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LITERATURA

“Cidadezinha inglesa no domingo”, de Max Jacob

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Nascido em 1876, Max Jacob participou das vanguardas poéticas e artísticas européias, ao lado de Jean Cocteau, Georges Braque e Pablo Picasso

Pablo Simpson - (16/01/2009)

Max Jacob foi um dos poetas mais importantes da boemia parisiense de Montmartre no início do século 20. Nascido em 1876, participou das vanguardas poéticas e artísticas européias, ao lado de Jean Cocteau, Georges Braque e Pablo Picasso, com quem dividiu um quarto, e no qual teria se inspirado para a criação de seus poemas “cubistas” de Le Cornet à dés, publicado em 1917. Neles explorou um universo repleto de anedotas, debates artísticos, relatos inusitados, um deles começando com “era uma vez um arquiteto ou um cavalo: era mais um cavalo que um arquiteto”; outros em que uma melancolia dos “amigos traidores” se diria na forma do poema em prosa, que gostava de afirmar ter inventado. Textos que faziam apelo ao inconsciente, muito embora não tenha sido reconhecido como precursor pelo surrealismo. Ou de uma ingenuidade misturada com um profundo sentido construtivo, assim observaria o seu crítico Jean Rousselot.

O poema abaixo, publicado n’O Laboratório Central (1921), é o retrato de uma cidadezinha de interior no domingo. Com tudo o que existe de pitoresco: senhores viúvos, crianças brincando, tambores, insetos. O poeta os observa deitado na grama, num encadeamento de imagens, muitas delas aparentemente motivadas apenas pelas rimas internas e externas, multiplicadas, incessantes. Difíceis de reproduzir na tradução. O poema brinca descontraído nesse livro que Max Jacob confessaria a Marcel Béalu ter escrito justamente “para se distrair”, mas se constrói, igualmente, com imagens arrojadas de um olhar que se desdobra para todos os lados. Cria-se uma lógica estranha, espécie de fantasia onírica em versos que, por vezes, nos lembram a poesia de Mário de Andrade. No fim do poema, ainda assim, uma intervenção religiosa surpreende. Convertido ao catolicismo após presenciar uma aparição do Cristo na parede de seu quarto, Jacob espalharia por sua poesia os signos de sua adesão religiosa. Tensão entre ironia e confissão cristã – o eu do poema afirma ter rezado três horas numa igreja – a que se convida, com este curioso poema, o leitor desconfiado.

“Petite ville anglaise le dimanche”

à Georges Gabory.

Sur l’antique fronton d’un antique bazar
On s’avise d’un nom Company Balthasar.
Sur la glace des rues glissent des messieurs veufs,
Les trottoirs rasés de la veille sont neufs.
On regrette que les enfants ne soient pas blonds le dimanche
On les trempe dans la farine par la jambe ou par la manche,
On en blesse certains dans la chevelure
On y mêle des doigts de pied
Jusque dans la figure
Les mères sont pareilles à des tulipiers
Et leurs demoiselles pareilles à des tulipes.
Les vaisseaux pavoisés battent de l’aile au port
Je n’ai plus de passion si ce n’est pour la pipe
(Ce n’est pas vrai!)
Auberge de ce jour où l’eau même s’endort
Ton spleen hyperbolique
Me rendrait alcoolique.
Nul marin sur les mâts dont les croix sont des tiges
Aux dames escogriffes ne donne le vertige.
Moi d’abord: triste échalas
Qui fais étalage de cet état-là,
Le ciel en cône, bocal, prison des anges!
O mes rêves! glissez au sommet des fleurettes.
Châteaux décrits, écrits, arcs en ciel d’insectes,
De ma tête dans l’herbe le regard oblique vous guette!
Lambris, nombrils, verdure
Où la terre met le nez dans sa fourrure
Teints du sang du soleil c’est celui de mon cœur.
Le frêle florentin de la carte postale
Porte au cœur un tambour qui bat la générale
Mais moi le receveur des impôts indirects
J’ai la tête un dimanche au niveau des insectes
Le soleil incendie ma nappe de chemise
Ce matin j’ai prié trois heures à l’église
Est-ce que je dors ou si je veille
Il y a un violon quelque part
Trois arbres qui voudraient danser, la mer approche son oreille
Moi j’ai le ciel bleu pour miroir.
C’est la cour de Marie qui le tient à deux mains
Des prophètes, des rois, des saints clairs et des anges
La méridienne, Greenwich et sous ton méridien
Donnez-nous aujourd’hui notre pain quotidien.

***

“Cidadezinha inglesa no domingo”

a Georges Gabory.

Num antigo letreiro de um antigo bazar
Avistamos o nome Company Balthasar.
No gelo das ruas deslizam senhores viúvos,
As calçadas arrasadas da véspera estão novas.
Lamentamos que as crianças não sejam mais loiras no domingo
Mergulhamo-nas na farinha pela manga ou no gambito,
Nos cabelos, ferimos algumas
Passando os dedos do pé
Até a figura
As mães parecem com tulipeiros
E as senhoritas parecem com tulipas.
Os barcos embandeirados penam no porto
Não tenho outra paixão senão por meu cachimbo
(Não é verdade!)
Albergue desse dia em que mesmo a água dorme
Teu spleen hiperbólico
Me tornaria alcoólico.
Nenhum marinheiro nos mastros cujas cruzes são caules
Não dá vertigem a senhoras esticadas.
Eu primeiro: triste estaca
Que neste estado se ostenta,
O céu em cone, bocal, prisão dos anjos!
Ó meus sonhos! deslizem na ponta das florinhas.
Castelos descritos, escritos, arco-íris de insetos,
De minha cabeça na grama o oblíquo olhar te espia!
Verdura, umbigos, lambris,
Onde a terra em sua pelugem põe o nariz
Tintos do sangue do sol é aquele de meu peito.
O frágil florentino do cartão postal
Traz ao peito um tambor que bate a generala
Mas eu, cobrador de impostos indiretos
Tenho a cabeça um domingo na altura dos insetos
Um sol incendeia minha napa de camisa
Essa manhã rezei três horas numa missa
Será que estou dormindo ou se desperto
Há um violão por perto
Três árvores queriam dançar, o mar achega a orelha
Pra mim, o céu azul é meu espelho.
É o pátio de Maria que a duas mãos o tem
Dos profetas, dos santos claros, dos anjos, dos reis,
À meridiana, Greenwich e sob o teu meridiano
Dai-nos hoje o nosso pão cotidiano.



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