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CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Praias, pandeiros e limoncelos

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As primeiras notas foram facilmente reconhecidas. E todos entraram juntos no refrão de No Woman No Cry. Todos, menos o próprio violeiro, que ficou novamente pelo caminho, mais estático que a Vênus de Milo

Daniel Cariello - (22/08/2008)

Paris fica a centenas de quilômetros do oceano. Mas no verão, ou no que eles chamam de verão, tem sua própria praia, a Paris Plage, nas margens do rio Sena. E tem tudo a que se tem direito: areia, corpos bronzeados, espreguiçadeiras, cerveja gelada e uma grande programação de espetáculos e eventos. Só falta mesmo o mar, esse pequeno detalhe.

Fui lá um dia desses, à noite, pra um show. Cheio pacas. Não dava pra chegar perto do palco. E nem pra ouvir de longe, pois não havia caixas de som espalhadas pelo lugar. Ou pagava uma de sardinha e me enlatava lá na frente ou desistia. Fiquei com a segunda opção. Assim como os amigos com quem estava.

Yasir, um desses amigos, carrega um pandeiro aonde vai. Ele pode esquecer os documentos, o dinheiro e até o próprio nome, o que já vi acontecer algumas vezes. Mas o pandeiro ele não esquece jamais.

Sem ter o que fazer, sentamos à beira do rio. Rapidamente, o a partir de agora chamado psicopata do pandeiro sacou seu instrumento, numa velocidade digna de pistoleiro. E antes que eu pudesse impedir, passou a tocar e cantar seu repertório repleto de hits. O cara é animado. Se começar, não pára. É do tipo que, se tivesse uma banda, só sairia do palco expulso. Se fizesse um filme, colocaria cenas depois dos créditos. Se escrevesse um livro, faria a enciclopédia Barsa parecer gibi.

Nesse dia, porém, ele disputou os holofotes com outro figura.

Entre uma pandeirada e um "la la iá", surge do nada um sujeito com um violão em uma das mãos e uma garrafa de limoncelo em outra. Bandana na cabeça, pose de roqueiro, bigode, era a cópia francesa do [Santana-.http://www.cathedralstone.net/Pics/...]. Sua chegada na roda foi impactante. Todos silenciaram e o encararam. "Deve tocar muito", era o pensamento comum. Sem dizer nada, posicionou o violão, levantou a palheta e mordeu a ponta da língua, preparando-se para atacar as seis cordas. Tensão geral. A palheta continuou levantada, agora refletindo a luz da lua. Estávamos ansiosos pelo desfecho daquilo, pela reencarnação de Hendrix. Sua mão começou a se mover. E a palheta lentamente escorregou pelos seus dedos e caiu, enquanto a língua continuava meio de fora, já com um pouco de baba. Nosso guitar hero ficou assim longos segundos, travadão da silva.

Sem titubear, o psicopata do pandeiro puxou logo uma versão de Mas Que Nada, acompanhado alegremente pelos diversos franceses que já tinham se enturmado, e batiam palmas e cantavam a plenos pulmões.

Santana cover, de volta da sua viagem tipo miojo, instantânea e pessoal, não encontrava a palheta desaparecida. Então sacou de um canivete que trazia no bolso e cortou uma garrafa pet, improvisando um novo artefato. Com isso, resgatou um pouco do respeito que havia conquistado e perdido tão rapidamente. Observando o movimento, o psicopata do pandeiro não parecia disposto a fazer outra concessão no seu set list, e continuou a surrar o couro.

Vendo que não dava pra competir, Santana cover esperou o fim da música, deu um gole do limoncelo e pediu a palavra.

— Vou tocar uma pra todo mundo. E você, com o pandeiro, pode acompanhar.

As primeiras notas foram facilmente reconhecidas. E todos entraram juntos no refrão de No Woman No Cry. Todos, menos o próprio violeiro, que ficou novamente pelo caminho, mais estático que a Vênus de Milo. Sem perder tempo, o psicopata do pandeiro fez um rápido medley, e passou de Bob Marley a Camille, para a alegria dos franceses.

Com a apresentação inevitavelmente comprometida, Santana cover, mais uma vez de volta, deu outro gole da garrafa e levantou-se, determinado. Foi em direção a Yasir, que aumentou a intensidade das pancadas no instrumento. O guitarrista continuou andando. O pandeirista, pandeirando. Um olhava pro outro, fixamente. Eis que, no meio do caminho, o viajante solitário mudou bruscamente de direção e foi rumo ao rio. Despencaria tal uma âncora, não fosse a pronta intervenção de um dos presentes, que e o aparou e ainda o convenceu a voltar pra casa.

— Tá bom, nós vamos.

Disse isso, pegou o violão, virou o resto do limoncelo e saiu conversando animadamente com alguém que só ele via. Aproveitei e fui também, mas pro outro lado. Só o psicopata do pandeiro ficou. Afinal, com ou sem Santana, Hendrix ou Bob, o show tinha que continuar.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Sene-Sene-Senegal
— Táxi?
— Não, obrigado.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Mas alguém vem te buscar?

Pequenos espaços, grandes problemas
— E aí escolheram a resposta mais criativa. — Que pergunta? — "Qual a diferença entre a mulher e a televisão?" — E o que você respondeu? — O controle remoto!

Arigatô, monsieur
. No bairro chinês tem um McDonalds com cardápio em chinês. Ou em japonês, sei lá.
. Apesar de ter sido criado por um japonês, o Miojo e seus derivados são chamados aqui de "macarrão chinês".
. O bairro chinês, na verdade, fica na Praça da Itália.

Um quadro, três histórias
Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja

Salamaleque!
— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra. — Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir. — Bra bra bra bra bra loja... Gentil bra bra. — Que isso... Precisando é só chamar.

Roteiro de viagem — Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.

Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.

Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"

Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



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