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LITERATURA

O sonho (e o destino) dos heróis

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“O sonho dos heróis” não é apenas a história de um indivíduo em busca de seu destino, mas a de certa Argentina no final dos anos 20

Gregório Dantas - (19/12/2008)

Recentemente, durante a última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, o escritor argentino Martin Kohan fez uma interessante declaração a respeito da influência intimidadora de Borges na literatura argentina (a qual cito apenas de memória): “Não é um peso escrever à sombra de Borges, porque tudo o que escrevemos será anterior a ele”. Frase de efeito, mas com um fundo de verdade indiscutível: Borges é um daqueles escritores que ocupam um lugar singular nos campos de influência literária. Assim como Kafka, Borges cria seus precursores; e entre seus precursores, na visão de Kohan, estamos todos nós [1].

Adolfo Bioy Casares (1914-1999) certamente viveu a dificuldade de se escrever à sombra de um dos grandes nomes da literatura do século 20. Foram amigos e colaboradores constantes, de modo que é inevitável mencionar Borges quando descrevemos a carreira de Bioy. Mas ao contrário de muitos escritores de sua geração e das gerações posteriores, que de fato se acomodaram (e se acomodam) a um confortável lugar à sombra, Bioy Casares estabeleceu com Borges um diálogo único na literatura argentina e, talvez, mundial.

O fato é que a obra de Bioy, assim como a de Borges, ilumina não apenas muitas que lhe são posteriores, como também alguns de seus precursores. No posfácio à edição brasileira do romance O sonho dos heróis (Editora Cosac Naify, tradução de José Geraldo Couto), o escritor Rodrigo Fresán diz encontrar, nesse romance, “lampejos de idéias e temas e traços de escritores” que conheceu depois de ter lido Bioy Casares: Philip K. Dick, John Cheever, Francis Scott Fitzgerald, Henry James, Marcel Proust, entre outros. A tais nomes, retirados da experiência de leitura de Fresán (sujeita a suas próprias idiossincrasias), cada leitor poderia adicionar suas próprias lembranças e impressões. Dentre as minhas estariam, seguramente, As viagens de Gulliver e alguns contos de E. T. A. Hoffmann: porque as ilhas distantes, os cientistas loucos e os fantasmas nunca mais foram os mesmos depois da leitura de A invenção de Morel.

Rodrigo Fresán, no mesmo posfácio, declara que O sonho dos heróis (1954) é o maior romance argentino de todos os tempos. Talvez. Mas, seguramente, é um dos textos mais notáveis de Bioy Casares.

O romance conta a história de Emilio Gauna, um jovem mecânico que vence inesperadamente uma aposta e decide gastar seu prêmio durante o Carnaval de 1927. São três dias de excessos, ao lado dos amigos, dentre os quais se destaca a figura de um doutor Valerga, uma espécie de mestre intelectual do grupo. Gauna acorda, após o Carnaval, com a maior das ressacas, e sem se lembrar do que teria se passado nos dias anteriores. Descobrir o que teria acontecido na última noite do Carnaval de 27 torna-se uma obsessão.

Mas passam-se alguns anos. O relacionamento de Gauna com os amigos não é mais o mesmo. Quando se envolve com o estranho bruxo Taboada (e com sua filha, Clara), Gauna vê sua relação com Valerga estremecer. Poderíamos compreender o desafeto entre essas duas figuras como fruto da incontornável oposição entre o místico e o intelectual. Mas as coisas não são tão simples: ambivalentes, os personagens nunca se revelam plenamente; a índole e as convicções secretas de cada um estão ocultas do protagonista e do leitor.

Não convém descrever em detalhes o enredo do romance, já que parte de seu interesse reside no surpreendente e insólito desfecho, quando Gauna encontra, simultaneamente, seu passado e seu destino. Mas podemos adiantar que o tema do romance é, sem dúvida, bastante propício para o exercício do fantástico. O Carnaval, as máscaras, a embriaguês, as histórias da boemia, a sugerida magia do bruxo Taboada: ainda quando não é evidente (na verdade, o fantástico ocupa pouco espaço no romance), o sobrenatural é sugerido, e insinua-se discretamente nas fendas do cotidiano.

Nada disso é novidade para o leitor de Bioy Casares, cuja obra foi em grande parte dedicada à literatura fantástica. O autor de contos memoráveis como “Em memória de Paulina” e “O grande serafim” é também um dos responsáveis pela célebre Antología de la literatura fantástica, organizada ao lado de sua esposa, Silvina Ocampo, e seu amigo Jorge Luis Borges. No prefácio da antologia, Bioy faz uma breve mas interessante tipologia dos contos fantásticos, que pode nos ser útil no exame de suas próprias histórias. Para Bioy, não há uma receita para o fantástico; há, sim, muitos tipos diferentes de contos fantásticos, e o escritor que se aventurar nesta seara deve descobrir como conciliar as regras gerais da tradição com suas próprias regras, pessoais e especiais.i

Os contos fantásticos de Bioy Casares não são escritos ao modelo do conto de terror do século 19, embora se apropriem de muitos procedimentos e imagens dessa tradição, como os espelhos, os duplos, os fantasmas, e algumas metáforas tornadas literais. E a utilização que ele e Borges fazem de gêneros literários tradicionais, como os enredos policiais, já nos dá uma pista de como Bioy se interessava pela apropriação paródica de determinadas convenções narrativas. No caso do fantástico, um procedimento em particular chama a atenção: a narrativa de moldura, dentro da qual nascem outras histórias, umas dentro das outras. Através dessa ramificação de textos, enredos e narradores, Bioy credita o fantástico à própria natureza do literário.

Ponto luminoso

Não à toa, muitos de seus personagens são escritores, ou pessoas relacionadas à vida literária. Um tipo recorrente é aquele para quem literatura e vida se confundem, indissoluvelmente, e ao qual poderíamos chamar de “doente de literatura”, para usarmos a expressão cara a Enrique Vila-Matas. Assim, no conto “O perjúrio da neve”, lemos: “Justifiquei um ou outro de seus atos atribuindo-os a um desejo, talvez imoderado, de improvisar uma personalidade; quem sabe não teria sido mais justo imputá-los a motivos literários, pensar que ele tratava os episódios de sua vida como se fossem os episódios de um livro”. E, em “A serva alheia”, encontramos o seguinte personagem: “Urbino estava tão mergulhado na literatura que, para ele — e, por certo, imaginava que para todo mundo —, nada era mais real que um poema literário” [2].

Nada era mais real do que um poema, um sonho, ou até mesmo um holograma. É o que descobre o narrador de A invenção de Morel, que alcança um simulacro de vida eterna, perpetuando sua imagem ao lado da imagem da mulher amada. A vida é sonho, ou talvez pouco mais do que isso.

É assim também em O sonho dos heróis, em que a atmosfera onírica nasce principalmente das incertezas da memória:

Vejo como num sonho. Antunes ou algum outro afirmou que eu tinha ganhado nas corridas mais do que disse ter ganhado. Nesse ponto, tudo se torna confuso e disparatado, como nos sonhos. Devo ter cometido algum erro terrível. Segundo minhas lembranças, o doutor ficou do lado de Antunes e acabamos lutando com facas à luz da lua.

Mas o sonho e o clima onírico nascem também na sobreposição de diálogos — um dos recursos narrativos utilizados com mais habilidade pelo escritor — e de histórias contadas ou apenas sugeridas pelos muitos personagens do romance. Isso porque O sonho dos heróis não é apenas a história de um indivíduo em busca de seu destino, mas a de certa Argentina no final dos anos 20. Mas nada que se aproxime de um romance histórico: a reconstituição histórica é composta mais por diálogos e falares típicos do que por descrições de época, propriamente (a propósito, a edição brasileira traz criteriosas e úteis notas de tradução). Em uma entrevista parcialmente reproduzida no posfácio de Rodrigo Frésan, Bioy Casares explica seu processo de composição:

Reconstruí a época de O sonho dos heróis com lembranças minhas, sem temor de cometer anacronismos, dizendo-me que o futuro iria ser tão extenso que os relevaria como detalhes sem importância. Entre outras, são lembranças de relatos que se contavam num bar onde se reuniam motoristas de táxi, ao qual me levava Joaquín, o chofer de casa. Ficava na rua Montevideo, esquina com a Guido. Se eu julgasse que minha memória é totalmente exata, diria que ali só se contavam histórias de tresnoitadores afortunados, que depois de farras em algum cabaré saíam num táxi aberto, a dar grandes passeios pelos bosques de Palermo, o que me parecia um símbolo da vida extravagante [3].

Os casos desses personagens apresentam-se através de diálogos coloquiais, repletos de expressões dialetais, que nos fazem lembrar que estamos em um ambiente real, historicamente reconhecível, e não em uma das ilhas ficcionais e quase atemporais criadas pelo autor. Como nestes lugares mágicos, porém, há leis de verossimilhança que escapam aos olhares mais ingênuos.

Afinal, para Bioy Casares (assim como para Borges) toda literatura que se pretende realista não consegue mais do que falsear a realidade (ela própria inegavelmente fantástica), de modo que o ato de contar histórias tende a revelar dimensões e eventos insólitos que fazem parte do cotidiano.

E assim como as melhores narrativas de Borges, O sonho dos heróis é um ponto luminoso na história literária argentina. Depois de sua leitura, os bailes de carnaval e os duelos de faca ao luar jamais serão os mesmos.



[1] Em “Kafka e seus precursores”, Borges afirma que “cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, assim como há de modificar o futuro” (In: Outras inquisições. Trad. Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2008)

[2] BORGES, Jorge Luis; CASARES, Adolfo Bioy; OCAMPO, Silvina. Antologia de la literatura fantástica. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1998.

[3] Entrevista concedida a Marcelo Pinchon Rivière (In: La invención y la trama. Fondo de Cultura Econômica, México, 1988). Trecho disponível do site da Cosac Naify.

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