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CULTURA PERIFÉRICA

Linha de Passe: um gol de letra e um gol-contra

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Em seu novo filme, Walter Salles e Daniela Thomas constroem uma história brasileira que debate, com profundidade e sutileza, a existência e os dramas humanos. Mas o cacoete de associar periferia a infelicidade dá à obra um tom de chavão e frustra a própria intenção de esperança do diretor

Eleilson Leite - (22/09/2008)

Entrou em cartaz no último dia 5 o excelente filme Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. Trata-se de mais uma grande contribuição da dupla brasileira ao cinema mundial. Obra de grande vigor dramático e direção poética. O desempenho dos atores é formidável, o que rendeu merecida premiação em Cannes para a atriz Sandra Corvelone. Tudo isso e muito mais já foi exaustivamente observado pela imprensa brasileira, que deu ao longa cobertura um tanto exagerada. Quero tratar aqui de um outro aspecto do filme e, por extensão, às múltiplas produções nacionais da década atual que têm utilizado a periferia como cenário.

Em Linha de Passe, os diretores ambientaram uma história de buscas e incertezas de cinco pessoas de uma mesma família, num cenário de carência material e humana agravado pela ausência da figura paterna; uma gravidez, se não indesejada, inoportuna para uma mãe na faixa dos 40 anos, que cuida sozinha dos quatro filhos de pais diferentes. A história se passa durante seis meses do ano de 2007 e é marcada a todo momento com cenas da torcida corintiana em seu sofrimento ao ver o time de Parque São Jorge sucumbir à segunda divisão do campeonato brasileiro de futebol. Não por acaso, a matriarca da família está lá, no meio da torcida Gaviões da Fiel, testemunhando mais uma derrota do timão. Uma história assim só poderia se passar na periferia. Será? Seja como for, um bairro do distrito de Cidade Líder, na Zona Leste de São Paulo serviu de cenário para a trama, agregando ainda mais realismo à história. E as doses de realismo são cavalares. Veja como são os personagens.

Cleuza, a mãe, é afastada, por causa da gravidez, do trabalho de empregada doméstica –sua única fonte de renda. Além de ter perdido o marido com quem teve os três filhos mais velhos, segurou as pontas sozinha do mais novo, omitindo do garoto, Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), a verdadeira identidade do pai. O caçula porém, presume que o desconhecido pai é negro e motorista de ônibus. Inconformado com a situação, ele está sempre de mau humor, em virtude do preconceito de vizinhos e dos próprios irmãos.

Reginaldo vive a andar de ônibus pela cidade e cria afeição por um motorista negro que parece ser seu pai. O resto do dia, ele fica deitado no sofá da sala vendo TV; ou vai, pela manhã, à escola municipal, onde se mete em encrencas com os colegas no futebol na hora do recreio. Com as lições que teve com seu suposto pai e de tanto observar os condutores, aprendeu a dirigir e numa tarde de um dia sem trânsito, seqüestrou um ônibus e saiu pela cidade sem destino.

Dario entra os 42 minutos do segundo tempo. Numa jogada de craque, sofre falta dentro da área: pênalti. Vem a cobrança e o fim do filme

Dario, que é interpretado por Vinícius de Oliveira (o mesmo de Central do Brasil), está a alguns dias de completar 18 anos. Seu sonho é se tornar jogador de futebol e vive a aflição de não poder mais se inscrever nas peneiras dos clubes, das quais participou inúmeras vezes sem sucesso. No dia em que sua mãe lhe prepara uma festinha-surpresa pelo seu indesejado aniversário, ele chega atrasado, por estar envolvido na adulteração da carteira de identidade, e quase estraga a festa. Com o RG falso, ele finalmente consegue ser escolhido num time, mas a plástica grosseira do documento é percebida pelo treinador, que o dispensa.

A última esperança de Dario era ser contratado pelo Tiradentes, uma espécie de time de terceira divisão. O técnico, porém, exige 3 mil reais para incluí-lo na equipe. Com a promessa de conseguir o dinheiro, e avalizado por um conhecido, o técnico aceita colocá-lo no banco de reservas, num jogo decisivo. Aos 42 minutos do segundo tempo, ele entra. Numa jogada de craque, sofre falta dentro da área: pênalti. Vem a cobrança e o fim do filme.

Dinho (José Geraldo Rodrigues) é evangélico recém-convertido. Esforça-se para manter a nova conduta e foge do assédio dos amigos da quebrada, os quais passa a rejeitar. Freqüenta o culto de uma pequena igreja, que sofre a perda de fiéis para uma hiper-igreja instalada recentemente no bairro. Trabalha num posto de gasolina e leva uma vida rotineira do trampo para casa, de casa para a igreja. Certa noite, no posto, ele é assaltado: um motoqueiro leva o dinheiro que tinha no bolso. Incrédulo, seu patrão escorraça o rapaz e o demite. Num surto incontrolável, Dinho espanca o patrão. Transtornado, sai pela noite bebendo de bar em bar, até cair na porta de sua igreja, onde é resgatado pelo pastor.

Na manhã seguinte, dali mesmo ele pega a caravana para uma sessão de batismo nas águas de uma represa. Completamente introspectivo, ele auxilia uma senhora deficiente física no ritual de iniciação. O pastor, que já havia tentado uma vez na igreja, pede para esta senhora andar. Dinho, que já não havia acreditado na experiência anterior, vive um momento de crise intensa. Abandona o lugar e sai caminhando sem rumo, mas com um certo olhar de conquista.

A tragédia toma conta das vidas dos personagens, numa sucessão interminável de desacertos, desencontros e desgraças. Mas Salles vê sinal de esperança

Já Denis (João Baldasserini) é motoboy do tipo vidaloka. Vive intensamente a dor e a delícia de ser o que é. Sua referência de futuro são apenas as últimas e intermináveis prestações de sua motocicleta. Ele tem um filho que não assume. Certa vez, durante uma visita, o bebê se assusta com sua presença. A mãe, um tanto saudosa dos tempos de namoro, é bem paciente com o pai negligente, mas cobra o dinheiro para os remédios do menino, quando Denis a convida para uma noite no motel. Acostumado a ver ações de assaltantes motoqueiros no trânsito, Denis resolve tentar a sorte no ramo. Dá certo. Começa a aparecer dinheiro para o filho e ele dá, à mãe, uma bolsa “com tudo dentro” — como diria Chico Buarque na canção Guri.

Não passa muito tempo, o esquema cai num roubo mal-sucedido. O parceiro escorrega da moto e é atropelado. Ele bate na lateral de uma Pajero e rola por cima do capô do carro de luxo, ferindo-se sem gravidade. De dentro do veículo sai um assustado executivo. Esperto, Denis reverte a situação. Com a mão dentro do bolso da jaqueta, simula uma arma. Entra no carro e faz o motorista conduzir o veículo até um terreno baldio numa quebrada qualquer. Tomado pelo medo e totalmente entregue, o dono do carro pede a Denis apenas que lhe preserve a vida. O garoto exige que o sujeito olhe para ele. O cara olha e desaparece. O motoboy, não se reconhecendo naquela cena, abandona o carro e todos os bens da vítima e, como Dinho, sai andando.

Linha de Passe não tem coadjuvantes. Fica tudo concentrado nesse núcleo, todos protagonistas. A tragédia toma conta das vidas dessas pessoas numa sucessão interminável de desacertos, desencontros e desgraças. Daniela Thomas disse que tem muita “empatia com o sofrimento alheio” e procura ter um “olhar por dentro do turbilhão”. Com uma carreira mais ligada ao teatro, ela consegue manter o foco dramático do filme, dando-lhe uma intensidade que absorve o espectador na trama. A gente sai do cinema transtornado como se tivéssemos vivido o drama.

Walter Salles, cujo humanismo é amplamente reconhecido em suas obras, faz em Linha de Passe muitas referências ao seu mestre Wim Wenders – sobretudo a seu clássico filme Paris, Texas. “Anda” é um mantra que fica exposto no final do filme. Andar é o jeito que o personagem central de Paris, Texas encontra para se reconciliar consigo mesmo. Deve estar aí a esperança que, segundo Salles, seu filme transmite. “Talvez o filme não expresse isso ao longo da narrativa, mas no final é imbuído de uma certa idéia de que as coisas dêem mais certo do que deram no passado”, declarou o diretor à Folha de São Paulo.

Será que, por serem pobres, as pessoas da periferia estão condenadas à desgraça? Será que ninguém pode ser feliz mesmo vivendo num ambiente precário?

Observando o filme como uma crônica social, fico instigado a questionar se essa história poderia acontecer em outro lugar que não fosse um bairro de periferia, desses bem nas bordas da cidade, como é a região onde aconteceram as filmagens. Igreja evangélica não é privilégio da quebrada. A Renascer tem um templo enorme na Vila Mariana, que atrai milhares de jovens de classe média e tem no jogador de futebol Kaká um de seus adeptos mais famosos. Família chefiada por mulher tem muito na perifa, mas com cinco filhos (um está para vir), é cada vez mais raro.

O sonho de se tornar jogador de futebol está na cabeça dos garotos pobres ou ricos. Achar que Dario queria se tornar atleta para “sair da exclusão”, como dizem as resenhas que li sobre o filme e os próprios diretores, me soa simplista. O cara estava a fim de ser jogador. Ganhar dinheiro, ou não, era outra questão. Ser motoboy, com todas as dificuldades da profissão, é uma forma digna de se sustentar. É arriscada, mas tem seu divertimento. Para um jovem, não é necessariamente algo penoso. Não saber a identidade do pai não é um drama só para gente pobre. A protagonista da novela da Globo, que é ricaça, sequer sabia quem era sua verdadeira mãe. Aliás, nas novelas, dúvidas sobre paternidade recaem mais sobre os ricos do que sobre os pobres.

Não por um acaso, moradores da periferia de São Paulo que assistiram ao filme numa sessão especial não se identificaram plenamente com Linha de Passe. Promovido pela Folha de São Paulo e Unicef, o evento reuniu 250 pessoas logo após a estréia do filme. Os convidados incomodaram-se com o “clima de derrota” de Linha de Passe. “São coisas que a gente sempre vê sobre a periferia. Por que não mostrar outros pontos de vista?”, questionou a jovem Karina Ferreira da Cruz, de 21 anos, que é evangélica.

O fato é que Linha de Passe acaba contribuindo para estigmatizar a periferia, como faz a maior parte dos filmes que desenvolvem suas tramas nas franjas da metrópole. Será que, por serem pobres, as pessoas da periferia estão condenadas à desgraça? Será que ninguém pode ser feliz mesmo vivendo num ambiente precário? Será que pobre não ama, não transa, não se encanta com os filhos, amigos e a comunidade? É incrível, mas nos filmes que tratam da periferia não tem sarau, roda de samba, grafite colorindo os muros. Não tem hip hop. Será que Antonia, de Tata Amaral, ficará como exceção? Está para vir o filme Bróder do Jeferson De, que certamente mostrará uma periferia com pulsões de vida. Por outro lado está em finalização o novo longa de Sergio Bianchi. Foi rodado na Brasilândia, como Antonia. Quem conhece o trabalho desse importante diretor pode esperar mais desgraça sobre a periferia...

Não se trata de resignação, comodismo ou alienação. Pelo contrário. Na quebrada, o povo está de cabeça erguida, disposto a virar o jogo. As pessoas não querem sair da periferia: querem mudá-la. E, como diz Ghandi, “somos a mudança que queremos”. Não é enfatizando reiteradamente a tragédia cotidiana em tons dramáticos que se vai motivar as pessoas. Se isso fazia parte das intenções de Salles e Daniela, a reação do público na referida sessão especial para o Unicef já deu a resposta. Se foi para discutir a existência humana, o belo filme deu uma grande contribuição.

Mais

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

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