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LITERATURA

Impressionismo em tons de cinza

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Assim como “Respiração artificial”, de Ricardo Piglia, “História do pranto” já pode ser considerada uma obra importante sobre o período de exceção latino-americano

Marco Polli - (01/12/2008)

Entre as primeiras vítimas de uma ditadura, seja de direita ou de esquerda, está a história. Esta frase é um clichê, mas isso só prova que clichês não devem ser descartados de pronto, e sim olhados com cuidado. A narrativa histórica é empobrecida e castigada durante os regimes de exceção e, infelizmente, também após a sua derruba. A política e a moral continuam a simplificar a narrativa sobre esses períodos – por vezes apenas invertendo os pólos de valoração –, não fazendo jus à experiência daqueles que o atravessaram. História do pranto, de Alan Pauls (Editora Cosac Naify), desafia a historicidade convencional, ao mesmo tempo em que realiza uma ficção de qualidade, com escolhas de estilo inusitadas.

Como um período histórico deve ser necessariamente sentido? Como um regime de exceção tem que ser lembrado? A história do pranto vasculha a sensibilidade de um personagem não nomeado, que viveu parte da infância e adolescência durante o regime militar argentino. Resgatar sentimentalmente o que aconteceu, identificar o seu peso, não é uma perspectiva nova à ficção de Pauls. O leitor brasileiro conheceu o autor justamente com a edição de O passado, um romance de 470 páginas sobre um relacionamento mal terminado. Neste novo livro, também traduzido por Josely Vianna Batista, Pauls afina esse olhar retrospectivo para entrelaçar história pessoal e história política. A sua técnica se mostra em um nível superior: continuam os períodos textuais enormes, que mais cercam o momento do que o colocam em fluxo – porém a sua frase está menos mecânica e mais rica. Mesmo sendo uma obra curta – uma novela de fato, com apenas 85 páginas –, o leitor tem a impressão de que leu uma obra de fôlego muito maior, pelo alcance da prosa do argentino. Nela, a infância é apresentada pela atenção detalhada do protagonista aos machucados no corpo (nos dedos), aos detalhes de uma piscina em que está mergulhado e, simultaneamente, pelo modo com que a sua mente se joga em alguma narrativa fantasiosa, inspirada na TV. A infância aparece como uma mistura de extremos, entre a corporalidade acentuada e a fantasia, e é nessa mistura que a sensibilidade individual passa a ser construída. Esses dois extremos estão presentes na seguinte passagem:

“[E]le cruza a sala com toda pressa, vestido com a patética roupa de Super-Homem que acaba de ganhar de presente, e com os braços estendidos para frente, numa tosca simulação de vôo, pato com talas nas asas, múmia ou sonâmbulo, atravessa e estilhaça o vidro da janela francesa que dá para a sacada. Um segundo depois volta a si, como se acordasse de um desmaio. Descobre-se de pé entre floreiras, apenas um pouco acalorado e trêmulo. Olha suas mãos e vê, como que desenhados, dois ou três filetes de sangue escorrendo-lhe pelas palmas.

O que o salvou não foi a compleição de aço do super-herói que ele evoca, como poderia parecer à primeira vista e como logo irão cuidar de repetir os relatos destinados a manter viva essa façanha, a mais chamativa, senão a única, de uma infância que, aliás, destinada desde o início em não chamar a atenção, prefere ir levando em atividades solitárias, leitura, desenho, a juveníssima televisão da época, indícios de que isso que em geral chamamos de mundo interior e que define, ao que parece, crianças um tanto esquisitas, nele é consideravelmente mais desenvolvido do que na maioria dos meninos de sua idade. O que o salvou foi sua própria sensibilidade...”

Autoritarismo e universo individual

Esse olhar reflexivo vai recair sobre o pranto, sobre quando se deve chorar ou não. Enquanto a realidade política vai penetrando o ambiente do personagem, tal consciência sobre a própria sensibilidade se torna o fio condutor do livro. Militares andam nas ruas perto da sua casa, um deles se torna seu vizinho. Ao lado dessa realidade imediata, vemos se formar na vida social um tipo de teatro para o tratamento da política, em se que busca definir posições e sentimentos de antemão. Seu pai, que é divorciado de sua mãe e é um oposicionista clandestino, leva-o para o show de um cantor de protesto recém-anistiado, onde há uma discrepância evidente entre o que se vê e o que deveria acontecer:

“O punhado de homens e mulheres a que se reduz a audiência com a qual se reencontra nessa noite o cantor de protesto, o mesmo que apenas sete ou oito anos atrás lota estádios e cede, satisfeito, suas melodias aos redatores de palavras de ordem militantes, não pode não ser um sinal, e um sinal não dos melhores, sobretudo quando a penumbra calculada do ‘pub’, o falso antigo de seus revestimentos de madeira, o ar radiante dessas mulheres vestidas de branco e esses homens bronzeados que seguram copos longos na mão reproduzem ao pé da letra o clima, a cenografia e os protagonistas dos anúncios gráficos de marcas de cigarros ou de uísque que ocupam as contracapas das revistas de atualidades que há seis anos denunciavam o cantor de protesto como uma ameaça e exigiam a proibição de suas canções.”

Já adolescente, o protagonista tem grande interesse pela sua época, compra periódicos políticos de oposição e lê os intelectuais de esquerda importantes. Porém, algo indefinido o impede de ter a emoção que considera correta. Pela TV, vendo com um amigo a derrubada de Salvador Allende no Chile, ele fica perplexo; contudo, ao contrário da companhia ao lado, não consegue chorar. Uma incapacidade que o faz sentir-se frustrado. Ironicamente, a imagem do Super-Homem, figura pop americana, sempre volta como símbolo do posicionamento justo e corajoso, ao que o protagonista não consegue se colocar à altura.

História do pranto é uma obra claramente política, mas que não procura validar as narrativas convencionais da direita ou da esquerda. Alan Pauls cria a sua ficção reconstruindo o contato complexo do autoritarismo com o universo individual. Para esse fim, o autor argentino faz algumas opções pouco triviais. Primeiramente, embora seja um texto de teor memorialista, ele é narrado em terceira pessoa. Essa voz narrativa, por sua vez, oscila entre uma visão bem próxima e intimista – em termos práticos, idêntica a de uma primeira pessoa – e uma perspectiva distanciada de análise. Em segundo lugar, se os longos parágrafos e as recordações interligadas e fluidas podiam sugerir um texto calcado no impressionismo proustiano, Pauls prefere fazer uma rememoração esvaziada de lirismo, em tons cinzentos, como se quisesse evitar a passionalidade em geral ligada ao tema. Essas duas escolhas podem fazer o livro ser confuso e sufocante para alguns leitores, mas garantem também que ele seja único e surpreendente. Assim como Respiração artificial, de Ricardo Piglia – que assina uma pequena apresentação na contracapa do livro de Pauls –, História do pranto já pode ser considerada uma obra importante sobre o período de exceção latino-americano. As duas obras exemplificam o poder da literatura quando falta riqueza à historicidade e, não menos importante, são textos que se sustentam por si como boa ficção.



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