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LITERATURA

A saga do “casteller”

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Em “La bodega”, Noah Gordon constrói um panorama detalhado da cultura catalã

Dida Bessana - (09/01/2009)

No site da editora catalã Roca, em carta virtual de “próprio punho”, Noah Gordon convida os espanhóis a lerem seu mais recente, e último, romance, afirmando que se trata de sua “carta de amor ao país”, por cujo povo, cultura e vinhedos passou a ter profundo carinho. Esse apreço pode ser constatado também pelos leitores brasileiros, com o lançamento de La bodega, Editora Rocco, em tradução de Pinheiro de Lemos.

Octogenário, Noah Gordon já admitiu [1] que, de agora em diante, só se dedicará a narrativas curtas, uma vez que a idade não lhe permite mais acalentar projetos a longo prazo, “embora idéias não me faltem”, afirmou à revista Vanity Fair. Depois de O último judeu, protagonizado por Yohah Toledano – sefardita expulso da Espanha pelos reis católicos –, Gordon iniciou a redação de La bodega, o que lhe exigiu nove anos de trabalho. A razão está no fato de todos os seus livros sempre terem como principal atrativo a minuciosa pesquisa para compor, com o maior rigor possível, o universo retratado – cenários, circunstâncias e personagens. Em La bodega ele não fugiu à própria “receita”, recorrendo a exaustiva documentação. Seduzido pelo universo do vinho durante uma viagem que fez pelo interior da Espanha em 1990, situa a narrativa na Catalunha do fim do século 21, um período rico e conturbado.

Para Josep Álvarez, o protagonista, trata-se de época de definições. Irmão mais novo, ele sempre soube que das exíguas terras da família não lhe caberia nenhuma parcela. Seus antepasados eram servos, depois se tornaram empregados nas plantações da Galícia empobrecida. Em 1766 o rei Carlos III percebeu que grande parte da região estava sem cultivo e os lavradores concentravam-se nas aldeias sem trabalho, o que gerava descontentamentos politicamente perigosos. Propôs, então, uma reforma agrária, conduzida pelo conde Pedro Aranda (parcelando e distribuindo terras sem cultivo mais aquelas que a Coroa adquiriu da Igreja Católica), ocasião em que o avô de Josep Álvarez recebeu uma gleba. Mas a tradição reza que o filho mais velho herda dois terços da propriedade e os demais dividem o terço restante. Portanto, a ele nada resta senão tornar-se empregado, talvez do próprio irmão.

Sem perspectiva, uma carreira militar surge como alternativa. Depois de meses de treinamento com outros jovens da mesma aldeia no “clube do bosque”, a fim de tornar-se membro de uma suposta milícia que poderia vir a ser o exército nacional (pois as forças reais neste momento estão envolvidas com o levante na colônia caribenha de Cuba), Josep se vê envolvido no assassinato do general e primeiro-ministro Juan Prim, um dos responsáveis pela queda da rainha Isabela, pela restauração da monarquia e pela eleição de um monarca da realeza italiana para o trono espanhol. Caçado pelas autoridades, que já prenderam alguns de seus amigos, consegue cruzar a fronteira e encontrar abrigo na região do Languedoc, onde passará alguns anos trabalhando e aprendendo a cultivar os vinhedos que resultam no famoso vinho do sul da França.

Surpresas pelo caminho

Entretanto, a morte precoce do pai atrai o rapaz novamente a sua aldeia, Santa Eulália, onde ele sabe que um futuro incerto o aguarda. Mas, para sua surpresa, seu irmão, seduzido pela nascente indústria têxtil que se instalava na região, e arregimentava boa parte da mão-de-obra proveniente dos campos, vende-lhe as terras e muda-se com a esposa para a cidade, onde mais tarde irá sofrer as conseqüências das desumanas condições de trabalho dos primórdios da Revolução Industrial. Dedicando-se ao cultivo de uvas de baixa qualidade que permitem apenas a produção de vinagre, Josep acalenta o sonho de produzir um bom vinho, o que lhe exigirá horas extras de trabalho diário.

Videiras que produzam efetivamente tipos de boa qualidade para a obtenção de um vinho delicado e encorpado, como ele tratava na França, requerem não só cuidado constante, mas também a construção de tonéis e de uma bodega para armazená-lo. E é nessa bodega, no início apenas um buraco no fundo da propriedade que ele dia-a-dia cava após a estafante jornada, que estão guardados seus segredos. Em parceria com uma vizinha, mãe solteira de um rapazote deficiente e os conselhos de um dos mais antigos moradores de Santa Eulália, Josep Álvarez aos poucos adquire novas terras, emprega seu irmão, agora quase surdo por causa do barulho ensurdecedor dos teares da fábrica, e aos poucos conquista compradores em cidades nos arredores de sua aldeia.

Na prática, porém, toda essa trajetória de Josep, com surpresas pelo caminho, serve para Noah Gordon reconstituir um panorama detalhado da cultura catalã. Não escapam a seu olhar as condições de vida e trabalho das mulheres, o peso dos preceitos e dogmas da Igreja Católica no cotidiano dos camponeses e alguns costumes. Não à toa Josep é um casteller. O castelo humano, manifestação própria da Catalunha, surgiu no fim do século XVII em Valls, província autônoma de Tarragona, e se constitui em erigir construções humanas, cujo número de componentes varia segundo a habilidade e a força daqueles que o compõem, pois erguê-lo requer uma técnica específica.



[1] Diário Digital (Portugal) 21/8/2008

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