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LITERATURA

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Não se dão conta do óbvio: partir de Marianna, por causa da própria natureza da cidade, significa voltar a ela

Cláudio Parreira - (23/11/2008)

A relatividade das lágrimas

Ela já desperta com o rosto banhado em lágrimas. Desolada, a família lamenta:

–- Ó, minha filha – diz a mãe.
–- Ó, minha filha – diz o pai.
–- Ó, minha irmã – dizem os irmãos.

Os tios, avós, et Cetera também se desesperam com o desespero da menina, também se lamentam:

–- Ó, minha menina – dizem.

A menina, no entanto, pouco se ocupa dos lamentos da família. Tem seus próprios interesses – e por isso chora. Antes de mais nada, agrada-lhe profundamente o sabor das lágrimas, o tempero balanceado do sal que lhe escorre pelo rosto. Ela é, sem que ninguém suspeite, uma artista, uma alminha dotada de extremo senso poético. Que coisa mais linda amanhecer e anoitecer aos prantos!, ela pensa, que alegria inigualável é chorar! A sua família, contudo, pouco vai além das aparências: quem chora sofre, pensam, categóricos, os pais, irmãos, et cetera. À noite, no escondido dos seus lençóis, choram de verdade, preocupados, enquanto a menina descansa tranqüilamente para mais um dia de lágrimas.

***

Marianna

Tudo acontece ao contrário em Marianna: os galos cantam ao cair da noite, os carros avançam de marcha a ré e sempre chove pra cima. Quando chove.

Apesar disso, a vida em Marianna é considerada normal por todo mundo. Os relojoeiros atrasam os relógios com naturalidade e as cenouras crescem todas com suas raízes voltadas para o sol, que no verão surge sempre à meia-noite.

Quando nascem, os velhos não dão trabalho algum: sabem todos que em breve chegarão à idade adulta, e que depois disso uma adolescência repleta de surpresas e delícias lhes está reservada. Este, aliás, é o maior orgulho da cidade: o fim da velhice só traz alegrias em Marianna.

O único problema da cidade são os descontentes. Sim, há descontentes em Marianna, aos milhares. Eles reclamam de tudo, não concordam com nada e acham que a vida de verdade está lá fora, além dos muros que cercam a cidade. Por conta disso, a cada ano, muitos partem. E não se dão conta do óbvio: partir de Marianna, por causa da própria natureza da cidade, significa voltar a ela.

***

O vendedor de datas

–- Que tipo de datas o senhor vende?
–- Todos eles. Tenho datas de casamento, de nascimento, datas para espetáculos e solenidades, datas para sorrir e para chorar, et cetera. O meu catálogo é o mais completo.
–- E datas de falecimento?
– São as mais procuradas, tanto que para elas ofereço diversas modalidades: falecimentos acidentais, criminosos, por tédio e, é claro, naturais. Lógico que para tais datas cobro uma taxa extra, mas o serviço é de primeira.
–- Posso escolher?
–- Por favor.
–- Esta aqui parece boa: 1º de abril de 2300.
–- Perfeitamente. Mas devo lhe avisar que períodos superiores a cem anos sofrem um acréscimo de cinqüenta por cento.
–- Dinheiro não é problema. Pago agora.
–- Quem manda é o senhor. Já escolheu a modalidade?
–- Morte natural.
–- Naturalmente.
–- Agora me diga: quais são as garantias de que só morrerei na data prevista? –- Garantias? Do que o senhor está falando?
–- Do que eu estou falando? Essa é boa! Acabei de pagar uma fortuna pela data, não paguei?
–- Disse bem: pela data. Quem vende garantias é outra pessoa. E agora, com licença. O fim do mês está aí e o aluguel, o senhor sabe, não espera.



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