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CHÉRI À PARIS / CRÔNICA FRANCESAS

Explicando o verão francês

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Percebe-se, pois, que já no vernáculo - été - o conceito de verão na França é completamente ligado ao passado. A estação parece nunca vir. Já foi. E não tem perspectivas de volta

Daniel Cariello - (30/11/2008)

Levou-me um ano e meio, mas esses dias tive o insight de que a questão do verão, ou da sua ausência, na França é muito mais do que uma simples consequência da posição do país no globo terrestre. É uma consequência semântica.

A explicação é simples.

Como se sabe, o vocábulo "verão" em francês é "été" (pronuncia-se êtê). Mas a mesma palavra é também o particípio passado do verbo "être", que é o equivalente aos nossos verbos "ser" e "estar". Portanto, "été" também significa "sido" ou "estado".

Percebe-se, pois, que já no vernáculo o conceito de verão na França é completamente ligado ao passado. A estação parece nunca vir. Já foi. E não tem perspectivas de volta.

Para ilustrar a teoria, escolhi completamente ao acaso uma frase juntando os dois sentidos de "été":

. L’été a été pourri. (O verão foi uma tragédia).

Já em português, a palavra "verão" soa semelhante à 3ª pessoa do plural do verbo "vir", conjugado no futuro: "virão". Ou seja, dá a sensação de algo que vai chegar sempre. E chegar de galera.

Para não parecer injusto, também selecionei aleatoriamente uma frase em português, contendo os dois termos citados.

. No verão, virão gatas bronzeadas de todos os lados.

Entenderam? É uma questão de perspectivas diferentes, causada pela gramática.

E já que tem passeata pra tudo em Paris, vou ver se junto alguns brasileiros para irmos às ruas exigir a troca do vocábulo que denomina a estação quente. Talvez por "veron", que parece "verão", com pronúncia e grafia afrancesadas.

Não sei se vai resolver. Mas vale a pena tentar.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

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Já dizer que o Para-si tenha consciência, é questionável. Discute-se nos meios filosóficos se um cidadão que pendura a bandeira do Vasco na janela pode ou não ser enquadrado como um grande conhecedor do mundo. Não sou eu quem diz, é Sartre

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