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A vitória histórica de Barack Obama traz em seu interior as sementes para um realinhamento básico da política americana. Ela é também produto de uma tendência de longo prazo favorável à emergência de uma maioria democrata que poderá dominar a cena dos Estados Unidos pelo próximo quarto de século

Jerome Karabel - (05/12/2008)

Nos últimos cem anos, houve apenas duas eleições presidenciais que mudaram fundamentalmente o rumo da política nos Estados Unidos: a vitória de Franklin Roosevelt em 1932, que anunciava uma era de hegemonia democrata, e o triunfo de Ronald Reagan em 1980, que marcou o começo de 28 anos de domínio republicano. Ainda que seja muito cedo para ter certeza, a vitória de Barack Obama poderá muito bem representar a terceira dessas eleições de realinhamento político, vista futuramente pelos historiadores como o surgimento de uma nova era democrata.

Certamente a vitória de Barack Obama por seis pontos por pouco não foi esmagadora. Mas vitórias esmagadoras não necessariamente indicam uma eleição de “realinhamento” – aquelas que mudam os contornos da política americana, dando a um partido vantagem em longo prazo. Prova disso é Lyndon Johnson, que em 1964 ganhou por 23 pontos de Barry Goldwater, e Richard Nixon em 1972, que bateu McGovern pela mesma margem; ambos os triunfos foram seguidos, apenas quatro anos depois, por eleições em que o partido de oposição chegou à Casa Branca.

Por outro lado, uma eleição que não seja por vitória esmagadora pode, no entanto, representar um realinhamento. O exemplo clássico é a vitória de Ronald Reagan por nove pontos em 1980, que reconfigurou a política americana ao definir o governo como “o problema, não a solução”.

Durante o quarto de século que se seguiu, as idéias de livre mercado dominaram a política, e os embates pela presidência foram amplamente travados em campo republicano. Contudo, não era evidente que a eleição de 1980 marcaria um realinhamento, até que se passassem quatro anos, quando Ronald Reagan venceu Walter Mondale por mais de 18 pontos.

Tendência de longo prazo

Para que 2008 seja visto como um realinhamento, dependerá muito do que vai acontecer nos próximos quatro anos.

Embora a vitória histórica de Barack Obama por pouco não seja esmagadora, ela traz em seu interior as sementes para um realinhamento básico da política americana. Ela é também produto de uma tendência de longo prazo favorável à emergência de uma maioria democrata que poderá dominar a política americana pelo próximo quarto de século.

Neste momento, seis tendências são particularmente relevantes:

1) Os jovens se juntaram a Obama em um número sem precedentes: dos eleitores com idade entre 18 e 29 anos, 66% preferiram ele a McCain (com 32% dos votos). Isso possui um significado enorme, porque historicamente os realinhamentos começaram com os jovens, que freqüentemente desenvolvem inclinações partidárias aos 20 anos, com as quais permanecem para o resto da vida. Assim como foi fundamental a lealdade democrata da geração que chegou a essa idade sob o governo de Franklin Roosevelt, durante a hegemonia política do Partido Democrata em meados dos anos 1960, também foi crucial a inclinação da geração Reagan para o domínio republicano no último quarto de século.

2) A população hispânica em rápida expansão está se voltando de maneira decisiva para o Partido Democrata. Obama venceu entre os hispânicos por 66% a 32%, um aumento importante em relação aos 58% a 43% de Kerry. Por causa da revolta dos hispânicos sobre como os republicanos têm lidado com o delicado tema da imigração, essa mudança não parece ser um fato isolado. A lealdade dos hispânicos é provavelmente o campo de batalha político decisivo no futuro. Com 12,5% da população em 2000, espera-se que os hispânicos contem cerca de 20% de todos os americanos em 2020, e mais de 30% em 2050. Especialmente desastrosa para o futuro dos republicanos foi a votação entre os jovens hispânicos, que preferiram Obama por uma margem atordoante de 76% a 19%.

3) Obama rompeu definitivamente com um antigo padrão de dependência democrata em relação aos estados com proporção de votos eleitorais decadente. Por causa das projeções de crescimento demográfico relativamente baixo, redutos democratas como Nova York, Pensilvânia, Illinois, Michigan e Massachusetts provavelmente perderão votos em 2012. Se não houvesse qualquer movimento nos estados republicanos, que crescem rapidamente, esse declínio teria com o tempo exaurido as forças do Partido Democrata. Mas Obama despedaçou a tradicional divisão entre estados azuis (democratas) e estados vermelhos (republicanos), ganhando em regiões como Flórida, Virgínia, Colorado e Nevada e concorrendo de maneira extremamente competitiva em várias outras. De maior interesse em longo prazo é o fato de os democratas terem demonstrado que podem competir em todas as regiões do país, incluindo as partes em rápido crescimento do sul e do oeste montanhoso. A mesma coisa não pode ser dita dos republicanos na maioria da Nova Inglaterra, nos estados do Atlântico Central e no Pacífico Oeste.

4) O que os demógrafos chamam eufemisticamente de “substituição geracional” vai consumir gradualmente a base republicana. A maior força de McCain estava com aqueles acima de 65 anos, entre os quais ele bateu Obama por 53% a 45%. Com o passar do tempo, entretanto, as fileiras desse grupo irão diminuir. E a geração seguinte, com pessoas entre 45 e 64 anos, é oriunda do Baby Boom. Apesar dos efeitos conservadores da idade, esse não é um grupo com o qual os republicanos podem contar.

5) Obama se saiu bem entre os eleitores oscilantes, de quem os democratas precisam para construir uma coalizão majoritária, ganhando 52% dos “independentes” (que agora compreendem 29% do eleitorado) e 60% dos moderados. Isso torna a comparação favorável em relação ao desempenho de Reagan em 1980, que ganhou 55% dos independentes mas apenas 49% dos moderados. Se esses ganhos entre independentes e moderados puderem ser sustentados em 2012 e além, a maioria democrata ganhará bases sólidas.

6) Os republicanos vêm perdendo há algum tempo o apoio dos universitários. Essa tendência se acelerou em 2008, com Obama ganhando 53% dos votos entre os graduados. Ainda há pouco, em 1988, os republicanos levavam uma vantagem de 13% (56-43) – um padrão que fazia sentido, dado que os republicanos tradicionalmente gozavam de maior apoio entre os eleitores das classes média e média-alta. Mas esse padrão tem mudado e atingiu um ponto decisivo este ano. Como os graduados não votaram conforme sua proporção na população em números e agora constituem 45% de todos os votantes, esse é um grupo que os republicanos simplesmente não podem perder.

Juntas, essas seis tendências sugerem que a coalizão majoritária que os democratas consolidaram em 2008 provavelmente se reforçará nos anos futuros.

Verdade seja dita: alguns dos fatores que contribuíram para a vitória de Obama – a extraordinária impopularidade da administração Bush, o ritmo e a dimensão gigantesca do desmanche de Wall Street e o notável carisma pessoal de Obama – não serão transferíveis a outros candidatos democratas.

As raízes da ascensão democrata, entretanto, se estendem para além das tendências demográficas de longo prazo. Elas também se beneficiam da crise ideológica que o Partido Republicano agora enfrenta, que elevou seu instinto antigoverno ao status de princípio fundamental. Eventos recentes não admitem mais essa visão de mundo. Começando pelo furacão Katrina, passando pela débâcle de Wall Street, a necessidade de um governo efetivo como agente do bem comum – o princípio nuclear das políticas progressistas por mais de um século – tem se tornado por demais óbvia.

Não se sabe se Obama e os democratas aproveitarão essa oportunidade única para escrever um novo capítulo na história do progressismo americano, mas a oportunidade está aí para ser aproveitada. Se o fizerem, 2008 poderá muito bem ser visto como outro 1980 – ano no qual uma vitória impressionante, bem próxima de ser esmagadora, marcou o começo de um realinhamento fundamental da política americana.




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