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Em Lake Tahoe, Fernando Eimbcke encara um novo desafio: retratar a dor sem jamais mencioná-la diretamente, ou colocar em foco suas causas. O resultado é um filme inovador porém não-formalista, uma obra metafórica e provocadora sobre os sentidos da ausência

Bruno Carmelo - (10/11/2008)

Logo nos créditos iniciais, diante de uma tela ainda escura, o som nos sugere a batida de um carro. Em seguida, vemos um garoto andar, à distância, e percorrer um longo caminho em busca de uma funilaria aberta. As imagens seguem todas uma estética única: formato scope, câmera fixa, frontalidade total da paisagem retratada. Quanto aos poucos personagens (uma meia-dúzia apenas, em todo o filme), eles fazem muito pouco: andam de um lado a outro, conversam banalidades de vez em quando.

Este minimalismo nos remete à primeira obra do diretor Fernando Eimbcke, Temporada de Patos. Neste, embora visualmente diferente, já se encontravam alguns traços de sua “autoria” em relação à montagem aparente e ao trabalho com as elipses: o tempo parece ser o material de trabalho de predileção do diretor que, se na sua estréia usava a dilatação temporal com finalidades cômicas (“comédia = drama + tempo”, diria Charlie Chaplin), desta vez aposta no drama.

A história se revela aos poucos. Entre a batida de carro inicial, o jovem protagonista procura mecânicos e encontra tudo, menos a ajuda que procurava: um senhor lhe pede para passear com seu cão, uma garota pede que vigie seu bebê, outro quer lhe mostrar vídeos de artes marciais. Se o tempo é a forma deste filme, o fortuito e o banal são seu conteúdo. O desconforto do inesperado, as esperas patéticas, a comunicação truncada entre estranhos: os encontros de Lake Tahoe constituem dissonâncias, acidentes.

Logo um vizinho, visto à distância (são raros os planos próximos do filme) mostra-se excessivamente preocupado com nosso protagonista; e em seguida mais um. Depois o irmão menor dele pergunta o que significa “pêsames”, e encontramos a mãe de ambos trancafiada durante horas no banheiro, chorando (belíssima cena em que ela é apresentada unicamente por seu braço por fora da cortina do banheiro, fumando). Mais de meia hora se passa até que o espectador possa juntar os pontos e constatar a morte recente do pai.

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"A própria relação de paternidade é dissolvida ao longo da história. Enquanto o garoto lida com a própria perda do pai, é ele o “pai postiço” do cachorro e do bebê alheio"

Isso porque, devido às escolhas (formais e narrativas) feitas por Eimbcke, tudo que é realmente importante nos é escondido e, inversamente, vemos as ações banais, o “antes e o depois” de uma ação significativa. Assim, a batida do carro não é mostrada, a morte do pai nunca é explicada, e todas as ações são compreendidas sem serem vistas. Tem-se um filme em que a imagem não retrata, mais significa: toda cena contém mínimos indícios capazes de portar significado. Trabalha-se no território da simbologia, do subentendido, da metáfora.

Lake Tahoe mostra justamente a possibilidade de se construir uma obra em que a dor, não dita, parece ainda mais forte porque perceptível em cada pequeno gesto

A própria relação de paternidade é dissolvida ao longo da história. Enquanto o garoto lida com a própria perda do pai (silenciosamente e sem uma lágrima sequer), é ele o “pai postiço” do cachorro e do bebê alheios, além do próprio irmão mais novo, praticamente abandonado devido à crise depressiva da mãe. Pode-se mesmo sugerir que teria sido o trauma o causador da batida do carro, uma vez que nenhuma outra causa é apontada.

Se a estilização parece contrária ao realismo e ao humanismo, Lake Tahoe mostra justamente a possibilidade de se construir uma obra em que a dor, não-dita, parece ainda mais forte porque perceptível em cada pequeno gesto. Eimbcke representa seu objeto de interesse pela ausência, o que vale tanto para a figura em torno da qual tudo gira (o pai), quanto para as ações centrais, as emoções, o movimento.

O próprio título é uma belíssima metáfora deste princípio: um adesivo ilustra o Lake Tahoe, embora os personagens nunca tenham visitado o lugar. Trata-se simplesmente de um presente da tia, uma imagem banal que sempre desagradou ao pai. Agora, uma vez ausente, a imagem que representava o lago passa a simbolizar o ente perdido. O banal, a metáfora, a ausência: tudo está contido num pequeno adesivo; nosso símbolo maior da perda e do luto.

Lake Tahoe (2008)
Filme mexicano de Fernando Eimbcke.
Com Diego Catano, Hector Herrera, Daniela Valentine.
Gênero: Drama.

Confira as fotos do filme:

Fotos

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

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