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GEOPOLÍTICA

O Fantasma das rebeliões

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"O mais provável é que voltem à ordem do dia as revoltas e revoluções sociais. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em "zonas de fratura [1]"

José Luís Fiori - (12/12/2008)

Não existe uma teoria da revolução, existem várias. Mas quase todas reconhecem a existência de um denominador comum. Na experiência revolucionária dos séculos 19 e 20, as revoltas acontecem - quase sempre - em sociedades fraturadas, com estados enfraquecidos pelas guerras e por grandes crises econômicas, e situados em "zonas de fratura", onde se concentra a pressão geopolítica da disputa entre as grandes potências. São nestes territórios, que costumam nascer e multiplicar as rebeliões mais importantes e resistentes. Sempre violentas, não tem homogeneidade ideológica e não produzem grandes mudanças estruturais imediatas, como costuma acontecer no caso das revoluções sociais e políticas bem sucedidas. Pois bem, se esta tese for correta, não é difícil de prever o novo mapa mundial das rebeliões, deste início do século 21. Basta seguir os passos da competição geopolítica e econômica das grandes potências, depois do fim da Guerra Fria, e localizar os seus pontos de maior pressão competitiva, onde estas potências exercem de forma mais direta sua capacidade de dividir e mobilizar as forças locais, umas contra as outras, dentro dos estados situados nestes "tabuleiros geopolíticos" mais disputados. Alguns destes pontos são mais visíveis, e de explosividade imediata. Outros, são menos visíveis e de combustão mais lenta.

Tudo começou em 1991, com a desintegração da União Soviética e a entrada das forças OTAN ou dos EUA, na Europa Central, nos Bálcãs, no Cáucaso e na Ásia Central - região mundial de maior complexidade geopolítica, envolvendo os territórios do Afeganistão, Paquistão, Norte da Índia, Cashemira e Tibet. Não havia nenhuma grande potência que não estivesse envolvida em alguma destas áreas e na disputas pelo seu controle. Utilizavam ou incentivavam grupos e organizações locais, de todo tipo, numa sucessão de revoltas, rebeliões, atentados terroristas e guerras civis que não tinham como parar, a menos de um acordo multilateral improvável, ou de uma retirada de todas as grandes potencias envolvidas, o que é rigorosamente impossível do ponto de vista da lógica do sistema e dos interesses e posições que já tinham sido ocupadas pelos participantes daquele novo "grande jogo". Alfred Mackinder e Nicholas Spykman - os dois maiores teóricos geopolíticos anglo-americanos - definiram esta faixa de terra que vai do Báltico até a China, como uma fronteira decisiva para o controle do poder mundial, situada entre as "potências marítimas" e as "grandes potências terrestres", ou seja, entre a Grã Bretanha e os Estados Unidos, de um lado, e do outro, sobretudo, a Rússia e a China.

Logo em seguida, neste "mapa da pólvora", apareceu a África Negra. Depois de 2001, os EUA mudaram sua política externa e aumentaram sua presença no continente africano. Mas tal mudança de posição não foi um fenômeno isolado, e foi seguida pela União Européia, Rússia, China, Índia, e também pelo Brasil. Em poucos anos, o cenário africano mudou. Aumentou a competição imperialista, e de novo, como nos séculos anteriores, as potências e suas grandes empresas utilizam a seu favor, e muitas vezes incentivam , as lutas tribais e as guerras locais, entre os estados que nasceram da decomposição dos seus próprios impérios coloniais. Neste momento, já estavam em curso rebeliões e guerras civis, no Congo, na Somália, no Zimbábue e na Nigéria, com participação de países e empresas de fora da África, e com o envolvimento direto de Angola, Ruanda, Namíbia e Burundi. Também neste caso, não havia perspectiva de acordo local, ou de retirada das grandes potências, e o mais provável é que a África se transformasse - uma vez mais - em território privilegiado da corrida imperialista e num verdadeiro "semilheiro" de rebeliões de todo tipo.

Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial

E o que se pode prever com relação à América do Sul? Durante os séculos 19 e 20, foi uma região de influência anglo-americana, sem grandes disputas imperialistas. Mas neste início do século 21, o cenário e as perspectivas mudaram. De forma lenta, mas implacável, a pressão da nova corrida imperialista, que começou na década de 90, está alcançando a América do Sul e deve produzir os mesmo efeitos do resto do mundo. Já fazem parte deste processo, o envolvimento militar americano com a Colômbia, a reativação da IV Frota Naval dos EUA para o Atlântico Sul, a intensificação dos conflitos fronteiriços entre Venezuela, Colômbia e Equador, e os conflitos internos da Bolívia e da própria Colômbia. Mas também: a criação da UNASUL e do Conselho de Defesa da América do Sul, e todos os projetos políticos e econômicos de integração regional, assim como os grandes projetos de integração comercial e de investimento produtivo na região, da UE, da China, da Rússia, e demais países de fora do continente. Tudo indica que a América do Sul foi incorporada e não tem mais como escapar da pressão competitiva mundial, produzindo uma maior integração do continente mas também, uma maior disputa entre os seus estados, e em particular, entre o Brasil, os Estados Unidos.

Nesta mesma direção, algumas áreas da América do Sul também devem transformar-se em "zonas de fratura" internacional, e aí podem surgir conflitos e rebeliões que envolvam as grandes potências e as empresas que competem pelo controle da região. E no caso das regiões de maior densidade indígena, nos próximos anos, estas rebeliões tenderão a ser de direita, brancas e racistas.

Finalmente, sobre este pano de fundo de deve e pode calcular o impacto da nova crise econômica mundial. Será prolongado e deverá atingir todas estas "zonas de fratura", acentuando suas tendências mais perversas. Por isto, neste momento, apesar de que se fale muito de economia, existe um outro fantasma que ronda o mundo e assusta mais os seus dirigentes: o fantasma das rebeliões.



[1] José Luis Fiori, Valor Econômico, 5/11/2008

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