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CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

Meu vizinho Chico Buarque

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— E como é que ele é?
— Nem alto, nem baixo. Cabelo curto, olhos azuis, seus sessenta e poucos anos...
— Mas isso todo mundo sabe. Quero saber da vida dele. Como ele é pessoalmente?

Daniel Cariello - (26/09/2008)

Gosto de dizer que o Chico Buarque é meu vizinho em Paris.

Essa é uma história boa para se contar em mesa de bar. E é claro que não é verdadeira. Mas como eu conheço uma pessoa que realmente tem um apê no mesmo prédio que ele - ou diz que tem, vai saber -, resolvi apropriar-me do fato. Causa um certo frisson dizer que tem o Chico Buarque como vizinho, mesmo fictício. Ainda mais se lançar a conversa na hora certa, bem sutilmente.

— ...e aí tava tocando aquela música que o Chico Buarque fez na época...

— Ele é meu vizinho.

— Hã?

— O Chico Buarque. Meu vizinho.

— O Chico Buarque?

— Isso.

— Vizinho de porta?

— De porta não. Mora perto.

— Perto como? Pertinho, pertinho?

— Perto, bem perto.

— E você já encontrou com ele?

— Nem te conto.

Não conto porque não tenho nada pra contar. O apartamento dele fica a uns bons 30 minutos de caminhada a partir do meu. E nunca cruzei com ele na rua. Mas esses detalhes não preciso revelar.

— E como é que ele é?

— Nem alto, nem baixo. Cabelo curto, olhos azuis, seus sessenta e poucos anos...

— Mas isso todo mundo sabe. Quero saber da vida dele. Como ele é pessoalmente?

— Aí tá exagerando, né? Nunca falei que era conhecido meu. Falei que era vizinho. Apesar de...

Esse recuo estratégico, dizer que não é conhecido, é importante para manter o ar de veracidade. Os mentirosos contumazes entrariam com os dois pés, já evocando uma falsa intimidade com o compositor, ou com o "Chiquinho", como eles diriam. Eu prefiro sugerir e deixar a pessoa imaginar a continuação da história. Esse é o papel do "apesar de..." na frase. E a conversa depois vai mais ou menos pra esse lado.

— Apesar de quê?

— Deixa pra lá. Você não vai acreditar mesmo.

— Acredito, claro.

— Muita gente acha que é mentira.

— Eu não.

— Mas eu nem falei ainda.

— E eu já acho que é verdade, olha só.

— Acha nada.

— Acho, juro.

— Tem aquele documentário.

— Qual?

— Em Paris. Ele fala que anda pelas ruas da cidade pra se inspirar.

— Eu vi.

— Então...

— Agora você vai dizer que viu o Chico Buarque compondo enquanto andava por Paris?

— Eu não disse nada.

— O cara rabiscando uma letra embaixo da torre Eiffel, assoviando no Champs-Elysées, batucando uma baguete?

— Por isso que eu prefiro não falar nada. Você não vai acreditar.

— Você é um tremendo de loroteiro. E eu caindo no seu papo-furado.

— Bom, já que você não acredita então nem vou contar onde o Veríssimo fica quando vem à cidade

— Vai dizer que é na sua casa?

— Não conto, já disse. Você não vai acreditar mesmo.

— Mas eu acredito. Conta.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Joue-nous Raoul!
— O canhestro. — Hein? — O príncipe das trevas. — Paulo Coelho adorando o capeta? Agora embolou tudo. — Avisei...

Praias, pandeiros e limoncelos
As primeiras notas foram facilmente reconhecidas. E todos entraram juntos no refrão de No Woman No Cry. Todos, menos o próprio violeiro, que ficou novamente pelo caminho, mais estático que a Vênus de Milo

Sene-Sene-Senegal
— Táxi?
— Não, obrigado.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Mas alguém vem te buscar?

Pequenos espaços, grandes problemas
— E aí escolheram a resposta mais criativa. — Que pergunta? — "Qual a diferença entre a mulher e a televisão?" — E o que você respondeu? — O controle remoto!

Arigatô, monsieur
. No bairro chinês tem um McDonalds com cardápio em chinês. Ou em japonês, sei lá.
. Apesar de ter sido criado por um japonês, o Miojo e seus derivados são chamados aqui de "macarrão chinês".
. O bairro chinês, na verdade, fica na Praça da Itália.

Um quadro, três histórias
Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja

Salamaleque!
— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra. — Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir. — Bra bra bra bra bra loja... Gentil bra bra. — Que isso... Precisando é só chamar.

Roteiro de viagem — Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.

Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.

Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"

Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



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