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My Magic

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A imagem do sacrifício. Cada personagem é destinado a carregar em si o símbolo de uma lição inteira. My Magic separa os maus dos bons. O protagonista não consegue se livrar do alcoolismo porque ama muito a ex-esposa. Sua tristeza comprova seu amor e o torna ainda mais digno

Bruno Carmelo - (07/01/2009)

Uma ausência constitui o centro dessa história: sem a mãe/esposa, a pequena família composta de pai e filho se deteriora. O pai, Francis, alcoólatra e melancólico, alterna seu tempo entre os bares e as ligações telefônicas aos prantos: “volta, amor, ele precisa de você...”. “Ele”, o filho, questiona um deus extra-quadro sobre sua responsabilidade nesse abandono.

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"Uma cidade fantasma em que as ruas e bares estão sempre tristemente vazios, este corpo super poderoso constitui uma força real, uma prova concreta e sólida da existência física de um homem"

My Magic é um filme pequeno em diversos aspectos: curta duração (75 minutos), poucos recursos, poucos personagens, pouca ação e narrativa que se desenvolve com a simplicidade de um provérbio. Entre a desesperança do pai e do filho, desenha-se, com certa força, as “magias” sugeridas no título. No caso, Francis diverte os poucos amigos ao redor com demonstrações em que ele mastiga copos de vidro, perfura o próprio corpo com pequenas lanças e suporta dardos lançados contra seu peito.

Numa cidade fantasma em que as ruas e bares estão sempre tristemente vazios, este corpo super poderoso constitui uma força real, uma prova concreta e sólida da existência física de um homem, cuja essência parece estar ausente. Mesmo o filho, lúcido do alcoolismo do pai, consegue seu dinheiro sozinho, ao fazer a lição de casa dos colegas (numa escola também fantasmática, de espaços curiosamente vazios, sinal da mise en scène voluntariamente teatral e inverossímil).

Portanto, sem dinheiro e ciente de sua capacidade de impressionar, Francis passa a se apresentar como “homem fantástico”, caminhando sobre vidro, dobrando espadas. Ele é devidamente observado pelo grande chefão do bar, um tipo caricatural (colares de ouro, charuto na mão e mulher bonita à tiracolo) que domina o bar e, nessa geografia restritiva, representa o poder do mundo inteiro.

Se a cidade e a sociedade são alegorias representativas, o sangue e o corpo são bem reais

Como ele, cada personagem é destinado a carregar em si o símbolo de uma lição inteira. Em caráter de parábola, My Magic separa os maus (todos aqueles que detém o poder, dos chefes aos garotos mais fortes na escola) dos bons (o garoto estudioso, Francis e uma prostituta, esses dois vistos como vítimas de más escolhas). Nosso protagonista, se não consegue se livrar do alcoolismo, é porque ainda ama muito a ex-esposa, de modo que sua tristeza comprova seu amor e o torna ainda mais digno.

O diretor Eric Khoo observa todos seus personagens com uma piedade constante e caridosa, sempre adornada de trilha sonora incrivelmente lacrimosa e cenas de forte conotação sentimental (o garoto que, não suportando a embriaguez do pai, vai dormir sob o metal frio da caixa de correio). Eles são bons, mas erram. Nesse sentido, o filme possui mesmo um caráter religioso e moralizante.

A trajetória de nosso herói bíblico se constrói em seu próprio corpo que, para agradar os clientes, aceita experiências cada vez mais extremas e degradantes (o roteiro insiste no fato de que ele não se submete às mutilações corporais por ganância, mas unicamente para ajudar o filho a “não ser como ele”). Ele volta para casa com a cortes pelo corpo, e desde a primeira cena em que ele engole pedaços de vidro, a câmera se concentra no dia seguinte, no banheiro da casa e na imagem do sangue abundante sobre o papel higiênico.

Se a cidade e a sociedade são alegorias representativas, o sangue e o corpo são bem reais. Francis passa a se sacrificar (e, por definição, só se pode sacrificar aquele/aquilo que é bom) afim de se redimir diante do filho, da imagem da esposa, e dos olhares alheios. O sacrifício enquanto purificação, enquanto caminho válido para as almas errantes: eis a defesa que abraça nesta história. E se pode parecer anacrônico citar a Bíblia a propósito de um filme oriental, pode-se argumentar no entanto, que os valores de sacrifício são igualmente preciosos às sensibilidades do oriente, ainda mais propícias às questões de honra que as nossas.

Khoo leva este ensinamento às últimas consequências, tanto narrativas (a redenção conclui-se com a reunião simbólica da família) quanto estéticas (a presença de fantasmas e de baús que contêm toda a memória afetiva do filme) e, porque não dizer, ideológicas (a saída da escuridão para a iluminação de uma casa vazia, os dizeres de “o mundo é cruel” como palavras definitivas destinadas ao amadurecimento do filho).

Muitos se encantaram ao saber que não há trucagem nas ações de Francis. O homem, faquir profissional, de fato engole vidros e perfura o corpo diante das câmeras

Após ter sido selecionado para a competição oficial de Cannes, My Magic recebeu boa distribuição em Paris e goza de ótimas críticas, geralmente apoiadas em um linguajar pertinentemente espiritual e místico: “um poder incrível e transformador” (Chronic’Art), “violento como o amor e emocionante como a vida” (Le Journal du Dimanche), “Khoo filma a progressão de uma usina de sonhos” (Cahiers du Cinéma).

Ironicamente, são estes mesmos veículos que depredam com tanto furor todos os filmes do dinamarquês Lars Von Trier, pelo exato motivo de apoiar sua narrativa no sacrifício purificador de suas heroínas (Grace em Dogville, Selma em Dançando no Escuro, Karen em Os Idiotas, Bess em Ondas do Destino). Embora muito menos pretensioso e estetizante, Khoo opera sob uma moral semelhante. Mas onde ali foi enxergada manipulação e moralismo, aqui é vista “a verdade absoluta dos personagens” (L’Humanité). Por alguma operação misteriosa, transgrediu-se a linha do violento para o singelo. E My Magic se tornou, por fim, uma bela história de amor.

Muitos se encantaram ao saber que não há trucagem nas ações de Francis. O homem, faquir profissional, de fato engole vidros e perfura o corpo diante das câmeras. Existe um fetichismo do real que opera no acréscimo do martírio do personagem pelo martírio do ator, como se fosse ainda mais nobre se sacrificar pelo realismo, pelo público e pelo cinema. Deveria a crítica se deixar influenciar por este fator extra-filme? Deveria o real influenciar a impressão de realidade? Seria My Magic, por esse fator, mais verdadeiro?

My Magic (2008)
Filme chinês dirigido por Eric Khoo.
Com Francis Bosco, Jathishweran Naidu, Grace Kalaiselvi.

Confira as fotos do filme:

Fotos

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

A força e o peso do que não está
Em Lake Tahoe, Fernando Eimbcke encara um novo desafio: retratar a dor sem jamais mencioná-la diretamente, ou colocar em foco suas causas. O resultado é um filme inovador porém não-formalista, uma obra metafórica e provocadora sobre os sentidos da ausência

Imitar a "realidade" — e questionar seu valor...
Em Waltz With Bashir, Ari Folman usa animação para narrar episódio da história de Israel. Mas não retrata fatos, e sim memórias e sonhos — até o surpreendente final. Artifício traz à tona questões instigantes. Há documentário "objetivo"? Pode-se enxergar o mundo sem as lentes do que somos?

Adoção, comércio e poesia
Ao retratar o assalariamento de famílias adotivas, Foster Child expõe abismo social e alienação nas Filipinas. Mas o faz sem esquecer os laços de ternura que unem os pais de aluguel a seus filhos temporários, num sinal de que pode persistir humanidade, em meio ao que é precário ao extremo

Realidade, mentira ou Jogo de Cena?
Nova obra de Eduardo Coutinho é um "filme-tese" complexo e surpreendente. Ao embaralhar verdade e ficção, em depoimentos de mulheres que falam de parto e morte, diretor parece interessado em questionar as barreiras entre a representação do real e a do imaginário

Em O ano 01, a força de 1968
Produzido no início dos anos 70, com múltiplas referências à estética HQ, filme de Jacques Doillon imagina uma greve geral contra o capitalismo. Contra-sistema, contracultura, contra-cinema. Deliciosa, absurda e irreverente anarquia, indispensável quando o sistema se pretende avassalador

Zona do Crime, alienação e fascismo social
Três garotos favelados aproveitam-se de uma pane elétrica para vencer os muros de um condomínio de luxo. Em seu filme de estréia, o mexicano Rodrigo Plá vê a caçada movida contra eles como metáfora de uma sociedade que pratica a brutalidade permanentemente, quase sem enxergar que o faz

Os estupradores castos
Deliver Us From Evil, da norte-americana Amy Berg, examina de modo impiedoso e indigesto a pedofilia na Igreja Católica — e sua inacreditável impunidade. Uma das provocações: numa religião em que o sexo é pecado, molestar uma criança não seria equivalente a transar com uma pessoa qualquer?

Banheiro do Papa: engajamento agridoce
Comédia popular de beleza plástica e certos efeitos (como montagens aceleradas e enquadramentos acrobáticos), o filme de Fernandez e Charlone celebra a inventividade, o jeitinho brasileiro-latino, a recusa à melancolia. Falta-lhe a crítica política — aparentemente, sua intenção inicial

Mein Führer, ousadia e frustração
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Seis diretores aceitam desafio de organização portuguesa e produzem obra coletiva sobre o tempo em que vivemos. Contribuições enxergam crise e necessidade de mudanças, mas o fazem por meio de poesia e metáforas — exceto no caso do curta brasileiro de Vicente Ferraz...

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A morte é para toda a vida
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Alexandra, o elemento perturbador
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XXY aborda um tabu
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Suspiria, arte e sentidos
Avesso às fórmulas e clichês dos filmes de terror, o italiano Dario Argento produz obras marcadas por cenários, tons e música incomuns; tempo e espaço não-lineares; debates psicanalíticos. Texto inaugura nova coluna do Diplô, agora sobre cinema e diversidade



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