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A presença da Amazônia no FSM 2009

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Este ano, a cidade hospedeira do Fórum é peculiar entre as das edições anteriores. Belém do Pará está no meio da Amazônia brasileira - território que tanto chama atenção internacional, ora pela defesa de sua integridade ecológica, ora pela ambição em seus recursos naturais.

Marilza de Melo Foucher - (24/01/2009)

No verde, verde medo, entre ciladas.
E nos cipós, ardentes das queimadas,
Enforca-se o uirapuru,
Na clave de seu canto.

Paes Loureiro, poeta paraense

A Amazônia sempre representou interesses sobre todos os aspectos. Tanto ela chama atenção da opinião publica internacional em defesa de sua integridade ecológica, como dos interesses das grandes potências em sua imensa reserva. Essa região também representou um laboratório ideal para demonstrar a brutalidade do capitalismo predatório.

O resultado da política desenvolvimentista e do modelo neoliberal, do período militar na Amazônia desde o final da década de 70, além de destruir os ecossistemas rurais e urbanos da região, vai também provocar uma explosão de descontentamento. Esperamos que ao longo dos anos se transforme numa mobilização social de resistência.

Uma nova sociedade civil conseguiu, depois de muita luta, colocar na pauta política a questão ambiental, racial, sexual e o direito das populações tradicionais à posse de suas terras

Evidentemente, a ideologia neoliberal sempre visou a destruição do tecido social criando novas formas de tutelas para frear o avanço dos movimentos sociais emergentes, como os dos povos indígenas da floresta.

Anteriormente os índios que vivem em território brasileiro eram considerados deficientes pela constituição brasileira. O reconhecimento, pela Constituição Federal, das organizações sociais dos índios, foi feito de modo muito lento e até hoje causa polêmicas. Este fato é demonstrativo da discriminação alojada no consciente e subconsciente da sociedade brasileira.

Romper com a perspectiva integracionista e assimilacionista da nossa legislação representa até hoje um embate entre duas correntes que, infelizmente, em pleno século XXI, ainda persiste. A primeira, considera os índios como uma categoria étnica e social transitória, condenada ao desaparecimento, e que além de atrapalharem o progresso, põem em perigo a segurança das fronteiras! Outra corrente vem abrindo há muitas décadas um espaço de debate nacional junto à sociedade brasileira sobre questões que ficaram muitos anos invisíveis ou que não despertavam interesse, ou, simplesmente eram ignoradas por falta de informações ou educação sobre os direitos humanos. Essa corrente lutou contra a ditadura, muitos se exilaram, outros viraram clandestinos e resistentes e participaram ativamente na emergência de uma nova sociedade civil que conseguiu, depois de muita luta, colocar na pauta política a questão ambiental, a questão racial, sexual e o direito das populações tradicionais e dos povos indígenas terem o usufruto das riquezas nacionais do solo e a posse permanente de suas terras. Esse reconhecimento significa também o direito dos povos indígenas terem participação ativa nos espaços onde são tomadas decisões que lhes dizem respeito.

Os herdeiros de Ajuricaba, líder indígena na resistência aos portugueses, e dos Cabanos são os melhores defensores das riquezas naturais da Amazônia, de sua biodiversidade e da preservação de suas fronteiras, afinal eles continuam sendo os guardiões naturais desse espaço de esperança!

As forças vivas da Amazônia representadas no FSM

Vale ressaltar nesse Fórum Social Mundial a vitalidade, hoje, do tecido social na Amazônia. Existe na parte brasileira uma forte presença de identidades coletivas organizadas em pequenas associações, expressas nos movimentos sociais e organizações comunitárias combativas. Estas não são somente reativas, há muitos anos elas estão na vanguarda da luta pela defesa da biodiversidade e da sociodiversidade cultural, com capacidade de propor alternativas de políticas compatíveis com as características da região.

Graças a esse modo de agir, a visão setorializada do conhecimento perde terreno para a visão pluridisciplinar. As capelas intelectuais não têm mais razão de reproduzir ou produzir conhecimentos em circuitos fechados, e a socialização de saberes e experiências se impôs na região

Ressalta-se também, a presença de uma intelectualidade engajada não somente no campo acadêmico e nos centros de pesquisas, parte dela está comprometida no campo da ação política transformadora. Além de assegurar uma produção cientifica permanente, ela vem tecendo, já há alguns anos, parcerias com instituições não governamentais, movimentos sociais, pastorais e pequenas associações ativas na luta contra a exclusão social e por um outro desenvolvimento na Amazônia.

Os centros de pesquisas, as universidades amazônicas, as associações de estudantes, os movimentos sociais, as pastorais comprometidas como a CPT, as ONGs que atuam com uma visão holística do desenvolvimento, tal como a FASE em várias pesquisas, fazem emergir temáticas novas que na certa chamarão a atenção dos acadêmicos europeus e de outros continentes.

Um exemplo, entre outros, é a Rede de Pesquisadores e movimentos sociais do PNCSA - Projeto Nova Cartografia Social, que têm a participação da UFPA - Universidade Federal do Pará e outras universidades públicas com atividades em todas as regiões do Brasil e com diversos contatos na Colômbia, Guiana Francesa, Venezuela, Argentina e países da Europa[ver programação do FSM].

Graças a esse modo de agir, a visão setorializada do conhecimento perde terreno para a visão pluridisciplinar. As capelas intelectuais não têm mais razão de reproduzir ou produzir conhecimentos em circuitos fechados, e a socialização de saberes e experiências se impôs na região. Esse aprendizado tem sido um desafio permanente, assim, como o modo de se trabalhar em redes e articulado no plano local, o regional, o nacional e internacional.

Ao manter laços estreitos com movimentos e associações, apoiam as ações, as lutas e as organizações dos agentes sociais (quilombolas, indígenas, pequenos criadores, extratores, ribeirinhos, pescadores, colonos, artesãos, carvoeiros) que têm sua vida social e material ameaçada (quilombolas, indígenas, pequenos criadores, extratores, ribeirinhos, pescadores, colonos, artesãos, carvoeiros) pelas mudanças  sociais e ambientais. Hoje, se paramos para fazer um balanço das mudanças positivas ocorridas nesses últimos anos na Amazônia, podemos dizer, sem equívocos, que elas ocorreram graças a esse modo novo de agir e à pressão dessas forças vivas da região. Atualmente eles fazem da sociodiversidade cultural sua riqueza e do exercício ativo da cidadania uma nova concepção de democracia.



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