Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» A Renda Cidadã e a reinvenção do dinheiro

» Coronavírus: já tínhamos sido avisados

» Ou desaceleramos ou morremos todos

» Pandemia desnuda a Saúde falida nos EUA

» Assim Guimarães Rosa viu nossas águas e gente

» Sopram novos ventos de revolta contra o Uber

» Uma fratura na ordem ultraliberal

» Filmes para enfrentar a melancolia da quarentena

» Como nos salvaremos do terraplanismo sanitário?

» Alternativas para uma economia pós-coronavírus

Rede Social


Edição francesa


» Des services publics garants de l'intérêt général

» La citoyenneté au bord du gouffre

» À nos lecteurs

» Voyage en terres d'utopie

» Revenu minimum ou « deuxième chèque » ?

» Sur les voies du partage

» La télévision, les films et la conjoncture

» Mutation technologique, stagnation de la pensée

» De l'irresponsabilité mortelle à la vraie maitrise de la vie

» Méfiances des syndicats européens


Edição em inglês


» Iran in the time of corona

» Covid-19: a London diary

» When viruses become pandemics

» Bringing the state back in during Covid-19

» ‘LMD' on your tablet

» February 2020

» March 2020

» Lessons for the UK deployment to Mali

» Find LMD

» March: the longer view


Edição portuguesa


» Edição de Março de 2020

» Um Brexit para nada?

» A precariedade não é só dos precários

» Edição de Fevereiro de 2020

» O que Donald Trump permite…

» As marcas do frio

» Edição de Janeiro de 2020

» Embaraços externos

» De Santiago a Paris, os povos na rua

» Que prioridades para uma governação mais à esquerda?


LITERATURA

Mas Alice

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

Ele, minha Alice, minha primeira Barbie, me olhou como quem faz um favor. Em seguida, arrastou as plataformas até o banheiro e sacou o batom da bolsa

Neuza Paranhos - (16/01/2009)

Uma pessoa pode molhar o beijo em batom e queimar as lentes de contato azuis numa redoma de kohl. Essa mesma pessoa pode ser estonteantemente sexy, viver alheia numa nuvem de patchouli e se chamar Alice. E você pode passar as noites de sábado montando a criatura como se ela fosse a Barbie. E era isso mesmo que eu fazia com Alice Cooper, meu namorado. Todos os brilhos e cintilâncias que eu repudiava, essas coisas que não cabiam na minha vida ascética de estudante de sociologia, eu deixava pra Alice.

O único problema, ao menos no começo, foi onde. Na moradia estudantil era impossível. Recitávamos O Capital em leituras coletivas e eu disfarçava Reich em papel pardo. Então me movimentava numa vida dupla bandeirosa, fazendo o possível pra não esfregar na cara dos companheiros que eu tinha desbundado, era outra e meu entendimento do mundo ia além do que a gente aprendia nos livros e na sala de aula.

Eu dividia Marx e Reich com uma boneca enorme, linda, de cabelos mais macios que um comercial burro de xampu. Eu queria ser muito burra de vez em quando. Nas madrugadas das sextas e sábados, das quatro às dez da manhã, por exemplo. Quando a gente voltava da rua cheias de tesão, se agarrando pelas escadas dos apartamentos de alguém. Nessas horas eu preferia não ser inteligente porque eu só sabia gozar bem burrinha e Alice era sexy como um Frankenstein montado com as partes de Marilyn Monroe, David Bowie e Mick Jagger. Então vocês imaginem que loucura era Alice.

Daí a gente se amava feito loucas porque sabíamos olhar no âmago da outra e entender que catzo se passava no planeta. Esse há muito tinha perdido o eixo e vagava num limbo de ácido lisérgico e slow motion. Cabia a nós agitar com que houvesse à mão. Eu temperava meus dias com inteligência e burrice. Já Alice nunca dizia a verdade.

Em um fim de semana, Alice sumiu. Reapareceu em um apartamento de nossas relações. Como eu estava mal e ela toda bela, resolvi ficar inteligente. Cobrei de Alice coerência e ela me veio com uma história ridícula sobre ter andado em Paris. E tirou da bolsa um frasco de perfume barato dizendo que era um presente comprado em Montparnasse. Espumei, mas não era do meu feitio perder a pose. Em vez, rasguei a fantasia.

“Alice, você não passa de um mentiroso compulsivo, um travesti ridículo, um alienado. Tô cheia, vou procurar alguém de verdade.”

Ele, minha Alice, minha primeira Barbie, me olhou como quem faz um favor. Em seguida, arrastou as plataformas até o banheiro e sacou o batom da bolsa. Fiquei olhando encostada à porta, pequena e arrependida. Retocou os lábios, apreciou o resultado e sussurrou pra que eu tivesse que me esforçar pra ouvir. Falou para si do outro lado do espelho:

“Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano!”

Lavou o rosto, ajeitou as bolas e se apresentou:

“Marcelo, estudante de cinema. É que eu gosto de fantasia, não sou veado.” Em seguida, improvisou um riff de guitarra no ar e cantou à Robert Plant:

“E você, beeeibe, já virou passado, oh yeah!”

Meu primeiro namorado era Alice Cooper, David Bowie, Mick Jagger e Jim Morrison comendo Marilyn Monroe ao mesmo tempo. Então vocês imaginem que loucura ele era. Eu e Marcelo ficamos apaixonados por Alice, para sempre.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Literatura
» Seção {Palavra}


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos