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ELEIÇÕES EUA

Quem tem medo de Obama

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Aclamado pela mídia, a futura política de Obama permanece incerta. Ele é negro, mas não é baiano. E muito menos arretado. O novo presidente mostrarará ao mundo o que que a baiana tem?

Paulo Cannabrava Filho - (12/12/2008)

É impressionante o comportamento da mídia brasileira em relação às eleições nos Estados Unidos. Em nenhum outro país, nem nos EUA, deu-se tanto espaço para o evento. Além do exagero da cobertura, a imprensa trata o tema como espetáculo e criam um clima de expectativa tal como se aguardássemos a chegada de um novo Messias.

Candidato favorito também na Europa, acolhido pela mídia espetáculo como em nenhuma outra eleição presidencial estadunidense. A opinião pública espera que o multiculturalismo e o multilateralismo nas relações regionais e mundiais ganhem força. Pode ser, e isso é positivo.

No Brasil há mais gente torcendo por Obama do que por Lula nas últimas eleições presidenciais. Os articulistas de plantão invocam as origens do novo presidente norte-americano para alentar a esperança de que ele salvará a humanidade da atual crise no cassino financeiro mundial. Na Bahia, como se fosse um baiano arretado, ganhou até letra de reggae.

O título acima não é uma interrogante. Ele define uma reflexão de quem realmente tem medo de Barak Obama.

Era uma vez...

Obama ganha as eleições nos Estados Unidos. Desta vez não haverá fraude em favor dos republicanos. Uma eleição limpa, na medida da hipocrisia do establishment estadunidense. Obama não será assassinado e governará com maioria democrata nas duas casas legislativas. É o candidato do sistema. Até o Financial Time expressou apoio explícito ao candidato. Voz uníssona de todos os grandes conglomerados de mídia relacionados com as megacorporações financeiras, industriais e comunicacionais de caráter global. Ganha a eleição e governa porque assim quer, o complexo militar industrial aliado à indústria criativa, os dois maiores formadores do PIB estadunidense. A atual crise do sistema sequer tomou rumos e não será suplantada sem um clima psicossocial favorável.

Será que essa gente ficou boazinha de uma hora para outra e vai entrar na onda da construção de outro mundo possível? Aquele mundo que sonhamos e pelo qual lutamos nos fóruns alternativos? Será que o agravamento da crise sistêmica do capitalismo globalizado levará a um reordenamento na concepção de desenvolvimento e de governo mundial?

Nas vésperas do 11 de setembro, data em que as torres símbolos em Nova York foram atingidas, o “son of a Bush”, o herdeiro - tanto nas petroleiras como na presidência -, havia feito um dramático discurso solicitando aprovação de um astronômico orçamento para o projeto denominado Guerra nas Estrelas, necessário para mover a economia em crise. Ele dizia algo como: a guerra (nas estrelas) ou a guerra. O congresso negou-lhe aprovação. Dias depois, o desabamento das torres deu-lhe o pretexto para iniciar a sua guerra. Sua, do Dick Scheney, da Halliburton, da Boeing, da GE etc. A guerra da rapina do petróleo iraquiano e das rotas de petróleo e heroína da Ásia Central.

O governo do Bush filho foi um desastre sob todos os pontos de vista. Agravou a crise econômica e moral, com efeitos devastadores na auto-estima da população estadunidense e na imagem dos Estados Unidos, no consciente e inconsciente dos terráqueos, notadamente entre os parceiros da governança mundial. E como se não bastasse, veio a quebra financeira do cassino global. O sistema e a liderança dos EUA não tinham mais como sustentar-se.

A campanha sucessória, a eleição e posse do novo presidente servem para promover a necessária reversão de expectativas na psique coletiva estadunidense e mundial. Obama é o ícone perfeito: jovem, moderno, culto e negro, com ascendentes na África - parece mesmo um baiano arretado.

O candidato republicano é exatamente seu inverso: velho, conservador, retrógrado, inculto e branco. Infeliz até no nome: Cain, o primeiro assassino. Sua vice é uma caricatura do que ele representa. Uma dupla sem qualquer chance de empolgar o eleitorado e menos ainda a opinião pública mundial. Deve haver uma razão para isso.

Obama: bicho papão?

O capitalismo consumista ainda tem muito fôlego, e os EUA não têm como viver fora dele. Uma sociedade mal informada, revestida de fundamentalismo religioso, educada para consumir é facilmente envolvida por uma campanha que enfatiza questões abstratas, à volta ao espírito norte-americano. É necessário afugentar o efeito da crise, cuja conseqüência tem sido o empobrecimento da classe média, eternamente endividada e estressada com o susto da quebradeira das financeiras. A eleição é oportuna para o diversionismo necessário para a reversão das expectativas.

Não há porque deixar de ter medo de Obama. Sua eleição servirá para recuperar o bom desempenho dos EUA. A história nos tem ensinado que os Estados Unidos do pós-guerra têm sido governado pelo complexo aparato de informação e comunicação montado para servir aos interesses dos grandes conglomerados empresariais. Os presidentes, como regra, têm sido meros fantoches. Obama é negro, mas não é baiano. É diplomado por Harvard. É da estirpe de Collin Powell e Condoleezza Rice. Negros assimilados e cooptados, perfeitamente integrados ao establishment.

Com relação à América Latina, essa crença de que Obama é o novo Messias, fará com que a população baixe a guarda facilitando aos operadores do sistema recuperar terreno perdido com a desmoralização provocada por Bush. Esse é o perigo.

Até aqui no Brasil já se percebe que uma coisa é conquistar o governo e outra é governar com independência, realizar projetos que alterem os rumos do sistema. Tudo continuará como dantes. Para organizar a transição e a equipe do novo governo foram chamados Warren Buffett, megainvestidor, o mais rico do planeta, Timothy Geithner, homem do Fed, e Rahm Emanuel, agente do Mossad. Lá, como aqui, a esperança será sufocada pela frustração.



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