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Ciência no Brasil e na América Latina: conquistas e desafios

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O enorme crescimento da produção científica, no continente, ainda não se refletiu em qualidade e repercussão das pesquisas. É preciso identificar os gargalos, e lembrar que, para fazer evoluir a ciência nacional, o Brasil não pode abrir mão do que lhe é mais precioso: o cientista brasileiro

Tatiana Al-Chueyr Pereira Martins - (13/09/2008)

Felizmente passou-se o tempo em que ministros de Estado afirmavam ser mais barato comprar ciência e tecnologia prontas do exterior do que desenvolvê-las no país. Após a crise econômica que assolou a América Latina na década de 1990, ocasião em que um ministro argentino aconselhou cientistas a “lavarem pratos” como carreira, a ciência na região tem presenciado tempos melhores.

Nos últimos quinze anos, a produção científica latino-americana cresceu num ritmo superior ao dos países desenvolvidos. O número de artigos publicados em periódicos indexados ou com visibilidade internacional subiu de 7 mil, em 1990, para 18 mil, em 2004. No mesmo período, a formação de doutores em ciências e engenharias saltou de 1,6 mil para 7,8 mil. De acordo com o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, a produção científica brasileira teria atingido, em 2006, números que colocam nosso país na 15ª posição dos países que mais publicam artigos científicos.

Estranhamente, ao longo do período de 1990 a 2004, os investimentos em Ciência e Tecnologia (C&T) não acompanharam o crescimento do número de publicações. Nestes anos, as inversões brasileiras no setor permaneceram estagnadas em 1% do PIB, enquanto as dos norte-americanos correspondem a 2,4%. Ainda, os recursos recebidos pelos cientistas brasileiros, em média, neste período, seriam 75% menores que nos Estados Unidos.

O paradoxo gerado entre a limitação de recursos neste período e o crescimento vertiginoso da ciência na América Latina é discutido pelo biólogo Marcelo Hermes-Lima em artigo intitulado Para onde vai a América Latina?, publicado no periódico da União Internacional de Bioquímica e Biologia Molecular (IUBMB Life) em abril de 2007. A análise do cientista apresenta uma realidade indigesta: trabalhos publicados por latino-americanos, estatisticamente, têm qualidade inferior e refletem alto custo humano.

Ao verificar o número de citações por artigo publicado, os trabalhos brasileiros teriam sido citados em média 4,7 vezes, em comparação com as publicações norte-americanas — que teriam rendido a média de 13 citações. Com este dado, é possível deduzir que a qualidade e, portanto, a visibilidade da pesquisa científica não estão intimamente relacionadas ao número de publicações do país, mas aos investimentos no setor. Afinal, o que justifica a falta de visibilidade das publicações nacionais? Não estamos produzindo ciência de qualidade?

É necessário publicar pelo menos dez artigos a cada três anos, para manter uma bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq. É insustentável dedicar-se constantemente a pesquisas inovadoras e de grande impacto, com tal obrigação

Sem oportunidades no setor privado, cientistas permanecem em universidades, criando uma demanda cada vez maior por bolsas e investimentos de órgãos públicos. O modo pelo qual as instituições de fomento selecionam os pesquisadores que serão atendidos baseia-se em critérios estatísticos, dentre os quais o número de artigos publicados por período. É necessário publicar pelo menos dez artigos a cada três anos, a fim de manter uma bolsa de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em algumas áreas. É insustentável dedicar-se constantemente a pesquisas inovadoras e de grande impacto com a obrigação de manter tal quantidade de publicações.

Altas cobranças, baixos salários, dependência financeira em relação ao governo e dificuldade em comprar equipamentos necessários para pesquisa são fatores que, somados à burocratização, falta de agilidade na importação e alto custo de produtos e de insumos de pesquisas científicas, colocam muitos cientistas em posição nada competitiva, quando comparada às de países desenvolvidos.

Ainda que em condições desiguais, o cientista brasileiro tem sido responsável por pesquisas científicas bastante relevantes no contexto mundial. Um exemplo de conquista nacional nos últimos anos é o Biophor. Pigmento branco desenvolvido em 2005 a partir de nanopartículas de fosfato de alumínio, o material promete trazer novas perspectivas ao mercado mundial de tintas à base de água. A pesquisa foi conduzida pelo professor Fernando Galembeck, em uma parceria entre o Instituto de Química (IQ) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a empresa Bunge. O material compete com o dióxido de titânio, substância atualmente empregada na confecção de tintas de cor branca. Dentre as vantagens do material desenvolvido no Brasil, constam a redução de preço – o valor é de 10 a 15% mais baixo que o dióxido de titânio –, a durabilidade e a facilidade de aplicação da tinta, além de poder ser produzido sem agredir o meio ambiente e sem gerar resíduos.

Um outro exemplo de como a ciência nacional permite o desenvolvimento de tecnologias que ganham mercado interno e externo, beneficiando o meio ambiente, é o motor bicombustível flex. O motor, desenvolvido em esfera nacional desde 1991, com apoio da Bosch, oferece flexibilidade na hora de escolher o combustível. Apesar de ser baseado em um projeto norte-americano, não sendo uma idéia completamente original, pesquisadores brasileiros tiveram o mérito de adaptá-lo à nossa realidade e de reduzir drasticamente seu custo de produção.

Como conseqüência do desenvolvimento de tecnologia nacional em motores flex, nove engenheiros brasileiros foram contratados pela General Motors para adequação da tecnologia ao território norte-americano. Mais do que nos alegrarmos pelo reconhecimento de nossos cientistas por países desenvolvidos, este acontecimento deve ser visto como um problema. Não basta que o Brasil invista em ciência, tecnologia e forme pessoas. É fundamental que haja mercado e demanda internos preparados para absorver a mão de obra altamente qualificada produzida, com condições salariais justas.

Cerca de 1,2 milhões de latinos, com formação altamente qualificada, deixou seu país, entre 1961 e 2002. Esta perda de cérebros, muitas vezes denominada brain drain, tem custo direito e indireto estimado em 400 bilhões de dólares

Um estudo realizado com base em dados do Centro Latinoamericano de Demografia mostrou que cerca de 1,2 milhões de latinos, com formação altamente qualificada, deixou seu país de origem entre 1961 e 2002, emigrando para os países desenvolvidos. Esta perda de cérebros, muitas vezes denominada brain drain, tem custo estimado de 30 bilhões de dólares apenas no tocante à formação acadêmica destas pessoas (aproximadamente 25 mil dólares per capita). Os custos indiretos, associados ao que estes profissionais economicamente ativos poderiam agregar ao PIB do país, transformariam a perda econômica em 400 bilhões de dólares. Ou seja, formamos cientistas qualificados que são absorvidos por outros países. Observamos que o brain drain se traduz em money drain.

Ainda é possível observar que o registro de patentes não tem acompanhado o crescimento da produção científica. O índice de patentes, indicador da capacidade inovativa de empresas, é incipiente no país. Há uma estreita relação entre inovação e desempenho econômico – EUA, Japão e Alemanha são os países que mais registram patentes e também os mais ricos do mundo. O Brasil, por outro lado, ocupa a 28ª posição no ranking de patentes, o que não combina com sua posição de 10ª economia mundial. No país ainda há poucos estímulos para utilizar conhecimento gerando retorno econômico – e isso acaba por afastar a própria mão-de-obra qualificada produzida pelo país.

Os problemas de atraso científico e tecnológico no Brasil e na América Latina são, principalmente, sociais e políticos, e não científicos e técnicos. A atividade científica só faz sentido quando relacionada com a aquisição de novos conhecimentos. Os problemas de subdesenvolvimento, entretanto, não são normalmente de ignorância, mas da falta de políticas e de condições sociais para aplicar conhecimentos já estabelecidos para solução de problemas sociais e econômicos relevantes.

Com o objetivo de aplicar tecnologia à inclusão social, o Centro de Pesquisas Renato Archer (uma unidade do Ministério da Ciência e Tecnologia) tem auxiliado inúmeros portadores de anomalias a serem reintegrados à sociedade. A instituição foi responsável pelo desenvolvimento de um software livre, denominado InVesalius, que permite criar, a partir de imagens médicas de tomografia em duas dimensões, modelos virtuais tridimensionais. A ferramenta torna possível também a produção de réplicas físicas em tamanho natural de estruturas anatômicas como crânios, por meio da tecnologia de prototipagem rápida, possibilitando que cirurgiões simulem intervenções cirúrgicas complexas.

O lançamento, em novembro de 2007, do pacote que pretende investir R$ 41 bilhões na ciência e tecnologia até 2010 agradou à comunidade científica brasileira. De 1% do PIB para C&T, o país passará a 1,5%

Nos últimos cinco anos, a instituição foi responsável por auxiliar no tratamento de mais de mil pacientes de diversos hospitais da rede pública de saúde. Cirurgiões descrevem que, com o emprego da tecnologia, o tempo de operação pôde ser reduzido em 50%, acarretando redução do risco de infecção hospitalar para o paciente e permitindo um melhor resultado estético, além de reduzir o tempo em mesa cirúrgica, reduzindo custos para o SUS (Sistema Único de Saúde). Infelizmente, a quantidade de pacientes de anomalias cranio-faciais, reintervenções ortognáticas, problemas ortopédicos, traumas e tumores já atendidos é pequena perto da demanda no país. Seriam necessários mais estímulos e recursos humanos, para a continuidade e disseminação de projetos como este.

O lançamento pelo governo, em novembro de 2007, do pacote que pretende investir R$ 41 bilhões na ciência e tecnologia até 2010 agradou à comunidade científica brasileira. De 1% do PIB para C&T, o país passará a investir 1,5%. Para pesquisadores, o volume de recursos é significativo e atende à expectativa do setor, podendo ocasionar grandes melhorias a ciência nacional. Resta a esperança de que este recurso seja bem empregado, permitindo a continuidade de projetos já existentes, dando margens a novas iniciativas e mantendo cientistas brasileiros no país.

É importante que o Brasil desenvolva uma integração entre a ciência e a indústria nacionais, de modo que a criatividade e o conhecimento retornem frutos para o país. Não há sentido em produzirmos petróleo e dá-lo de mãos beijadas a outros países. No Brasil há grande produção científica-tecnológica, competitiva em relação a países muito mais ricos. O entrave para sua evolução e disseminação é de gestão política e social. Só será possível melhorar a qualidade da ciência nacional com investimento em recursos humanos e desenvolvimento sustentável de tecnologia, com envolvimento de empresas privadas. Para fazer evoluir a ciência nacional, o país que foi berço de grandes pesquisadores como Alberto Santos-Dumont, Carlos Chagas e Cesar Lattes, não pode abrir mão do que lhe é mais precioso: o cientista brasileiro.



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