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GUERRA NO CÁUCASO

Quando a Rússia se reergue

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A Guerra Fria acabou, mas o conflito não. Para garantir sua influência na região, os americanos investiram na aproximação com países menores, como a Geórgia. Moscou, por sua vez, apostou na Ossétia do Sul para “punir” os vizinhos que se aliaram aos ianques

Serge Halimi - (15/09/2008)

A questão da responsabilidade sobre o conflito no Cáucaso não nos atormentou por muito tempo. Menos de uma semana depois do ataque georgiano, dois comentaristas franceses, especialistas em generalidades, o julgaram “obsoleto”. Um neoconservador americano influente já tinha dado o tom: saber quem havia começado “pouco importava”, declarou Robert Sagan, pois “se o presidente da Geórgia Mikheil Saakachvili não caísse na armadilha de Vladimir Putin, o conflito teria se desencadeado de outra forma” [1]. Mas se no dia da cerimônia de abertura das olimpíadas a iniciativa de uma operação armada tivesse ocorrido por obra de outra pessoa, que não o jovem poliglota Saakachvili, diplomado pela Columbia Law School, o ocidente e seus meios de comunicação teriam contido a indignação diante de um ato de tamanho peso simbólico?

De fato, ao saber antecipadamente quem é bom e quem é mal fica mais fácil acompanhar o desenrolar da história. Assim, os bons, como a Geórgia, têm o dever de defender sua integridade territorial contra as artimanhas separatistas tramadas por seus vizinhos. E os malvados, como a Sérvia, têm de consentir à autodeterminação de suas minorias – e sofrer, em caso de recusa, os bombardeios da organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O conto moral é mais edificante ainda quando, para defender a integridade territorial de seu país, o gentil presidente pró-estados Unidos repatria uma parte dos mil soldados que ele havia mandado para o Iraque.

No dia 16 de agosto, o presidente George W. bush invocou, com gravidade, as “resoluções do Conselho de Segurança da ONU”, assim como “a independência, a soberania e a integridade territorial” da Geórgia, cujas “fronteiras devem ter o mesmo respeito que as de outras nações”. Ou seja, apenas os estados Unidos teriam o direito de agir unilateralmente quando estimassem – ou alegassem – que sua segurança está em jogo.

Na realidade, a série de acontecimentos obedece a uma lógica mais simples: Washington investe na Geórgia (e vice-versa) para se opôr à Rússia; Moscou aposta na Ossétia do Sul, mas também na Abecásia, para “punir” a Geórgia.

Desde 1992, dois relatórios do Pentágono tentavam prevenir um eventual ressurgimento de uma potência russa então em pedaços. Para tornar permanente a hegemonia americana nascida da vitória dos estados Unidos na Guerra do Golfo e do desmembramento do bloco soviético, os relatórios diziam que era importante “convencer eventuais rivais que eles não precisam aspirar um papel maior”. Se não os convencesse, Washington saberia “dissuadi-los”. Alvo principal desses cuidados, a Rússia foi considerada a “única potência no mundo que pode destruir os estados Unidos [2]”. “A Rússia tornou-se uma grande potência, e é isso que preocupa”, chegou a admitir Bernard Kouchner, ministro francês das relações exteriores [3].

Arquiteto da perigosa estratégia afegã de Washington, que consistia em sustentar militarmente os islamistas para vencer os sovi- éticos em 1980, Zbigniew Brzezinski detalhou outra faceta do projeto norte-americano: “A Geórgia nos dá acesso ao petróleo e, futuramente, ao gás do Azerbaijão, do mar Cáspio e da Ásia Central. ela representa, portanto, um atributo estratégico maior [4].” Brzezinski não pode ser acusado de versatilidade: até quando a rússia agonizava, no tempo de boris Ieltsin, ele queria expulsá-la do Cáucaso e da Ásia Central para garantir o fornecimento energético do ocidente [5].

Desde então, a Rússia está melhorando sua situação, os estados Unidos não vão tão bem quanto antes, e o petróleo ficou mais caro. Vítima das provocações de seu presidente, a Geórgia acaba de sofrer o choque dessas três dinâmicas.



[1] Respectivamente Bernard-Henri Lévy e André Glucksmann, no Libération de 14 de agosto de 2008, e Robert Kagan, no Washington Post de 11 de agosto de 2008.

[2] Cf. Paul-Marie de la Gorce, “Washington et la maîtrise du monde” [Washington e o controle do mundo], Le Monde Diplomatique, abril de 1992.

[3] Entrevista ao Journal du dimanche, Paris, 17 de agosto de 2008.

[4] Bloomberg News, 12 de agosto de 2008.

[5] Zbigniew Brzezinski, Le Grand échiquier [o grande tabu- leiro], Paris, Bayard, 1997.


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