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LITERATURA

Viagem a Havana

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Impossível deixar de admirar, linha após linha, página após página, o trabalho do artesão tapeceiro, que dedicado a cada detalhe não perde de vista o todo da composição e deita cada ponto no exato e único lugar em que precisa estar

Romilda Raeder - (08/11/2008)

O romance de Julio Travieso Serrano (Chuva sobre Havana, Editora Brasiliense) conta a trajetória de um homem de meia-idade que lutou contra a ditadura de Fulgêncio Batista, foi preso e torturado, e no pós-revolução viveu seus dias de glória com um bom emprego, antes de cair em desgraça e tornar-se um ex-jornalista abandonado pela mulher, morando num sótão e exercendo a profissão ilegal de permutero, uma espécie de corretor de troca de moradias. Um homem que poderia ser qualquer cubano e talvez por isso não revela seu nome ao leitor:

Qual é o seu nome? – me perguntou, e quando respondi me fez a pergunta inevitável – O que você faz?

Enlaçadas à sua existência estão as vidas de duas jineteras, prostitutas que se dedicam a estrangeiros e seus dólares, e de seu velho amigo Francis, companheiro de luta contra o regime de Batista. Baby, sua ex-mulher, e suas duas filhas, foram para o exterior e seus caminhos possivelmente jamais voltarão a cruzar-se.

Dezenas de outras personagens, de maior ou menor importância, além de misturarem seus passos aos do nosso não herói, revelam aspectos da realidade habanera lá pelos anos 70 (pode-se calcular, embora o romance tenha sido escrito em 1995 e 1998): uma vizinha que preenche sua solidão com 10 cachorros; um dentista que esculpe pequenos navios de madeira para vender no mercado; turistas mexicanos dispostos a comprar prostitutas de olhos verdes; uma esquizofrênica, cuja percepção alterada a faz ver, em noites de lua cheia, uma conga de carnaval que sai do mercado ao Castillo del Morro e da qual todos participam – turistas, figurões locais e do exterior, loucos e todo tipo de gente, menos Voldemort.

Primeira obra de Julio Travieso Serrano publicada no Brasil, Chuva sobre Havana evidencia por que méritos o escritor cubano foi laureado com importantes prêmios literários dentro e fora de seu país.

Movimento elíptico

Afora tratar de um tema que permeia a capital angústia humana – a morte –, Travieso é um verdadeiro mestre da palavra e, para além dela, da imagem. A começar pela feliz escolha da epígrafe do Capítulo I – um verso de Paul Verlaine –, que revela muito mais que a erudição do autor: revela o leitor mergulhado em sua leitura, inebriando-se dela, absorvendo-a, incorporando-a, digerindo-a, a ponto de, um dia, transformar em inusitado significante não uma palavra, mas um verso, que parece ter esperado, ao calar-se-lhe n’alma, o motivo e o momento exatos para emergir e assumir uma singular missão – a de desvelar o clima que envolve a história, sua ambientação, o narrador (personagem que destacarei adiante) e sua amada (a jinetera Mônica), protagonistas, coadjuvantes, figurantes:

Cai o choro em meu coração como a chuva na cidade.”

E eis a imagem-sentimento resultante da poética polifonia: esta, exatamente: a que você percebe, que eu percebi e que será percebida sempre e inevitavelmente, porque jóia rara da linguagem (este diferencial que nos habita e nos transpõe do animal para o humano).

Não satisfeito, o autor, para que não duvidemos dessa imagem, para que nos impregnemos dela a ponto de nos sentirmos dentro dela, nos introduz ao vestíbulo de uma narrativa em que o ponto de partida e o de chegada se confundem, arrastando em seu movimento elíptico autor, personagens, leitor:

Chovia forte, como chove em Havana na época da chuva, com violência e rapidez, com gotas grossas que ricocheteavam nos tetos e nas ruas, mas, de repente, a chuva parou e tudo ficou tranqüilo e silencioso, sem que se ouvisse qualquer ruído de fora.

Também meu relógio de parede parou, um minuto antes das doze horas daquela noite de maio de 1992, como sinal de mau agouro, e então Mônica apareceu.

Segue-se, então, a imprudência de Travieso (poder-se-ia pensar) ao revelar, já ali, o fim da trama:

Ela veio e me disse ‘vou morrer’.

Morrer, falecer, expirar, fenecer, finar, perecer, morrer, muri, mourir, morire, to die, quantas e quantas palavras, em português e em todos os idiomas, para indicar um mesmo fato, singular e universal, pessoal e geral, igual e diferente, anterior ao homem, anterior à Terra, à Galáxia, perda de energia, entropia, cessação do movimento, fim e princípio.

“Vamos morrer. Eu primeiro, você depois.” Quando? “Quem sabe daqui a um ano, dois, alguns mais, mas cedo ou tarde acontecerá. Sempre com dor e sofrimento”

Pensei em García Marquez, que, ainda mais imprudentemente (poder-se-ia pensar), no seu Crônica de uma morte anunciada, foi dizendo logo de início: não só que o protagonista havia morrido; mas também que o haviam matado...

Não. Não se tratou de imprudência. Ambos, o cubano e o colombiano, sabiam bem o que estavam fazendo: escrevendo com tremenda eficiência sobre o acontecido como se sobre o não dito. Tanto, que impossível deixar o texto. Deixar de admirar, linha após linha, página após página, o trabalho do artesão tapeceiro, que dedicado a cada detalhe não perde de vista o todo da composição e deita cada ponto no exato e único lugar em que precisa estar. E para isto vale-se da personagem que irá se revelar a mais importante de Chuva sobre Havana: o narrador (nosso permutero).

Não temos, definitivamente, um narrador comportado. Ele não só subverte a linearidade do tempo narrativo – indo e vindo, dando voltas e atropelando-as, movimentando-se no súbito, por vezes, por outras impondo alguma ordem ao caos –, como joga com esse tempo em mais de uma voz, pois nem bem nos ofereceu uma lembrança, um fato, falando em primeira pessoa, já nos surpreende em segunda pessoa, falando no presente a uma interlocutora que ficou no passado (a jinetera Malú), monólogo suspenso, anarquisador do texto (pois que não acata uma lógica comportada para seu posicionamento no tecido textual, que por si mesmo já progride em curiosos movimentos).

Junte-se a todos esses elementos inúmeras e pequenas histórias de gente comum, acontecimentos pitorescos, tristes ou grotescos; o vento e a chuva; os silêncios e os bulícios; as esperas, os amores, as perdas e, no meio de tudo isso, sonhos... e teremos, mais que um excelente texto, uma verdadeira viagem a Havana, a preço módico e direito às saudades posteriores.



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