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LITERATURA

Nós ao espelho

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Os espelhos de Eduardo Galeano são cristalinos e impiedosos: pequenas visões que ferem apenas os muito vaidosos e os que acreditam que os valores estão na superfície dos corpos, nas imagens ideais e nas verdades inventadas

Romilda Raeder - (12/12/2008)

“Pai, pinta o mundo no meu corpo” (canto indígena de Dakota do Sul). Assim Eduardo Galeano epigrafa talvez o livro mais belo que já escreveu. E com esse canto, guarda seu espírito na obra que traz pintada em suas páginas a história do mundo. Não a história oficial. Não a história dos vencedores. Mas a história vista pelo olho de quem, não tendo compromissos com o poder sobre, lançou mão do seu poder de e trabalhou duro para reunir leituras, lembranças e relatos – memórias suas e não –, estudos, impressões, cismas, desejos, indignações, crenças e espantos para realizar um “projeto delirante” – tornado possível, como confessa na grandeza de sua humildade, pela colaboração de muitos. Graças a isso, tenho hoje em minha biblioteca a maravilha que é Espelhos: uma história quase universal (Editora L&PM).

A uma só vez terno, irônico, sensível, analítico e impiedoso, Galeano percorreu a trajetória do mundo palmilhando mitos, místicas, relatos, notícias, denúncias, silêncios. E o resultado foi, nas palavras de Igor del Barrio “poesia militante da memória e da consciência, versos livres construídos da dignidade e contra a indiferença”.

Não direi que li os 600 mínimos textos em duas ou três únicas vezes (de uma vez, impossível). Não li. Não lerás, leitor. Ninguém. Não por serem 600. Não por estarem contidos em muitas 360 páginas. Mas porque a cada três, quatro histórias, pára-se: é preciso assimilar, deglutir. É preciso encantar-se e rir, encantar-se e surpreender-se, encantar-se e... – sempre e sempre encantar-se. Como não, se já de início ficamos sabendo que “de desejo somos”?

A vida, sem nome, sem memória, estava sozinha. Tinha mãos, mas não tinha em quem tocar. Tinha boca, mas não tinha com quem falar. A vida era uma, e sendo uma era nenhuma.

Então o desejo disparou sua flecha. E a flecha do desejo partiu a vida pela metade, e a vida tornou-se duas.

As duas metades se encontraram e riram. Ao se ver, riam; e ao se tocar, também.


As vozes de Galeano

Logo em seguida a pergunta “Adão e Eva eram negros?” faz a delícia de uns e o pavor de outros: Galeano nos lembra que viemos todos da África. A diferença é que, alguns, há muito tempo; tanto, que embranqueceram, desbotaram, descoloriram, viraram ‘caucasianos’ por causa de geografias e do climas – e sabe-se lá por que motivos passaram a se achar superiores. Talvez “porque o racismo produz amnésia”. E antes que deliciados e apavorados consigam recuperar-se, outra bomba: “somos todos africanos imigrados”. Então, a pele pode ter mudado, mas somos todos, todos iguais! Não é um espanto? Pobres arianos... E pobres (mesmo os nem tanto) xenófobos: eis, escoando-se pelo ralo, quaisquer razões genéticas para olharem de cima os que elegem seus países para tentar uma vida melhor. Culpa de quem? De Exu, talvez, o deus negro que é o próprio movimento, que nos permite erguer a mão e dar um passo e que permite ao planeta girar e, mundo, existir. O “bagunceiro universal”, cujas “diabruras apagam fronteiras e juntam o que os deuses haviam separado” e que “se diverte, armando misturas proibidas”. Talvez por isso o mundo, cada vez mais, é dos mestiços, miscigenados portadores da transformação.

Além das vozes negras e imigradas, ouve-se a voz feminina de Galeano emergindo de várias culturas. A voz não machista, a voz suave e fértil, revela aos incautos, por exemplo, que trocamos as fecundas deusas fêmeas pelos “deuses machos da guerra” – “E descobrimos as palavras seu e meu e a terra passou a ter dono e a mulher foi propriedade do homem e o pai, proprietários dos filhos”; que na divisão do trabalho quase todas as tarefas couberam às fêmeas para que os machos pudessem dedicar-se ao extermínio mútuo; que atrofiamos os pés das mulheres chinesas, apesar de ter sido uma delas que, baixando das alturas, inventou a bússola e a presenteou a um rei quase vencido, dando direção a tudo; que as romanas, por serem débeis mentais, eram submetidas a guardiões masculinos; que as hindus, ao enviuvarem, deviam por tradição atirarem-se às fogueiras em que ardiam os corpos mortos de seus maridos – embora não se soubesse jamais de um único marido que tenha mergulhado na pira da finada esposa; que por medo do prazer feminino, em mais de 30 países os clitóris ainda são cortados, a sangue frio, para que as mulheres sejam ‘purificadas’; mas que os egípcios eram estranhos aos olhos de Heródoto porque, entre outras coisas, suas mulheres, nobres ou plebéias, casavam-se livremente, sem terem de renunciar a seus nomes e bens.

Os servos e escravos – tão freqüentemente assim condicionados por força dos deuses ou de sua natureza –, também estão presentes, na história, na voz e nos espelhos de Galeano. Aliás, para ele, a insegurança cidadã vem dos escravos, funda-se na democracia grega, “que amava a liberdade, mas vivia de seus prisioneiros”, que consideravam seres inferiores. Deles, só se ocupavam para “disparar o alarme”:

Cuidado com eles, advertia Platão. Os escravos, dizia, tem uma inevitável tendência a odiar seus amos, e só uma constante vigilância poderá impedir que assassinem todos nós.

E Aristóteles assegurava que o treinamento militar dos cidadãos era imprescindível, por causa da insegurança reinante.”

Conta-nos Galeano que “também em Roma, os escravos foram o sol de cada dia e o pesadelo de cada noite. Os escravos davam vida e pânico ao império”.

Seria qualquer similaridade com realidades atuais – inclusive, e para nós principalmente, a brasileira, mera coincidência? Seriam os nossos trabalhadores de baixa renda, brancos ou cafusos, negros ou mulatos, descendentes dos escravos ‘libertados’ por Isabel (e deixados à margem da sociedade, entregues à sua própria sorte), como os escravos gregos e romanos? Os sentimentos dos que na Grécia

cavavam montanhas à procura de prata e de pedras,
erguiam casas,
teciam roupas, cosiam calçados,
cozinhavam,
lavavam,
varriam,
forjavam lanças e couraças, enxadas e martelos,
davam prazer nas festas e nos bordéis
e criavam os filhos de seus amos

seriam diferentes dos que aqui constroem belos prédios, mas não têm acesso a eles; plantam, mas pouco têm que comer; garimpam, mas nenhuma riqueza possuem; costuram feito loucos nas confecções, mas vestem-se de trapos; dos catadores de lixo, dos flanelinhas, dos carregadores de feiras, das diaristas, dos camelôs, dos biscateiros, prostitutas e garis? Seriam? Teria uma parte dessa população uma tendência a odiar a parte da sociedade que os mantêm à margem da vida? Não seria por isso que muita gente de bem gostaria de continuar armada? “Por causa da insegurança reinante”? Impossível ler sobre os gregos e romanos de Galeano e não nos vermos nesse espelho.

Civilização, comércio e guerras

“E nos cansamos de andar vagando pelos bosques e pela beira dos rios”, diz Galeano. Inventamos a vida em comum nas aldeias, as ferramentas, o trabalho. E como já foi dito, a maior parte das tarefas coube às fêmeas, para que os machos se dedicassem a exterminarem-se entre si. Às fêmeas, coube também a perda, a espera, a solidão. E talvez a invenção da arte como perenização do efêmero. Muito antes que fosse inventada a fotografia.

Em algum leito do golfo de Corinto, uma mulher contempla, à luz do fogo, o perfil de seu amante adormecido.
Na parede, reflete-se a sombra.
O amante, que jaz ao seu lado, irá embora. Ao amanhecer irá para a guerra, irá para a morte. E também a sombra, sua companheira de viagem, irá com ele e com ele
morrerá.
É noite ainda. A mulher recolhe um tição entre as brasas e desenha, na parede, o contorno da sombra.
Esses traços não irão embora.
Não a abraçarão, e ela sabe. Mas não irão embora
.

Antes das grandes guerras, porém, os homens se organizaram (e organizaram as mulheres). Em classes sociais, servos e senhores, dominantes e dominados. Segundo Galeano, fundaram a divisão do trabalho na Índia; a escrita e a taverna no Iraque (quando ainda não era Iraque e abrigava os sumérios); a imortalidade, a galinha e a pirâmide – inclusive a social – no Egito; e a arte da guerra na China.

Mas não foi da China e sim do Japão que Galeano trouxe toda a ironia da guerra, ao contar-nos a história do príncipe Yamato Takeru, que “começou sua carreira despedaçando seu irmão gêmeo, por ser impontual nos jantares da família”, e passou os anos seguintes aniquilando camponeses rebeldes e “outros pobres-diabos que ousavam desafiar a ordem imperial”, pacificando-os, “como se dizia na época, como se diz agora”.

A mais profunda indignação, todavia, ele guardou para o presente, ao denunciar que a cada minuto morrem 10 crianças no mundo, por fome ou doença curável, enquanto a cada minuto os Estados Unidos gastam meio milhão de dólares matando crianças e outros inocentes no Iraque... E sabemos que pelo petróleo, não pelas armas químicas – inexistentes – e nunca pela libertação daquele povo. Afinal, cara-pálida, quem ajudou a instaurar e manter nossas cruéis ditaduras sul-americanas?

Quanto ao comércio, diz Galeano que sua organização internacional – a OIC – foi fundada, quem diria, na Grécia, quando Zeus buscou em sua própria família alguém para ser o deus do comércio: o escolhido foi Hermes, que recebeu sandálias com asas de ouro e a incumbência de “promover o intercâmbio mercantil, a assinatura de tratados e a salvaguarda da liberdade do comércio”. Por uma questão talvez de política internacional, não deixa de dar também crédito aos romanos, para quem Hermes foi Mercúrio, escolhido por ser o melhor mentiroso... Isto nos lembra alguma coisa?

Muito mais

A história quase universal de Galeano nos conta muito, muito mais. Feudalismo, peste, tortura, santas – inclusive a brasileira Egipcíaca –, descobrimentos, inventos (ou fundações), colônias, revoluções, desastres naturais, nazismo, grandes nomes, muros e uma quase infinidade de assuntos. Já se viu, porém, que não se trata de narrativa linear, temporal, organizada nos moldes tradicionais. Passando longe dessa fórmula bem comportada, que nos deixa falsas impressões de evolução (no sentido de crescimento e aperfeiçoamento), ele vai e vem, do passado ao presente, ao antigo, ao médio, ao contemporâneo, diacronicossincronicamente. Instaura temas – mulheres, escravidão, racismo, guerras, relações internacionais, dominação, organização social, mitologias, crenças – dentro de temas; transgride, sacode, despe, desmistifica, ironiza, arranca máscaras; às vezes, condena, outras perdoa; sobretudo doa: sua capacidade de análise e síntese simultâneas, sua verdade, sua compaixão, sua doçura; e uma escritura que, se a soubermos decifrar e saborear, fará com que nunca mais sejamos os mesmos diante desses espelhos.

“Inventário geral do mundo”

Quando, chegadas as últimas páginas, se pensa que tudo foi dito, um inventário nos pega de surpresa, nos faz duvidar da ordem instituída e pensar que a loucura nada mais é que lucidez soterrada em nome da segurança. “Arthur Bispo do Rosário foi negro, pobre, marinheiro, lutador de boxe e artista por conta de Deus.” E o inventário do mundo, inconcluso, ele o fez de ferro-velho, lixo, porque

todo lixo era vida vivida, e do lixo vinha tudo o que no mundo era ou tinha sido. Nada de intacto merecia aparecer. O intacto tinha morrido sem nascer. A vida só latejava no que tinha cicatrizes.

É que

“aqueles que acreditaram que a contradição é o motor da vida humana não erraram. Somos uma contradição incessante. E isso ajuda você a sobreviver em um mundo difícil: a certeza de que não existe horror que não implique alguma maravilha. A certeza de que somos metade lixo e metade beleza. Então, o livro alimenta-se dessa contradição incessantemente. Não só do horror, mas também do amor.”

(Entrevista ao jornal mexicano La Jornada.)

Os espelhos

Os espelhos de Galeano são cristalinos e impiedosos: revelam mais do que rugas, cravos, manchas na pele; que gordura na cintura, celulites; que pernas tortas, pênis pequenos, calvícies prematuras; que. Pequenas visões que ferem apenas os muito vaidosos e os que acreditam que os valores estão na superfície dos corpos, nas imagens ideais e nas verdades inventadas. Neles, nossos ledos enganos, desprezíveis preconceitos, pobres empáfias, heranças culturais equivocadas, eivas nascidas do desconhecimento e loucas pretensões saltam aos nossos olhos e... nos dão uma oportunidade de nos tornarmos melhores. Porque em momento algum há agressividade nesses espelhos, apenas revelações. A luz que incide sobre eles não agride nossos olhos, apenas torna as coisas visíveis. Por causa da lucidez, não nos confunde, não nos desespera. Por causa da ironia e por causa do humor, que Galeano soube manter, o que poderia ser um doloroso dardo envenenado penetra nossa mente como fino espinho, irritante, talvez, mas nunca mortal. Por causa da serenidade, o que poderia nos ofender nos alerta e nos amansa, nos faz reconhecer quem somos, nos torna mais humildes. Como ele. E mais sábios. Nem tanto quanto ele, talvez.



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