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LITERATURA

Nuvem carregada

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A mim, ninguém oferecia um gole, ao velho que já passou do tempo. Mas eu não sentia. Minha boca, enrijecida, já se acostumara à posição de paralisia, lábios e gengivas endurecidas sem ambição alguma de falar

Diego Viana - (23/11/2008)

Era um sonho. E nele eu era um primitivo. Velho, encarquilhado, vestido em trapos brancos. Porém ciente de uma sabedoria que resulta do tempo impregnado nos ossos. Nessas condições, sentado diante de um casebre de terra, sobre o pó fino e estéril de minha terra, em silêncio eu esperava que chegasse a nuvem carregada. Mas a nuvem carregada não vinha nunca.

Era um sonho em que eu não agia. Só fazia aguardar, na mais manifesta aplicação da paciência dos sábios. Sem o menor deslocamento da coluna, me bastava em meditar e fixar os olhos no entorno. No que visse, esperava encontrar indicações de quando viria a nuvem e o que a traria. Pensava poder identificar os sinais que os deuses enviavam, legíveis apenas aos olhos de quem viveu muito e já viu uma sucessão interminável desses indícios.

Então eu buscava prever a chuva pelo balançar das folhas pálidas, resistentes vegetais de paciência tão notável quanto a minha. Acompanhava os movimentos circulares das crianças que brincavam, seminuas e barrigudas, a simular uma disputa qualquer. Na animação dos movimentos intempestivos, os passos erguiam a poeira do chão, mas o desenho que se formava dizia apenas do tempo seco, do campo estéril, dos leitos rachados onde deveriam passar rios.

Quando um animal espiava por uma fresta das folhas, a mensagem não era outra. Seu desespero era o mesmo da aldeia, condenada a marchar ao longo dos dias à procura de água para dar aos filhos. A mim, ninguém oferecia um gole, ao velho que já passou do tempo. Mas eu não sentia. Minha boca, enrijecida, já se acostumara à posição de paralisia, lábios e gengivas endurecidas sem ambição alguma de falar. Melhor que se beneficiassem os pequenos. Esses, sim, precisavam brincar e correr.

Temi sair da posição meditativa. Nada indicava que pudesse vir a nuvem carregada que eu esperava com minha paciência tão cultivada. O azul do céu se desfizera debaixo da luminosidade contundente de um sol gigantesco, irreal, tão incandescente que só pode existir dentro de um sonho. Os ventos há muito tinham abandonado aquelas terras, desiludidos com a esterilidade das verdades e belezas que deveriam voltejar por aqui e por ali. As mulheres da aldeia já não passavam mais as regras, os guerreiros não entoavam os cantos de guerra, os sacerdotes não tinham com o quê preparar seus ungüentos. Temi fazer algum movimento para reagir à minha própria desolação.

Pois não me contentariam mais as gotas finas, ainda que caíssem por meses sem pausa, lentamente devolvendo as cores à vida e a vida à vegetação, aos animais, aos aldeotas. Velho, às portas da morte, eu já conhecia bem demais a estabilidade para desejá-la aos meus, aquele pequeno povo habituado aos sofrimentos da miséria. Não lhes bastaria a reconquista paulatina do ânimo, tendo encarado os olhos mortiços da aniquilação.

A mim mesmo, já não bastaria. Nesse sonho deprimente, eu acreditava poder recuperar a juventude, a vontade, o vigor, a libido criativa e libertadora. Mas os xamãs e oráculos eram unânimes. Somente a nuvem muito carregada, tão negra que puxasse toda a luz da terra antes de devolvê-la misturada a suas águas, poderia trazer a energia de que tanta sede eu tinha.

Acima de tudo, era isso que eu esperava e buscava entender no movimento das crianças cadavéricas, nos olhares esbugalhados dos bichos, na dança infeliz da poeira, na palidez das folhas quase mortas. O que meu inconsciente queria, através desse sonho e dentro dele, era uma força para mim, não para uma aldeia primitiva em algum continente esquecido. Quem precisava de um dilúvio, a queda agressiva dos pingos quais bombardeio aéreo, não era um povo em vias de extinção. Era meu espírito, meu corpo, meus órgãos sobrecarregados por um uso talvez irresponsável.

Acordei febril. Os lençóis da cama, a parede do quarto, a respiração da mulher, tudo me pareceu absurdo e distante. Demorei a me entender com meu próprio corpo, jovem, bem alimentado, e com meu espírito inquieto, tão distante da sabedoria paciente que sonhei dominar. Não consegui pegar mais no sono, atormentado pela dúvida. Onde eu haveria de perseguir minha nuvem carregada?



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