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Vice-Verse 5

Mais poemas de Pound

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No quinto número de nossa seção Vice-Verse, coordenada pela jornalista e tradutora Marina Della Valle e dedicada a traduções de poesia e prosa em língua inglesa, apresentamos novos poemas de Ezra Pound, traduzidos do livro "Lustra"

Dirceu Villa - (05/12/2008)

Nestes quatro poemas de Ezra Pound, publicados em Lustra (1916), temos demonstradas exemplarmente algumas das virtudes modernas da escrita poética, quase que de modo didático.

“April” evoca, como “Papyrus”, do mesmo livro (poema traduzido de fiapos de grego sáfico), uma ancestralidade monumental que se tornou fragmentária, e que retornava, portanto, como lição de concisão. Propunha, também, que nesses fragmentos se vislumbra algo de um mundo pagão mais forte em seus restos de cultura que o moribundo cristianismo, coisa que já dizia em “The Return”, de seu livro anterior, Ripostes (1912).

“Simulacra” e “The Lake Isle” são poemas de um núcleo também epigramático em Lustra, que talvez seja o centro da obra, em torno do qual giram reunidos os outros aspectos, como sugere T. S. Eliot no ensaio “Ezra Pound: His Metric and Poetry” (1917). Mas Pound não está updating o epigrama grego e latino, requentando forma e matéria antigas vindas de Arquíloco ou Marcial, por exemplo. O epigrama serviu aos desígnios e ao temperamento de Pound: seus desígnios eram de vanguarda; seu temperamento, irônico. Graças à coincidência de objetivos estéticos desses dois vetores, o amálgama, me parece, foi preciso. Devemos recordar que Lustra é publicado no auge do modernismo na Europa, vendo-se já imersa na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Em 1916, o dadaísmo abria o Cabaret Voltaire em Zurique: o grupo invertia ironicamente os pressupostos da arte, renovando-a por seu avesso: Johannes Baader, por exemplo, faz a performance do ultrajante Christus ist Wurst, “Cristo é lingüiça”, na catedral de Berlim, em 1917; não podemos também nos esquecer de que, embora Pound declarasse que o movimento a que passara a pertencer, o vorticismo, pouco ou nada tinha com o futurismo italiano, é perceptível em seus poemas o nexo de velocidade de associações, e uma inquietação sintática que busca, seja o cumulativo (a percepção nas grandes cidades e na vida moderna não subordina, cola, e se oferece numa sucessividade dinâmica), seja o ideogrâmico (através da collage, pode-se explorar o trunfo de uma imagem se fundir com a outra em um sentido que proponha as duas + a relação entre elas, o que Pound aprendera na leitura da poesia chinesa).

Quem em princípio forneceu as leis para que um texto poético tivesse essa mobilidade nervosa que registra a máquina, a desproporção das grandes cidades, a velocidade como valor em si, foi Filippo Tommaso Marinetti e suas “ordens de serviço” no Manifesto tecnico della letteratura futurista (1912). Lá, a supressão de elementos conectivos da frase e adjetivos, entre outros procedimentos técnicos, pretende incitar na escrita a percepção da estrutura do movimento. Embora Marinetti forneça o modus faciendi, serão outros poetas futuristas a demonstrá-lo na prática, como Ardengo Soffici (num poema como “Crocicchio”, de 1915) e sobretudo Luciano Folgore em poemas de Ponti Sull’Oceano (1914), que antecede Lustra em dois anos.

Em “Simulacra” Pound está escrevendo um de seus poemas que abordam, em Lustra, a sociedade inglesa que ainda resta presa a convenções vitorianas, com as mulheres delicadas e zonzas, sempre a partir de um ângulo muito flâneur, naquele sentido baudelairiano: a voz do poema está sempre zanzando pela cidade e descobrindo fantasmas da vida em sociedade. Escrevi “fantasmas” não por acaso, que é o que diz a palavra latina simulacrum, no plural do título. Pound reitera, em poemas como esse (como “The Garden”, ou “Shop Girl”), a distância entre a nova percepção e os velhos hábitos sociais, que provocam um ruído, ou um atrito no poema.

“The Lake Isle” é uma paródia de “The Lake Isle of Inisfree”, de William Butler Yeats, parte do livro The Rose (1893). O poema de Yeats — na tradição baudelairiana de “L’invitation au voyage”, de Fleurs du Mal, aquele motivo de evasão que Manuel Bandeira glosaria em “Vou-me embora pra Pasárgada” — começa assim: “I will rise and go now, and go to Inisfree/ And a small cabin build there, of clay and wattles made (...)”. Pound transforma a despedida elegíaca de seu amigo Yeats (vinte anos mais velho), como lemos na paródia, num poema irônico, desidealizado, e com toques vulgares para a época, como a menção sem cerimônias às “putas”. Lustra, como sabemos, seria censurado antes mesmo de ser impresso, por esse tipo de liberdades e malícias.

“Fish and the Shadow”, último poema apresentado aqui, faz parte de um adendo de Lustra, os poemas de 1915. Pound o escreve para captar não apenas a indefinição da linguagem dos sonhos, mas também para imitar os subentendidos da linguagem coloquial, indecisa, que não arredonda os sentidos que vão sendo semeados (e novamente investe na qualidade sugestiva do fragmento como forma aberta). O poema termina com dois versos em provençal trovadoresco, que dizem: “Que sou bela,/ eu sei”, sublinhando, pelo uso da língua das antigas canções do fin’Amors, o sentido amoroso da conversa.

Boa leitura.

***

APRIL

Nympharum membra disjecta

Three spirits came to me

And drew me apart

To where the olive boughs

Lay stripped upon the ground:

Pale carnage beneath bright mist.

ABRIL

Nympharum membra disjecta

Três espíritos vieram a mim

E levaram-me embora

Para onde as ramos de oliva

Jazem sem casca no chão:

Tênue carnagem sob a névoa clara.

***

SIMULACRA

Why does the horse-faced lady of just unmentionable age

Walk down Longacre reciting Swinburne to herself, inaudibly?

Why does the small child in the soiled-white imitation fur coat

Crawl in the very black gutter beneath the grape stand?

Why does the really handsome young woman approach me in

Sackville Street

Undeterred by the manifest age of my trappings?

SIMULACRA

Por que a dama de rosto eqüino e idade impronunciável

Desce Longacre recitando Swinburne a si mesma, surdamente?

Por que a criancinha no falso casaco de pele com manchas brancas

Engatinha na sarjeta muito preta sob a barraca de uvas?

Por que a jovem bela pra valer se aproxima de mim em

Sackville Street

Sem se deter pela idade manifesta dos meus trapos?

***

THE LAKE ISLE

O God, O Venus, O Mercury, patron of thieves,

Give me in due time, I beseech you, a little tobacco-shop,

With the little bright boxes

piled up neatly upon the shelves

And the loose fragrant cavendish

and the shag,

And the bright Virginia

loose under the bright glass cases,

And a pair of scales not too greasy,

And the whores dropping in for a word or two in passing,

For a flip word, and to tidy their hair a bit.

O God, O Venus, o Mercury, patron of thieves,

Lend me a little tobacco-shop,

or install me in any profession

Save this damn’d profession of writing,

where one needs one’s brains all the time.

A ILHA LACUSTRE

Ó Deus, Ó Vênus, Mercúrio, senhor dos ladrões,

Me dêem na hora certa, eu imploro, uma pequena tabacaria

Com as caixinhas brilhantes

empilhadas com capricho nas prateleiras

E o cavendish de suave fragrância

o tabaco picado,

E o brilhante Virginia

avulso nas vitrines brilhantes,

E duas balanças sem muita gordura,

E as putas que chegam pra dois dedos de conversa, de passagem,

Pra jogar conversa fora, e dar um jeito no cabelo.

Ó Deus, Ó Vênus, Mercúrio, senhor dos ladrões,

Me emprestem uma pequena tabacaria,

ou me ponham em qualquer profissão

Salvo esta maldita de escrever,

onde é preciso ter miolos todo o tempo.

***

FISH AND THE SHADOW

The salmon-trout drifts in the stream,

The soul of the salmon-trout floats over the stream

Like a little wafer of light.

The salmon moves in the sun-shot, bright shallow sea. . . .

As light as the shadow of the fish

that falls through the water,

She came into the large room by the stair,

Yawning a little she came with the sleep still upon her.

“I am just from bed. The sleep is still in my eyes.

Come. I have had a long dream.”

And I: “That wood?

And the two springs have passed us.”

“Not so far, no, not so far now,

There is a place — but no one else knows it —

A field in a valley . . .

Qu’ieu sui avinen,

Ieu lo sai.”

O PEIXE E A SOMBRA

A truta-salmão trilha a correnteza,

A alma da truta-salmão flutua na correnteza

Como mínima lâmina de luz.

O salmão se move no raio do sol, brilha raso o mar. . . .

Suave como a sombra do peixe

através do fundo d’água,

Ela veio ao amplo quarto pela escada,

Bocejando um pouco, veio ainda sob efeito do sono.

“Acabei de levantar. O sono ainda fecha os meus olhos.

Vem. Eu tive um sonho longo.”

E eu: “Aquele bosque?

E duas primaveras se passaram.”

“Não tão longe, não, não tão longe agora,

Há um lugar — ninguém mais o conhece —

Um campo num vale . . .

Qu’ieu sui avinen,

Ieu lo sai.”



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