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LITERATURA

Do inútil (ao fútil)

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O fútil, porque está tão aquém de nossa melhor dedicação, deixa entrever a existência de algo que é seu oposto absoluto

Diego Viana - (08/11/2008)

Pode soar irônico, até contraditório; mas a arte ganhou o direito de usar sua inicial em letra capital pelo mesmo gesto que a declarou inútil. De habilidade técnica, ascendeu aos poucos à categoria de dom divino, simplesmente porque não servia mais a agradar, produzir emoções, representar as divindades. Como seu trabalho não serve a propósito algum, o artesão foi sagrado artista, como por mágica.

E está certo. Aliás, certíssimo. Ainda hoje podemos designar à arte uma infinidade de funções ou utilidades. Podemos perfeitamente ver nela muito de educativo, político, catártico, psicológico e assim por diante. Embora o ser humano ainda seja incapaz de viver sem um mínimo que seja de arte, ela é, sim, inútil. Da maneira como passamos a concebê-la depois de Kant, a inutilidade é o que há de mais profundamente artístico. Graças à falta de serventia, a arte é arte, e não propaganda, manual, análise, teoria.

Em conseqüência, quando vemos utilidade na arte ou arte na utilidade, só podemos concluir que é porque uma contaminou a outra. Talvez a ponto de se tornarem inseparáveis, que seja, ou de se potencializarem mutuamente. Mas o elemento propriamente artístico, precisamos ter sempre em mente, é inútil e ponto final.

Podemos estar errados de pensar assim, é claro. O futuro poderá caçoar dessa concepção da arte, despudoradamente estética. Desconfio até que uma grande parte do presente já caçoe. Tanto pior. Todo pensamento está sujeito à zombaria do porvir. A verdade que um discurso contém não é uma cláusula pétrea, mas um desenho na areia, belo enquanto a maré não o apaga. Defender a idéia de uma arte inútil vale, ao menos, como salvaguarda contra a invasão, justamente, de um utilitarismo imperialista, que não aceita poupar nem mesmo a beleza.

O utilitarismo não tem lugar nos debates sobre arte: ela não aumenta o bem-estar de nenhum agente racional. Aliás, que curioso, duas das definições mais usadas para classificar o ser humano são incompatíveis. Somos, por um lado, racionais, segundo se diz. Por outro, somos o único ser vivo a produzir arte, aquilo que de mais irracional e inútil existe. O humano, pelo visto, não é assim tão fácil de definir.

Digo tudo isso porque fui acometido há pouco pela constatação de que a arte é mesmo coisa inútil. Discutia com um amigo, um desses sujeitos felizes sem merecer, que faz questão de aproveitar sempre o que a vida oferece de melhor. Falávamos de culinária e, a certa altura, mencionei que a gastronomia é inútil. Que me importa, poderíamos dizer, se o molho da vitela está esplêndido e vai muito bem com um determinado Chianti? A rigor, poderíamos viver de carne crua, contanto que aplacasse a fome. O mesmo vale para a moda: que importa se o casaco verde me deixa com ar ridículo e acima do peso? Preciso dele para me esquentar. E, claro, o esporte: às favas o Fla-Flu da próxima semana, que vai decidir o campeonato. Futebol, com suas angústias e vibrações, não serve para nada. É inútil, inútil, inútil.

E a resposta do fulano foi: é claro que é inútil, mas não é mais inútil do que ler e declamar os sonetos de Bocage ou contemplar uma paisagem de Van Gogh. Debater temas artísticos é o cúmulo da ociosidade. É como discutir o sexo dos anjos; não se pode chegar a uma conclusão que valha os acepipes da mesa. Com essa última frase, eu não poderia concordar mais. Excluídas algumas figuras recentemente surgidas no cenário político americano, pode haver coisa pior do que um desses diletantes metidos a críticos, ou ainda esses críticos metidos a críticos, sempre tão dispostos a decretar uma interpretação ou uma avaliação específicas da arte, como se ainda vivêssemos no século 18?

Esplendorosa ineficiência

Foi quando me dei conta de como o humano, esse ser racional e tão escatologicamente espiritual, é dado a coisas inúteis. Voltando ao discurso de um utilitarista empedernido, nossa espécie é um desastre. Somos incapazes de maximizar o potencial produtivo. No velho dilema entre a manteiga e os canhões, já preferimos os segundos, depois os trocamos pelos quadros, depois os carros esporte, depois os vestidos de luxo, depois os pequenos aparelhos com seiscentas opções de toques. Sem contar que a própria manteiga, a rigor, é um luxo desnecessário, já diria um cínico da monta de Diógenes, que jogou fora seu último bem, uma cuia, quando concluiu que era capaz de beber água usando apenas as próprias mãos, como vira fazer um menino vadio.

Qualquer doutrina de maximização, utilidade ou eficiência sempre escorregará nesse aspecto de nossa gloriosa e trágica espécie. Somos incapazes de maximizar, e muito orgulhosos disso. Como é linda, como é esplendorosa a nossa ineficiência! O mais magnífico traço de caráter da espécie humana é essa grande tolice. É, em vez de investir na produtividade, no aumento da oferta de bens, entregar-se aos mais vazios dos vícios. O desespero de uma partida de futebol, a sutileza de uma escultura monumental, as delícias de um vinho bem envelhecido, os questionamentos sobre o insondável sentido e a remota origem da vida, a elegância de uma mulher diligente.

Quem mais é capaz do inútil, senão os humanos? Que outra espécie vive de interesses sem finalidade prática definida? Algum dia vamos ver um cão, um cavalo ou um leão que façam algo de suas existências que não vise matar a fome, procriar, dormir e se proteger? Tanto esforço se faz, na biologia, na filosofia, na psicologia, para traçar a definitiva fronteira entre homens e animais, sem chegar a uma solução que não seja meramente quantitativa (o homem, está escrito, é mais inteligente, tem uma linguagem mais complexa e uma habilidade manual mais desenvolvida). Talvez fosse o caso de procurar no campo do improfícuo. Nós, as pessoas, fazemos coisas inúteis durante a maior parte do nosso tempo, seja por prazer, impulso ou passa-tempo. Até o próprio útil, no mais das vezes, é passageiro e soterrado por uma camada irônica de inútil ornado.

É por isso que, ao comer, dificilmente quero só matar a fome. Às vezes, estou atrás de um prazer específico, qual seja, o gastronômico. Outras vezes, quero que alguma outra atividade a que eu me dedique, por exemplo, escrever, que é a mais inútil de todas, não seja interrompida por um aperto do estômago. Se me visto, não é apenas pelo frio, mas porque não quero ser encarcerado por atentado ao pudor, ou porque me agrada ter uma aparência melhor, seja para atrair fêmeas, seja para conseguir um bom emprego. E asseguro que ele também é inútil, esse emprego! Pois se eu fosse me fiar pelo útil, comeria sempre batata, jogaria qualquer pano sobre as costas e moraria na primeira caverna entrevada.

Deliciosa vacuidade

Conclui-se daí que pouco ou nada significa criticar um objeto ou atitude, pensamento ou empreitada, seguindo a lógica de que seja inútil. Afinal, passamos quase todo nosso tempo absortos em terríveis ou deliciosas inutilidades. A própria crítica, aliás, é inútil. Algum herói que se dedicasse apenas ao útil, esteja ele onde estiver, não poderia se preocupar com o inútil alheio, sob pena de cair no redemoinho de um paradoxo.

Mas será que não há limites para o inútil? Mas há! Pode ser difícil defini-lo, delimitá-lo, descrevê-lo, mas o limite existe e temos uma palavra para ele. É o fútil. Como vimos, mesmo o inútil se presta a algo. É graças a ele que mantemos nossa vontade de viver, realizar algo, seguir no movimento despropositado de existir. Saídos das selvas e savanas, ou da animalidade, como diria Rousseau, é para as coisas inúteis que transferimos a maior parte da pujança de nossa vontade. E a vontade é a mais perfeita tradução de nossa força vital. Sem a dedicação a coisas inúteis, mas às vezes belas, às vezes sublimes, às vezes apenas interessantes, como a arte, o amor, o esporte e a política, o que seria nossa vida, senão uma pasmaceira insuportável, mas útil?

Chamamos algo de fútil quando temos a sensação de que esse movimento em direção ao inútil vai longe demais. Quando nos parece que uma determinada inutilidade não se presta nem a purgar as misérias, nem a elevar a alma, nem a proporcionar um prazer que só nós, humanos, podemos ter. Em resumo, quando sentimos que o objeto de nossa atenção é vulgar e prejudicial à deliciosa vacuidade da vida humana, apenas por ser ainda mais vazia.

O fútil, porque está tão aquém de nossa melhor dedicação, deixa entrever a existência de algo que é seu oposto absoluto. Qual seja, o útil. Enquanto a inutilidade nos ocupa em corpo e espírito, o fútil mal consegue cobrir nossos olhos, como um véu fino demais. Face a face com o útil, o fútil se despedaça e leva consigo o encanto do inútil. Esse vilão, desmascarado, esmorece a grandeza da arte, a glória da ciência, as delícias da mesa e da cama, as epopéias do esporte, o charme da costura e a beleza da mulher.

O maior mal da humanidade, que fique claro, não é a ineficiência, nem a incompetência, nem mesmo a corrupção, a crueldade ou o ócio. Nossa pior desgraça é a futilidade. Suprimindo-a, já seríamos mais felizes, mesmo com as doenças, guerras e crises.



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