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LITERATURA

A aventura intelectual chinesa

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Anne Cheng consegue encontrar uma perspectiva equilibrada ou correta para apresentar aos ocidentais uma história do pensamento chinês

Antonio Carlos Olivieri - (23/11/2008)

História do pensamento chinês, de Anne Cheng, lançado no Brasil pela Editora Vozes, pode ser lido e encarado como uma obra de síntese, que desvela um panorama abrangente do tema e pode ser lida continuamente; ou, ainda, como uma obra de referência, a ser consultada na medida das necessidades do leitor, uma vez que cada um de seus 22 capítulos têm a estrutura de ensaios (quase) independentes uns dos outros.

Um dos méritos da obra é o fato de ter sido escrita por uma autora franco-chinesa, professora do Instituto Nacional de Línguas e Civilizações Orientais de Paris. Esse é um mérito, sem dúvida, pois ao ter um pé em cada cultura, tanto na ocidental quanto na chinesa, Cheng consegue encontrar uma perspectiva equilibrada ou correta para apresentar aos ocidentais uma história do pensamento chinês.

O que orienta a autora, num primeiro momento, “é aprender a respeitá-lo [ao pensamento chinês] em sua especificidade: interrogá-lo, mas também saber calar para ouvir sua resposta – ou até, antes mesmo de pressioná-lo com perguntas, pôr-se a sua escuta”. Em outras palavras, trata-se de dar voz aos autores e à tradição chinesa, o que o livro faz bem, sem dúvida. No entanto, a essa atitude, por assim dizer, passiva, Anne Cheng sabe contrapor o confronto dinâmico entre o modo de pensar que se desenvolveu na China e o pensamento/filosofia ocidental, fornecendo ao leitor, assim, um parâmetro, uma chave para a decodificação das diversas escolas chinesas.

Esse confronto sino-ocidental já se coloca muito bem na introdução do volume, em que a autora se questiona se, em termos de China, é possível se falar na existência de uma filosofia ou se é mais apropriado usar a expressão “pensamento”. Opta por esta última, a partir da constatação de uma ausência de teorização à maneira grega ou escolástica, substituída por intuições em que as contradições não são percebidas como irredutíveis. “Em vez de termos que se excluem, vê-se predominar as oposições complementares que admitem o mais e o menos: passa-se do Yin ao Yang, do indiferenciado ao diferenciado, numa transição imperceptível”.

Brota daí nova constatação importante: a de que o pensamento chinês “não procede tanto de maneira linear ou dialética e sim em espiral”. “Ele delimita seu objetivo não de uma vez por todas mediante um conjunto de definições, mas descrevendo ao redor dele círculos cada vez mais estreitos. Isso não é sinal de um pensamento indeciso ou impreciso, mas antes de uma vontade de aprofundar um sentido mais que de esclarecer um conceito ou um objeto de pensamento.”

Nesse sentido, como demonstra Anne Cheng, mais que um “saber o que”, o conhecimento é para os chineses sobretudo um “saber como”: como fazer distinções a fim de dirigir a vida individual e organizar o espaço social com discernimento. Em outras palavras, o discurso da maioria dos pensadores chineses tem caráter instrumental e está essencialmente ligado à ação.

Julgamentos de valor prescindíveis

É a partir dessas considerações que a obra consegue atingir outra de suas finalidades, o que é mais um de seus méritos: a de se constituir numa história intelectual equilibrada entre a linearidade da cronologia e a análise em profundidade das idéias. Tarefa especialmente difícil, quando se leva em conta que a aventura intelectual chinesa tem início na mais alta Antiguidade, com seus primeiros escritos datando do segundo milênio antes de Cristo.

Há ressalvas a fazer ao trabalho de Anne Cheng? Ao menos uma é inevitável: por mais que se esforce, ao confrontar o pensamento chinês e a filosofia ocidental, a autora não consegue deixar de trair julgamentos de valor totalmente prescindíveis. Tome-se, por exemplo, o seguinte trecho (ainda da introdução): “[...] a finalidade última visada [pelo pensamento chinês] não é a gratificação intelectual do prazer das idéias, da aventura do pensamento, mas a tensão constante de uma busca de santidade. Não o raciocinar sempre melhor, mas o viver sempre melhor sua natureza de homem em harmonia com o mundo”.

Ora, também a filosofia ocidental não se ergue exclusivamente sobre a aventura do pensamento, nem visa somente “raciocinar sempre melhor”. Nem é preciso dizer, por mais que estivesse preocupado em estabelecer o rigor científico de seu método, um grande lógico como são Tomás de Aquino (não por acaso um filósofo canonizado) orientava seu raciocínio em sentido existencial e transcendente. E desde Sócrates, ao lado da filosofia especulativa, a Ética se erigiu como uma filosofia da ação e do comportamento.



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