra, por fim a completude de uma fala, até se esquecer totalmente que eu continuava ali, concentrada de novo naquele filme enjoativo.

Não sei quanto tempo passei fingindo que me distraía dela — cinco minutos, uma hora —, mas, na minha certeza, o bastante para que ela se distraísse de mim. Então voltei a cabeça, devagar e sem ainda abrir os olhos, e esperei mais um pouco antes de abri-los, não desejava surpreendê-la outra vez. A surpresa foi minha ao flagrar dois olhos que me fitavam atrevidos, e já não era mais a olhadela disfarçada que eu imaginava enquanto fingia o sono.

Antes que ela escapasse de novo, ouvi-a silenciosa murmurar:
Give me a kiss, darling.

Um quase imperceptível mexer dos lábios, mudo, que escutei bem articulado e sonoro, me fazia destinatário daquelas palavras ocas que eu conhecia só por ouvir falar.

Give me a kiss, pareceu repetir, enquanto desviava o rosto sem muita pressa.

Senti um estranho impulso de responder play it again, and again, and again, e meu silêncio ecoou sem resposta no silêncio dela que, ao contrário de mim, não era ainda capaz de escutar o que eu não dizia.

Aquelas palavras...

Naquele momento, naquele vôo que me trazia de volta ao meu país depois de tanto tempo lá fora, quando tudo o que eu poderia sonhar cabia na janela de um táxi de vidros abertos rodando rumo ao Leblon via Flamengo, depois Leme, depois Copacabana, depois Ipanema, no primeiro dos muitos dias de calor que eu teria dali por diante para exorcizar o inverno inesgotável em que estivera metido, aquelas palavras não ditas, numa língua da qual eu fugia por detestar tão profundamente, levavam-me a seguir um outro caminho.

Corriam os créditos finais quando me inclinei para ela e fiz um comentário qualquer sobre o filme. Falei sem a menor convicção e mereci como resposta um olhar de desapontamento. Por um instante fiquei sem saber o que dizer, mas logo ela se encolheu num risinho de vergonha, e essa foi a senha para que eu me sentasse a seu lado. Embora não parecesse, era tão brasileira quanto eu. E, assim como eu, viajava só e a trabalho.

Desembarquei no Galeão com um número de telefone rabiscado às pressas na palma da mão numa caligrafia infantil — quem sabe um cinema qualquer dia? Mas o que eu pensava ser apenas um capricho gracioso escondia a fragilidade que só depois iria desvendar: fora coadjuvante involuntário de uma cena já vista, roubada de algum daqueles filmes ingênuos que ela devorava. E que, assim como outros muitos, não sei dizer qual era.

Tanto eu ansiara por ter de volta o que mais me fizera falta: o sol, a praia, o chope no fim de tarde. A maravilha de andar entre corpos exuberantes em forma e cor e de poder viver sozinho sem nunca estar de fato só.

Fora o Rio, e nada mais, o que me fizera voltar.

Entretanto, um outro pensamento insistia agora em atrapalhar todos esses sonhos trazidos comigo do exílio.

Uma voz de criança atendeu quando, no terceiro dia, decidi enfim telefonar. O filme escolhido a esmo na programação do jornal começava dali a pouco mais de uma hora. Ela perguntou qual era o cinema e demorou menos que um instante para se decidir: me encontraria lá. Tentei ainda me desculpar por ter ligado assim, de forma tão intempestiva. Ela cortou, forçando uma entonação mais grave:

Frankly, my dear, I don’t give a damn...

Mais uma vez não reconheci de imediato aquelas palavras que me soaram, ao mesmo tempo, deslocadas e familiares. Agora, pelo menos, tive certeza de que não vinham da minha imaginação. Ela aprendera a frase em algum lugar e achou bonito repeti-la, uma brincadeira que a fazia parecer menos adulta do que de fato era. E a mim, um tolo que se deixava seduzir por tão pouco.

Ou então eu já não conhecia o desfecho da história?

Tamanha certeza não resistiu ao momento em que ela apareceu, um minuto antes de começar a sessão. Aí já não era a menina que repetia palavras esquisitas e me deixava incomodado com isso. Quem eu vi se aproximar, na altivez sedutora que os sapatos de salto emprestavam àquela estatura tão frágil, era uma Jacqueline Bisset misteriosa, pronta a embarcar no Expresso do Oriente na estação central de Istambul.

Quase ri dessa idéia absurda, outra que me cruzava o pensamento sem que eu soubesse de onde nem por que ela vinha. Mas me contive a tempo diante de um par de olhos que pareciam estar levando bem a sério a aventura.

Muito atrasada?, ela falou.

E nem esperou minha negativa para acrescentar:
I am so sorry, espichando aquele “so” de um jeito que traía sua despreocupação com o possível atraso.

Na hora certa, respondi.

Foi coincidência ser francês aquele filme. Escolhera sem nenhuma intenção, mas logo vi a oportunidade de mostrar a ela que existia cinema além de Hollywood. Tola presunção, pois de cinema ela sempre soube muito mais do que eu pretendia saber. Imaginei como seus lábios finos, que arremedavam com tanta graça a extravagância das palavras em inglês, iriam reagir à prosódia sutil de uma língua mais feminina. Ansiava por assistir de novo àquela performance da qual havia sido espectador, agora com esse novo motivo. Assim, mesmo tentando disfarçar a ansiedade, não conseguia desviar os olhos dela.

Ela se manteve um longo tempo distante da atmosfera do filme, o que só confirmou minha impressão de que estava mais habituada à grandiloqüência dos norte-americanos. De súbito, sem que eu tivesse percebido quando ou como se dera a metamorfose, ela me olha, e os olhos são os de Juliette Binoche. Projetado na penumbra da sala, o cenário é Paris, Pont Neuf, e me vejo eu mesmo na pele de um de seus célebres amantes.

Foi tão rápido. Quando voltei a mim, havia uma pequena e trêmula mão entre as minhas, meus lábios indo finalmente ao encontro daqueles com os quais tanto sonhara.

E eu era outra vez garoto, vivendo fantasias numa sala de cinema.

Tudo aconteceu como num filme a que assisti e do qual só lembro de cenas esparsas, desencontradas, que não conseguem formar um enredo completo nem muito menos convincente. Os filmes que víamos juntos ou tentávamos ver, as palavras de que ela gostava e copiava, ela me confessando encabulada que as repetia assim, só por gostar. Eu encantado, vendo graça em tudo que ela dizia, enquanto o que passava na tela ia se confundindo de tal modo com o que vivíamos aqui fora que acabou depois embaralhando minhas lembranças.

No escuro de uma sala de cinema, ela virava atriz e me fazia par ou espectador, dependendo de suas vontades. Eu me sujeitava docilmente a ser ora uma coisa, ora outra. Não foi difícil aprender. Sussurrávamos nossas paixões com frases que não nos pertenciam, trocando sons e confissões que recém tínhamos ouvido em outras bocas. Finda a sessão, seus lábios seguiam se movendo com palavras vazias ou já fora de si. E, sem que eu percebesse, minha boca também começava a repetir ventríloqua as palavras que ela tanto adorava.

Só porque ela adorava.

Play it again, eu repetia e repetia e repetia sem dizer, e então ela já me ouvia, corava levemente as maçãs do rosto e suspirava antes de recomeçar.

Tampouco lembro de como surgiu a primeira frase destoante naquele roteiro onde nada parece ter combinado com nada e que só mesmo a nós fazia algum sentido, e só naquele nosso tempo. Em meus lábios foram brotando palavras estranhas, algumas tristes, outras amargas, outras ainda tão frias que talvez nem fossem de cinema. Mesmo que elas pesassem, mesmo que machucassem por um instante ou que doessem por muitos instantes, ela se livrava de todas elas ao trocar de personagem. E então minha boca, que eu já não comandava, ia cuspindo palavras cada vez mais duras. Como quando falou: perdi, perdu. Perdidos os dois.

Dessa vez, elas não eram mesmo de filme nenhum.

Até que um dia, sem que eu compreendesse, minha boca murmurou:
C’est fini.

Ela me olhou num susto e estacou. Travou os lábios, retesou o corpo como pôde em sua dignidade franzina, entrou miúda e sozinha para uma última sessão.

Um filme que há muito já saiu de cartaz.



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