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O vazio

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Toda a verborragia da imanência do nada quer disfarçar uma ruína institucional que jornalistas, críticos, curadores e artistas negaram-se a admitir por muito tempo. Não faltam recursos. Falta capacidade aos diretores e conselheiros da Fundação Bienal, imersos em querelas mesquinhas

Guilherme Scalzilli - (18/11/2008)

Em agosto de 2005, durante uma reunião com o reitor e diretores da Unesp de Franca (SP), alguns estudantes realizaram um protesto inusitado: um rapaz defecou numa folha de jornal, outro vomitou num balde e os demais sacaram coquetéis Molotov. Diante da previsível retaliação da universidade, os manifestantes reagiram indignados, apresentando-se como coletivo de artistas que havia organizado uma espécie de happening político, embasado nas teorias dos dadaístas e de Marcel Duchamp.

Episódios similares conferem argumentos a vertentes conservadoras da crítica, que responsabilizam o legado iconoclasta das vanguardas do século passado por certa indulgência que contaminaria as artes contemporâneas. O exibicionismo dos criadores, a consagração de obras destituídas de valores estéticos e a conseqüente alienação do público seriam manifestações de uma crise intrínseca à pós-modernidade, nascida na afirmação genérica e gratuita do estatuto artístico.

Essa abordagem, problemática e obsoleta, reproduz o autoritarismo denunciado na agressividade inconseqüente de alguns “artistas” (e a justifica, por reação). A pretensão à infalibilidade analítica é comum a todo fundamentalismo de essência solipsista – o juízo individual (meu, de preferência) está sempre correto.

Uma dita arte que sacraliza o nada

A 28ª Bienal de São Paulo representa um híbrido simbólico dos universitários porcalhões e de seus inimigos puristas. Os curadores transformaram um dos maiores eventos de arte contemporânea do planeta num gigantesco prédio desocupado, salvo por objetos e atividades esparsos. Enfeitaram a iniciativa com bricabraques retóricos, conferindo-lhe significados profundos e respeitáveis. Ao mesmo tempo, apesar da interatividade professada, criaram uma blindagem institucional (e policial) para coibir manifestações alienígenas. Sacralizaram o nada.

Aqueles jovens escatológicos poderiam justificar sua “obra” nos mesmos termos utilizados por Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen para legitimar a “planta vazia” da Bienal. Um balde regurgitado, uma porção de excremento e explosivos caseiros (ou qualquer outra coisa) também propiciam “um momento de reflexão a partir de diversos subsídios para o conhecimento e a compreensão da arte”. Transformar salas de reunião em pocilgas igualmente “produz cartografias estruturais”, iniciando “um processo de trabalho investigativo e crítico, regular e sistemático, que acompanhe e dê conta dos movimentos e das transformações percebidos num circuito artístico determinado”.

A conotação impositiva desse discurso do “vazio significante” evidencia-se no fato de que ele não concedeu semelhante maleabilidade conceitual aos grafiteiros que atacaram as paredes brancas do prédio. Os curadores, imbuídos de uma transcendência messiânica, assumiram o lugar dos artistas e substituíram a multiplicidade de referências por uma única (i)materialidade, intocável, consumada, indiscutível. Só a própria instituição pode questionar-se.

Sintomaticamente, a crítica conservadora adorou a proposta, festejada como corajosa reflexão sobre o suposto colapso das estruturas criativas, expositivas, analíticas e mercadológicas da arte contemporânea. Enquanto especialistas determinam os novos paradigmas estéticos, o público deve brincar no tobogã do parque; aliás, é mais fácil lidar com prédios ocos, silenciosos e despovoados. A minoria “competente” não gosta de multidões.

Patético subterfúgio para a incompetência, a precariedade transformou-se em metáfora do modelo de gestão cultural que a engendrou

Chega a ser constrangedora essa pretensão de decretar a falência das bienais em escala mundial. A falência é exclusividade nossa. Menosprezar os eventos estrangeiros e transferir responsabilidades ajuda a enlevar as consciências dos privilegiados que dominam as grandes estruturas produtivas paulistas há décadas, atuando nos limites oficiosos do centrismo político bem-pensante, rapinando verbas públicas em gabinetes e autarquias. Patético subterfúgio para a incompetência, a precariedade transformou-se em metáfora do modelo de gestão cultural que a engendrou.

Toda a verborragia da imanência do nada quer disfarçar uma ruína institucional que jornalistas, críticos, curadores e artistas negaram-se a admitir por muito tempo. Não faltam recursos. Falta capacidade aos diretores e conselheiros da Fundação Bienal, imersos em querelas mesquinhas, desinteresse ou corporativismo, além de possíveis ilicitudes. Falta espírito público a parlamentares e governantes, que poderiam garantir dotações orçamentárias permanentes para um acontecimento dessa importância histórica. E falta responsabilidade cívica, para não citar a propagada identidade local, nos empresários e industriais da cidade mais rica do país.

A denúncia do malogro da Bienal não realiza as pretensões metacríticas de seus curadores, assim como o repúdio causado pela escatologia é insuficiente para lhe conferir valores estéticos. A armadilha oculta na proposta do debate interativo, “dialético”, reside em domesticar os questionamentos nos limites da falsa polêmica, da tautologia e do masoquismo narcisista. Ninguém precisa participar desse exercício lúdico autocomplacente e estéril para negá-lo enquanto experiência válida no contexto em que foi inserido.

Mais:

Guilherme Scalzilli assina a coluna Mídia & Política no Caderno Brasil. Leia edição anterior:

A moral camaleônica
É delicioso resgatar os argumentos lançados pela mídia em 1997, em favor da reeleição de FHC. Comparados com a grita contra um terceiro mandato de Lula, eles revelam a tendência a adaptar-se às circunstâncias, típica do camaleão. Mesmo que, confirmando sua essência, ele finja ser outro animal...

A alma do negócio
A publicidade não pode espelhar a realidade – e este talvez seja seu grande malefício sócio-cultural. Toda propaganda é enganosa e, quanto mais enganosa, melhor. Não importa que a harmonia doméstica nada tenha a ver com o uso de um creme dental ou com a margarina Qualy



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