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Import Export capitalismo e submissão

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Retrato da exploração sistêmica, o filme do austríaco Ulrich Seidl discute submissão e humilhação relacionadas a hierarquia e exploração. Peca pela intensidade de suas cenas e desconforto causado numa tentativa pedagógica de sensibilização através do repúdio.

Bruno Carmelo - (23/01/2009)

Se alguns filmes pretendem criticar certos aspectos do mundo, outros têm o mundo inteiro como objeto de sua crítica. A visão global da sociedade e a compreensão da função do cinema como espelho crítico dominam Import Export, filme austríaco que vê na expansão de suas fronteiras - geográficas e morais - uma possibilidade de dialogar com todos os problemas contemporâneos.

Para tanto, é preciso pegar duas figuras metonímicas dessa sociedade caótica: uma enfermeira ucraniana que busca emprego na Áustria e um garoto austríaco que vai para a Ucrânia. Ambos têm relações turbulentas com a família, com o emprego e com o ambiente. Se alguns filmes rebeldes defendem a existência de um mal (Gomorra e seu mundo maniqueísta), aqui não há maldade, mas uma grande hostilidade geral como essência das relações humanas.

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"Existe a questão das imagens de desconforto: embora o filme não se apoie numa estética desagradável, não deixa de ser difícil assistir passivamente suas cenas de longos momentos de humilhação"

Muitos críticos não hesitaram em usar o termo “niilismo”; mesmo forte, ele parece encaixar-se nesse caso. A estrutura escolhida por Ulrich Seidl é de ordem destrutiva, que passa como um rolo compressor pelo que vê à sua frente: religião, amigos, família, política. Tudo está corrompido, o novo homem não tem pontos de estabilidade.

Este pensamento é representado por dois símbolos maiores, trabalho e sexo. O primeiro se transforma, ao olhar do diretor Ulrich Seidl, num retrato da exploração fordista do trabalho em série, através da imagem potente de pessoas uniformizadas (no sentido vestimentar e social do termo) e da arrogância de patrões e superiores. Neste mundo só existem funcionários de empregos que não desejam, em funções que não os satisfazem.

Uma cena exemplar da mise-en-scène consiste na implantação de uma máquina de balas coloridas num bairro cinzento, deserto e paupérrimo na Eslovênia, povoado por várias crianças ciganas que jamais poderiam comprar tais produtos. Compreende-se então que o discurso do diretor se baseia nos absurdos e nas ironias inerentes ao capitalismo.

Talvez este recurso seja mais eficaz para falar do realizador que de sua própria realização. O filme rejeita o mundo para falar de uma ideia de mundo, rejeita o realismo para pregar uma ideologia

O que nos leva ao segundo símbolo de submissão, o sexo. Visto enquanto produto, ele é representado por nossa protagonista, enfermeira bondosa e mãe, que recorre aos serviços de sexo pela Internet. Não é tanto a prostituição que é criticada, mas a submissão que vem do poder financeiro. Como lembra um personagem, o dinheiro compra o direito de possuir, humilhar e de se fazer o que se quer. Assim, as mulheres se submetem aos maridos, as prostitutas aos clientes, os funcionários aos patrões, os filhos aos pais.

Ah, sim, existe a questão das imagens de desconforto: embora o filme não se apoie numa estética desagradável em si (como Gomorra novamente), não deixa de ser difícil assistir passivamente suas cenas de longos momentos de humilhação (de idosos enfermos em especial). Como reagir à tentativa pedagógica de sensibilização através do repúdio?

Vários críticos deploraram essa escolha, mas deve-se dizer que ela parece cada vez mais o instrumento pedagógico oficial das instituições, o que se percebe pelas propagandas destinadas a controlar acidentes de trânsito, doenças e demais problemas sociais. Para o câncer estampa-se imagens de pulmões doentes, para os acidentes automobilísticos a contra-publicidade do jovem embriagado. Assim, do mesmo modo, para uma sociedade em crise mostra-se a humilhação de seus personagens.

Talvez este recurso, por fim, seja mais eficaz para falar do realizador que de sua própria realização. Import Export é um filme que rejeita o mundo para falar de uma ideia de mundo, que rejeita o realismo para pregar uma ideologia. Entre imposição e retórica, este discurso é tão capaz de conscientizar os espectadores de cinema quanto as imagem de bêbados são capazes de controlar os acidentes de automóveis numa estrada.

Import Export (2008) Filme austríaco dirigido por Ulrich Seidl. Com Ekateryna Rak, Paul Hofman, Michael Thomas.

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

My Magic
A imagem do sacrifício. Cada personagem é destinado a carregar em si o símbolo de uma lição inteira. My Magic separa os maus dos bons. O protagonista não consegue se livrar do alcoolismo porque ama muito a ex-esposa. Sua tristeza comprova seu amor e o torna ainda mais digno

A força e o peso do que não está
Em Lake Tahoe, Fernando Eimbcke encara um novo desafio: retratar a dor sem jamais mencioná-la diretamente, ou colocar em foco suas causas. O resultado é um filme inovador porém não-formalista, uma obra metafórica e provocadora sobre os sentidos da ausência

Imitar a "realidade" — e questionar seu valor...
Em Waltz With Bashir, Ari Folman usa animação para narrar episódio da história de Israel. Mas não retrata fatos, e sim memórias e sonhos — até o surpreendente final. Artifício traz à tona questões instigantes. Há documentário "objetivo"? Pode-se enxergar o mundo sem as lentes do que somos?

Adoção, comércio e poesia
Ao retratar o assalariamento de famílias adotivas, Foster Child expõe abismo social e alienação nas Filipinas. Mas o faz sem esquecer os laços de ternura que unem os pais de aluguel a seus filhos temporários, num sinal de que pode persistir humanidade, em meio ao que é precário ao extremo

Realidade, mentira ou Jogo de Cena?
Nova obra de Eduardo Coutinho é um "filme-tese" complexo e surpreendente. Ao embaralhar verdade e ficção, em depoimentos de mulheres que falam de parto e morte, diretor parece interessado em questionar as barreiras entre a representação do real e a do imaginário

Em O ano 01, a força de 1968
Produzido no início dos anos 70, com múltiplas referências à estética HQ, filme de Jacques Doillon imagina uma greve geral contra o capitalismo. Contra-sistema, contracultura, contra-cinema. Deliciosa, absurda e irreverente anarquia, indispensável quando o sistema se pretende avassalador

Zona do Crime, alienação e fascismo social
Três garotos favelados aproveitam-se de uma pane elétrica para vencer os muros de um condomínio de luxo. Em seu filme de estréia, o mexicano Rodrigo Plá vê a caçada movida contra eles como metáfora de uma sociedade que pratica a brutalidade permanentemente, quase sem enxergar que o faz

Os estupradores castos
Deliver Us From Evil, da norte-americana Amy Berg, examina de modo impiedoso e indigesto a pedofilia na Igreja Católica — e sua inacreditável impunidade. Uma das provocações: numa religião em que o sexo é pecado, molestar uma criança não seria equivalente a transar com uma pessoa qualquer?

Banheiro do Papa: engajamento agridoce
Comédia popular de beleza plástica e certos efeitos (como montagens aceleradas e enquadramentos acrobáticos), o filme de Fernandez e Charlone celebra a inventividade, o jeitinho brasileiro-latino, a recusa à melancolia. Falta-lhe a crítica política — aparentemente, sua intenção inicial

Mein Führer, ousadia e frustração
Lento e forçadamente debochado, o filme mais recente de Dani Levy pretende debater a relação entre Hitler e o poder. Mas, ao criar a imagem de um ditador pobre-coitado, converte-se em obra estéril, que não dialoga nem com a História, nem com a atualidade.

Greenaway dialoga com Rembrandt
Em seu mais novo filme, diretor inglês debate as artes plásticas. Mas a abordagem — inovadora, ousada, livre de referências banais — perde-se, em parte, na tentativa de criar suspense policial e apontar, em Ronda Noturna, a imagem de um assassinato

Filme debate o estado do mundo
Seis diretores aceitam desafio de organização portuguesa e produzem obra coletiva sobre o tempo em que vivemos. Contribuições enxergam crise e necessidade de mudanças, mas o fazem por meio de poesia e metáforas — exceto no caso do curta brasileiro de Vicente Ferraz...

Hou Hsiao Hsien celebra a criação
Em Le Voyage du Ballon Rouge, novo filme do diretor chinês, os artistas são trabalhadores comuns, que andam pelas ruas, fazem compras, pagam aluguel. Mas uma série de surpresas estéticas sugere quanto é singular o seu ofício: propor outras formas, ousadas e inventivas, de enxergar o mundo e a vida

A morte é para toda a vida
Coluna revê El espíruto de la colmena (1973), primeiro filme de Victor Erice. Muito mais que homenagem ao cinema, ou debate sobre influência da TV, obra investiga o amadurecimento, em especial o trauma provocado pela noção de que teremos fim

Alexandra, o elemento perturbador
Em seu novo filme, Alexandre Sokurov introduz uma avó num acampamento de soldados russos na Tchetchenia. Por meio de um jogo de opostos, ele passeará por temas como as relações familiares, os desejos incestuosos, os conflitos entre Rússia e vizinhos e, em especial, a banalidade da guerra

Como se não fosse ficção
Abdellatif Kechiche dá ares de documentário a La Graine et le Moulet, seu novo filme — talvez para fundir prosa e poesia e criar obra sutil em que afirma, sem descambar para o panfleto, a igualdade entre franceses e marroquinos, cristãos e muçulmanos

XXY aborda um tabu
Diretora argentina encara o desafio de tratar do hermafroditismo, um tema quase ausente do cinema. Mas falta uma pitada de ousadia: opção por narrativa lateral, baseada sempre em metáforas e alusões, produz clima opressivo, que contrasta com humanismo da proposta

Garage: o mito do homem bom
Filme irlandês premiado em Cannes traça, delicado e flertando com o humor negro, o retrato de um ser solitário, que não tem idéias próprias nem opiniões divergentes. Alguém tão puro que não encontrou seu lugar na sociedade

California Dreamin’ e os absurdos do poder
Premiado em Cannes, filme de Cristian Nemescu serve-se da comédia e do absurdo para revelar impasses da autoridade, impotência oculta do militarismo e limites de certas resistências. Mesmo inconclusa, por morte do diretor, obra revela ascensão do novo cinema romeno

Suspiria, arte e sentidos
Avesso às fórmulas e clichês dos filmes de terror, o italiano Dario Argento produz obras marcadas por cenários, tons e música incomuns; tempo e espaço não-lineares; debates psicanalíticos. Texto inaugura nova coluna do Diplô, agora sobre cinema e diversidade



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