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Os democratas na conquista do Oeste

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Campanha de Obama decide enfrentar os republicanos em seu reduto mais forte – uma região onde o eleitorado, rural e conservador, adora armas, rejeita o aborto, abomina ambientalistas e desconfia de tudo que tem a ver com o Estado

Serge Halimi - (12/10/2008)

Logo na chegada, já se percebe que a guerra ainda não está ganha. Na estrada do Kansas, às portas do Colorado, painéis enfeitam o asfalto: “O aborto pára um coração que bate”; “Aceita Jesus Cristo como salvador e serás salvo, ou te arrepende por toda a eternidade”. Sabemos que o Kansas é conhecido pelo ardor de seus militantes religiosos que lutam contra o ensino das teorias de Charles Darwin nas escolas. E o Kansas ainda nem é realmente o Oeste [1]. Mas quando se chega a Bozeman, em Montana, um recém nascido suplica aos motoristas em um cartaz de fundo azul: “Take my hand, not my life” (Pegue minha mão, não minha vida).

Desde 2001, Brian Schweitzer é o governador de Montana, um Estado agrícola e mineiro povoado por menos de um milhão de habitantes, mas quase tão vasto quanto a Califórnia. Proprietário de rancho, especialista em irrigação e aficionado das novas energias, Schweitzer está entre as esperanças do Partido Democrata. É “um turbilhão de jeans”, resumiu o New York Times. Em agosto, durante a convenção democrata de Denver, Obama pediu a ele que pronunciasse um discurso sobre energia. Missão cumprida – de jeans – em uma hora de grande audiência. A receita da popularidade do governador de Montana é bastante simples. Os republicanos, para reunir suas tropas e afogar seus adversários nas caldeiras do ateísmo e do estrangeirismo, não param de falar dos três “G”: “God, gays and guns” (Deus, homossexuais e armas). Já que é assim, estima Schweitzer, os democratas deveriam evitar batalhas nesse terreno. Como? Mostrandose tão religiosos quanto qualquer outra pessoa, reservados em relação ao casamento homossexual, e pouco dispostos a regulamentar a compra de armas. Mas fazendo tudo isso com certa indolência, como se essas questões não contassem muito – ou como se as respostas a elas já estivessem dadas por si mesmas. Todo esse esforço visa deslocar o combate para temas menos confortáveis para os republicanos: economia, energia, meio ambiente. Esquivar-se em uma frente, atacar na outra.

Mudando o foco das polêmicas

Bem entendido, Schweitzer não é um radical. Mas em um Estado onde ser governador significava muitas vezes ser “o cão de guarda da indústria” – do que se vangloria exatamente nesses termos sua predecessora republicana, Judy Martz –, ele mostra sua independência em relação aos grandes lobbies econômicos. Faz isso criticando, por exemplo, as fortunas multiplicadas à custa da desregulamentação da energia, das fraudes, dos descontos fiscais em benefício dos ricos e das grandes empresas, do preço dos medicamentos, visivelmente mais elevado em Montana que no vizinho Canadá. Ele também protesta contra a ameaça às liberdades públicas decorrente do Ato “Patriótico”, a legislação de segurança adotada após o 11 de Setembro. E Schweitzer tem se manifestado em oposição à guerra no Iraque, o que ele faz lançando mão de seu conhecimento a respeito de uma região onde trabalhou durante sete anos – na Arábia Saudita – como especialista em irrigação.

Sim, mas e o “God, gays and guns”? “Eu sou católico”, nos respondeu ele em seu gabinete em Helena, “e há apenas uma pequena proporção de fundamentalistas em Montana. Aqui, as questões de comportamento não pesam tanto.” De fato, os cassinos são numerosos nas redondezas, e as pequenas cidades do Estado abrigam, em geral, mais bares do que igrejas. Além disso, bastaria – não é mesmo? – retrucar aos republicanos que falam de “valores familiares tradicionais” que a melhor maneira de defender tais valores não é continuar a propor àqueles que chegam ao mercado de trabalho, salários tão baixos a ponto de obrigá-los a buscar rendimentos em outro lugar – longe, justamente, de sua família. “Nós temos uma economia igual à do salmão”, resume Schweitzer. “Todos os nossos jovens deixam o Estado e só voltam para cá para morrer.”

Bem, mas e as armas? Ah, aí é outra coisa! O assunto tem um peso tão grande que é impossível evitá-lo. Importa, portanto... desarmar a questão das armas. No Oeste rural, querer regulamentá-las é visto como um capricho de gente da cidade. Em outras palavras, é suicídio político. Para compreender isso, nada melhor que a leitura do Casper Star Tribune de 28 de agosto deste ano. Sob o título “Tudo é possível”, esse diário do Wyoming reservou o essencial de sua seção Lazeres e Espaços a uma associação de deficientes desejosos de continuar a correr atrás de sua caça, depois de um acidente tê-los condenado a cadeira de rodas. Corey McGregor, paraplégico e co-fundador da “Wyoming Disabled Hunters” (Caçadores Deficientes do Wyoming), posou para a foto com um cervo morto a seus pés.

Schweitzer é membro da poderosa National Rifle Association (NRA) – que concedeu a ele sua melhor nota (A), enquanto Obama conseguiu a pior (F) e McCain contou com uma nota intermediária (C). “Em Montana, controlar armas de fogo significa saber acertar aquilo que a gente mira”, afirmou. ”Nós amamos os fuzis – os pequenos, os grandes – amamos todos! E também as mulheres os apreciam. Eles são quem nós somos.”

Território tranqüilo – tão tranqüilo que o matemático e assassino em série Théodore Kaczynski, “Unabomber”, foi se refugiar ali –, Montana deve a esse isolamento uma parte de seu charme entre os norte-americanos em busca de espaços intactos e sossegados. “Eles adoram as comunidades seguras”, pensa o governador Schweitzer. “Aqui, você pode dizer: ‘Não sei onde meus filhos estão, com certeza estão brincando por aí’. Quando se vive em Los Angeles ou Chicago, essa segurança não existe.”

Mas em uma região de montanhas e planícies varridas pelo vento, que alguns exageram um pouco ao qualificar de Sibéria americana, o clima já não é mais o de Los Angeles... Em pleno mês de agosto, a calor seco do Oeste coincide com tempestades de granizo e com paisagens nevadas nos arredores da capital. Além do fato de ainda não ter sido atingido pela crise imobiliária, todo o resto difere da Califórnia do sul. Um motorista pode atravessar intermináveis territórios de western, sem ter sinal no seu telefone celular e, ao mesmo tempo, sem precisar temer nada além do sono ao volante ou uma batida em um cervo. Cá e Partidários de lá, (pequenos) poços de petróleo em atividade, trens de carvão com 2 km de comprimento, algumas vacas. Montana parece um pouco uma mistura de Faroeste e Suíça, cortada por reservas indígenas.

Ambiente hostil aos ambientalistas

De alguns anos para cá, enquanto o resto do país caminha em direção à recessão e sofre com os preços elevados da energia, o Oeste tem renascido. Isso é particularmente verdadeiro onde as indústrias extrativistas ditam o ritmo da vida econômica. Certamente, no Alasca de Sarah Palin, que triplicou nos últimos anos suas receitas fiscais advindas do petróleo (US$ 2,8 bilhões em 2005, mais de US$ 9 bilhões em 2008). O Estado do Wyoming não está pior. Principal fornecedor de carvão do país, grande produtor também de gás, ele acumula excedentes quase tão rapidamente quanto abre novos territórios para a exploração energética. O governador democrata, Dave Freudenthal, fala em instaurar a gratuidade total do ensino superior. O Wyoming dotou sua universidade de uma soma suficientemente interessante para atrair os melhores professores.

Em 4 de novembro, o voto do Wyoming será republicano, isso é certo. O de seus vizinhos Idaho e Utah também. Nesses três Estados, George W. Bush venceu em 2004 por quase 40 pontos de diferença. Mas, desta vez, o resto da região parece mais aberta. Não é por acaso que a convenção democrata se reuniu em Denver, ou que Obama tenha ido cinco vezes a Montana entre abril e agosto. Lá, ele venceu de longe as primárias contra Hillary Clinton, em junho. Isso em um Estado que é o menos “negro” dos Estados Unidos (0,43% da população, contra cerca de 13% em âmbito nacional).

Para os democratas, consagrar tempo e dinheiro na conquista do Oeste não é ponto pacífico. Muitos acham que se trata de um esforço inútil e que seria melhor jogar tudo em Ohio, Pensilvânia ou Michigan. Obama não lhes deu ouvidos. Às vésperas da eleição, ele realmente espera compensar uma eventual decepção no Meio-Oeste industrial com uma boa surpresa no Colorado e em um ou dois pequenos bastiões republicanos do Oeste rural. “Nunca se sabe onde o raio vai cair”, indica Howard Dean, presidente administrativo do Partido Democrata e inspirador dessa “estratégia dos 50 Estados” (ou seja, não ceder nenhum).

Uma aposta arriscada. Em 1975, Ronald Reagan abriu o caminho para 25 anos de domínio republicano no Oeste profundo [2].

Ele fez isso acusando os democratas de “sobrecarregar nossa economia com um fardo crescente de controles e regulamentações”, responsáveis pela “destruição de empregos e pela interrupção de nossa provisão vital de energia”. Melhor do que proteger os refúgios florestais das corujas ou a sobrevivência dos lobos e bisões para apaziguar “ecologistas extremistas”, explicava ele, seria ocupar-se do futuro dos lenhadores e do gado dos criadores.

“O Partido Republicano venceu lá associando os democratas ao meio ambiente”, lembra Andrea Peacock, jornalista e escritora que vive em Livingston, não longe de Yellowstone. “No espírito dos lenhadores e proprietários de rancho, o voto republicano significava a preservação do seu emprego”, explica. “O meio ambiente representava o inimigo.” As câmaras de comércio, as indústrias de mineração, as agências imobiliárias estimularam esse sentimento popular repetindo que era preciso explorar as terras, e não “conservá-las”. Elas diziam que era necessário parar de obedecer sem reclamar as regras editadas em Washington, desprezando as particularidades locais, incluindo aí a limitação de velocidade e a regulamentação das armas. Perfeito. O populismo tinha mudado de sentido, a identidade do inimigo também. Nascia uma coalizão dos pequenos produtores agrícolas com as grandes empresas. Amigo de Richard Cheney, originário como ele do Wyoming, cristão fundamentalista, James Watt foi nomeado por Reagan, em 1981, para estar à frente do ministério do meio ambiente. Seu objetivo: “Perseguir na justiça esses burocratas e esses advogados do crescimento zero que desafiam a liberdade individual e as liberdades econômicas.” Deixar a raposa tomando conta do galinheiro. E Watt prometeu: “Nós iremos abrir novas minas, perfurar poços de petróleo, explorar mais nossas florestas, para utilizar nossos recursos, e não guardá-los a sete chaves [3]”. A proposta dos republicanos não é mais tão caricatural, mas, impulsionados pelos elevados preços da energia, eles acabam de adotar em sua convenção uma plataforma que recomenda ainda: “Devemos extrair mais petróleo americano do solo norte-americano”.

Isso se torna ainda mais urgente, segundo McCain, à medida que “enviamos US$ 700 bilhões por ano a países que não gostam de nós, e uma parte desse dinheiro aterrissa nas mãos de organizações terroristas [4]”. No Colorado, um grupo de promotores, a Free Market Alliance, divulga há meses mensagens publicitárias que acusam o candidato democrata ao Senado, Mark Udall, de se opor a novas perfurações no Estado: “Quanto nós teremos de pagar por um tanque de gasolina? Udall nasceu em uma família abastada, ele não pode compreender a que ponto os preços altos fazem sofrer as famílias que trabalham”.

Todavia, à medida que as questões ecológicas ganham importância, que as perfurações alteram as paisagens, que os ricos, aposentados ou amantes da natureza emigram para o Oeste em busca de uma residência secundária, de espaço e de tranqüilidade, uma parte da população se afasta desse tipo de proposta. Ela se preocupa um pouco menos com empregos na indústria mineira, e mais com parques sem cercas, com rios limpos e cheios de trutas. Os lugares do Wyoming, outrora cheios de antílopes, lebres, pastagens, estão agora cobertos de torres de perfuração. Novas propriedades privadas ameaçam o acesso aos rios, às florestas. Ora, os eleitores republicanos da região apreciam tanto quanto os outros ter o que Walton Gasson, diretor da Wyoming Wildlife Federation chama de “espaços onde caçar, pescar, estacionar seu trailer, plantar sua tenda, trazer seus cavalos. Espaços onde podemos sujar as botas e manter a alma limpa”. Quando o voto se dá simplesmente para aquele “que vai fazer o menor estrago”, uma expressão muito ouvida em Montana, um candidato democrata não tem necessariamente uma desvantagem tão temível. Em sua entrevista ao Billings Gazette, citada acima, o senador Tester deixou esta fórmula lapidar: “Obama garantirá o livre acesso às terras e às zonas de caça. McCain fala em vendê-las”.

Discurso privatista perde força

Que as temáticas republicanas não têm mais o impacto de outrora, a eleição recente de cinco governadores democratas em oito Estados do Oeste são indício suficiente. Em 2001, todos eram republicanos. Figura destacada dessa reviravolta, Schweitzer conta com réplicas que sacudirão até a Casa Branca: “Somos nós, democratas, que reduzimos os impostos, que atraímos as empresas, que protegemos o meio ambiente, e as pessoas gostam disso. Então, se você aprecia o que se passa em Montana, e se o que se faz em Washington não o agrada, isso deveria ajudar a chapa nacional democrata”. Mas será necessário que a “ajuda” seja considerável, e o descrédito republicano avassalador: em 2004, Bush venceu no “Big Sky State” com 59% dos votos. O comentário de Schweitzer não diz, mas há também muitas maneiras de “reduzir os impostos”. E ainda aí, mais do que se opor frontalmente à demagogia antifiscal – correndo o risco de unir contra si pequenos e grandes que compartilham do mesmo ódio contra o cobrador de impostos e contra o Estado –, o governador de Montana desviou o projeto republicano de seu destino previsto. Em Washington, com Bush, a baixa fiscal foi proporcional ao montante pago. Isso significa que favoreceu, sobretudo, e deliberadamente, os ricos. Em Helena, ao contrário, o montante do abatimento foi o mesmo para todos: 400 dólares, quaisquer que fossem os rendimentos ou o valor dos ativos fundiários ou imobiliários considerados. E a medida foi acompanhada de uma melhor coleta do imposto das grandes empresas, que vinham sempre se desobrigando. A velha coalizão antifiscal construída pelos republicanos voou pelos ares. “As pessoas entenderam nosso recado”, podia alegrar- se Schweitzer. “Elas sabem que se deixarmos os ricos não pagarem, são os seus impostos que irão aumentar ’’ Citado por David Sirota, que consagra um capítulo a esse assunto em seu livro The Uprising, Crown Books, New York, 2008.]].”

Enquanto os republicanos estigmatizam a defesa ambiental, os democratas ousam denunciar os especuladores que manipulam os preços das matérias-primas

A experiência de um “populismo” fiscal em favor dos ricos e de um “desenvolvimento” desenfreado que deixa tanto estrago atrás de si, traz ainda uma terceira lição. A dos efeitos da desregulamentação da energia. Dirigida desde 1997 por um governador republicano, Marc Racicot, próximo do atual presidente, ela foi vivida como um desastre. A história dos aumentos de tarifas na Califórnia, especulações à moda da Enron, a falência de uma grande empresa seguida da de seus milhares de pequenos acionista que haviam investido o dinheiro de sua aposentadoria, isso se repetiu em Montana, com financistas da Goldman Sachs à frente das manobras [5]. “Nossos serviços públicos foram destroçados em pequenos pedaços e geraram enormes lucros”, nos conta Steve Doherty, que dirige a comissão da pesca, da natureza e dos parques do Estado. Esse foi, para ele, “o começo do fim para os republicanos”.

Não para todos. Racicot assumiu depois uma muito lucrativa carreira de lobista, com a retribuição de grandes sociedades para as quais havia voltado sua atenção no tempo em que era governador. Obra pedagógica, além de tudo; a indignação provocada por esse tipo de percurso permitiu redirecionar o descontentamento popular. Enquanto republicanos continuam a bradar contra ecologistas “extremistas” cujo malthusianismo deixará a América refém dos preços extravagantes do petróleo importado, alguns democratas ousam questionar os amigos políticos dos especuladores que manipulam o preço das matérias-primas. De resto, quem realmente acredita que, se a energia (cujos preços não são mais regulamentados) fosse mais largamente produzida nos Estados Unidos, ela seria mais barata? Antes das privatizações, a eletricidade de Montana era amais barata da região; depois, se tornou uma das mais caras.

“Perfurar, perfurar, perfurar”

Especulador texano, republicano, T. D. Boone Pickens fez fortuna com o petróleo. Ele certamente não foi o único, mas se destaca. Impossível ouvir o rádio ou assistir à televisão sem que ele irrompa com incansável pregação em favor de uma nova política de energia. Milhões de americanos hoje provavelmente sabem recitar de cor algumas das frases que ele martela: “O grande debate em Washington é sobre a questão: perfurar ou não perfurar? Eu digo: perfurar, perfurar, perfurar! Mas não é essa a questão que interessa. Porque, o que quer que façamos, continuaremos dependentes do petróleo importado”.

Conclusão: “É preciso substituir o petróleo que nós importamos por gás produzido nos Estados Unidos. E é para isso que eu paguei esta mensagem”. Ele pagou mesmo US$ 58 milhões. Mas, como seu fundo especulativo, BP Capital, investiu no gás natural, não se trata realmente de dinheiro perdido. A “mensagem” de Pickens remete a um site na internet. Que por sua vez fala de outra coisa: “A Dakota do Norte e os Estados das Grandes Planícies [um vasto conjunto cobrindo dez Estados, como Texas, Kansas, Colorado, Wyoming e Montana] dispõem, de longe, do maior potencial eólico do mundo”. Para reservar mais o uso do petróleo aos automóveis, Pickens espera que o vento forneça 20% da eletricidade americana em dez anos. Contra... 1% hoje.

Balbuciante, a produção, no entanto, cresceu 45% no ano passado, e firmas como JP Morgan investiram US$ 4,4 bilhões no setor. O único problema, que lembrará aos maus espíritos os problemas das finanças americanas, é que o sistema eólico industrial depende do maná do Estado a tal ponto que, quando os benefícios fiscais que lhe são concedidos expirarem, ele desaba [6]. Já a pequena turbina a vento, individual, não conhece os mesmos problemas. Artistas e políticos a adoram. O astro de televisão Jay Leno, que procura “soluções verdes para seus problemas de garagem”, instalou uma sobre o local onde ele acomoda seus 125 carros e 80 motos. Esses pequenos moinhos de vento custam caro e não produzem nada de eletricidade, mas são chiques e agradam ao jet set. O designer Philippe Starck prometeu lançar um modelo na Europa. Em plástico e “elegante”.

Em Helena, em seu gabinete de governador que parece um palco de demonstração das novas energias, Schweitzer exibe muitas miniaturas de eólicos. E, a alguns quilômetros de lá, na estrada, verdadeiras máquinas esperam que o vento sopre.



[1] As definições variam, ora considerando nessa categoria todos os 25 Estados situados a oeste do Mississipi, incluindo o Alasca e o Havaí, ora restringindo-a aos 13 Estados situados a oeste do Colorado (Montana, Wyoming, Colorado, Novo México, Idaho, Utah, Arizona, Nevada, Washington, Oregon, Califórnia, Alasca e Havaí).

[2] Nos Estados da costa do Pacífico (Califórnia, Oregon, Washington), esse domínio acabou em 1992. Neles, Obama deverá vencer sem dificuldade.

[3] Citado por Lou Cannon, Ronald Reagan, Perigee Books, Nova York, 1984, pp. 358-359.

[4] Citado por U.S. News and World Report, 1º de setembro de 2008.

[5] Ler David Sirota, op. cit.

[6] Cf. Kent Garber, “A mighty gust from Texas”, US News & World Report, 1º de setembro de 2008.


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