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LITERATURA

Quando o labirinto é o mundo

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A trama de Saramago é simples mas não é agradável. Seus personagens abandonaram toda a esperança, como se diz no pórtico do inferno dantesco

Fábio Fernandes - (12/09/2008)

Ao reler Ensaio sobre a cegueira (Editora Cia. das Letras), em homenagem ao filme de Fernando Meirelles, que estréia neste 12 de setembro aqui no Brasil, lembrei-me de dois contos que precedem o romance de José Saramago em mais de meio século, ambos curiosamente pertinentes no contexto dessa história.

O primeiro é o conto curto “Dois reis e dois labirintos”, de Jorge Luis Borges. A pequena fábula recontada pelo genial argentino (não por acaso cego) conta a história de um rei árabe aprisionado num labirinto convencional pelo rei da Babilônia, e que, ao sair, humilhado, promete um dia mostrar seu próprio labirinto – coisa que faz, pouco depois, quando irrompe a guerra entre ambos. O rei árabe joga o babilônio no meio do deserto e diz: este é meu labirinto. E vai embora.

O segundo é “Entre as paredes de Eryx”, de H. P. Lovecraft, um mestre do conto de horror que já foi muito desprezado por seu estilo rebuscado, mas que hoje tem tido um revival merecido: nessa narrativa, ambientada num futuro em que o homem começou a explorar os planetas do sistema solar, um explorador vai a Vênus resgatar membros de uma expedição anterior e se vê preso em um labirinto invisível, do qual não consegue sair, por mais estratagemas que utilize.

Labirintos invisíveis. Labirintos grandes como o deserto. O que eles têm em comum é que não se pode encontrar a saída. O mapa virou o território.

E quando o labirinto é o mundo?

É essa a minha interpretação de Ensaio sobre a cegueira hoje, numa leitura tão distante da que fiz há mais de dez anos. A cegueira não apenas como impedimento de ver o que está diante de nossos olhos no momento presente, mas também do que sempre esteve lá e nunca recebeu a devida importância: a civilização. E a descoberta de como ela não é mais do que um verniz muito fino sobre a dura madeira do ser.

Qual esperança?

Ensaio sobre a cegueira não chega a ser uma fábula moderna, mas bebe em suas águas. Saramago, dizem (ele próprio diz) não faz ficção científica, mas certamente aponta para esse caminho. Porque tudo depende de conceitos, tudo depende do que se entende por ficção científica. Saramago acrescenta e é acrescentado a uma longa e honorável lista de precursores, como John Wyndham, autor de The Day of the Triffids, onde, depois de testemunhar uma estranha chuva de meteoros, a maior parte da humanidade fica cega. A exceção, até onde se sabe, é um homem que estava com os olhos vendados por ter sofrido uma cirurgia recente. Como a mulher do médico do Ensaio..., a única pessoa que não fica cega e que testemunha os horrores da regressão à barbárie – barbárie essa que já começa com a internação dos cegos num manicômio abandonado, onde, apesar das palavras (vazias) do governo, eles são entregues à própria sorte.

O livro também se assemelha a episódios da clássica série de TV dos anos 50, The Twilight Zone (aqui conhecida como Além da Imaginação) – mas com um sabor ibérico. Um gosto amargo na boca, de quem passou por ditaduras e de quem sabe que não há redenção em gestos grandiosos, que na hora do aperto todo mundo é indefeso, ninguém pode contar com ninguém a não ser consigo mesmo (e às vezes nem isso). É na treva branca (ou mal-branco, como a estranha doença que cega os humanos é conhecida) que os homens se revelam em toda a sua selvageria. Sem segurança, eles crêem que nada mais há a perder.

A trama de Saramago é simples mas não é agradável. Seus personagens mergulham no labirinto de corredores do manicômio abandonado como Dantes num labirinto sem Virgílio que os guie (ou que os acuda). Abandonaram toda a esperança ao entrar, como se diz no pórtico do inferno dantesco.

Sua escrita é convoluta, arbórea, por vezes quase rizomática em seus desvios e paradas para ironizar o comportamento humano. Labiríntica. E, no entanto, Ensaio sobre a cegueira é um labirinto no qual entramos com prazer, percorremos com vontade, e cujo final procuramos desesperadamente, com uma esperança tão humana mas talvez fútil, pois Saramago pensa como Kafka, que um dia disse: “A esperança existe, mas não para o homem”.



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