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Desdizeres de quem escreve

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André Resende - (24/01/2009)

Quando tinha pouco mais de 70 anos, o poeta João Cabral de Melo Neto disse estar muito cansado de escrever e que, talvez, não escrevesse mais dali para frente. Durante toda a vida queixou-se da tarefa de escrever e preferia reescrever a escrever (“[...] as mesmas coisas e loisas/ que me fazem escrever/ tanto e de tão poucas coisas...”).

Não me lembro se essa opinião causou algum espanto na mídia, em geral tão atarefada em contar o dia-a-dia de políticos, traficantes e personagens da própria mídia. Não sei dizer se teve algum impacto inibidor em alguém que, naquela época, apenas começava seus primeiros poemas ou qualquer coisa. Se João Cabral estava cansado, qualquer um poderia estar.

Outro poeta, Haroldo de Campos, instigado a declarar-se, foi à imprensa dizer que só raramente escrevia poemas. De um tempo qualquer para frente, levava meses até surgir a idéia de algum – e daí a escrevê-lo... João Cabral e Haroldo de Campos não voltaram à imprensa para dizer: – Pessoal, eu disse aquilo, mas não me leve ao pé da letra, nem tão a sério. Na verdade, mesmo cansado, ainda que as idéias demorem a invocar métricas e frases, continuo a escrever, porque isso, escrever, é quase essência, se de fato não é minha essência.

Disseram o que disseram e continuaram a fazer o de sempre.

Só me lembrei disso porque reli uma reportagem sobre o escritor J. D. Salinger (cito-o em muitas ocasiões, não se espante daqui para frente). Desde os anos 60, Salinger interrompeu qualquer contato com a imprensa. Uma das alegações possíveis – e não fora ele quem a disse – é que o sucesso e a personalidade permanentemente exposta ao público e à mídia afetaram sua vida. Dessa maneira, não criava o que desejaria criar. Pouco tempo depois, parou de publicar coisas novas e seus editores limitaram-se, apenas, a fazer edições de três dos seus quatro livros, incluindo O apanhador no campo de centeio.

Salinger não disse: estou cansado de escrever. Tampouco disse que não poderia escrever o que pretendia escrever à luz de tantos holofotes e solicitações de opinião e interpretações, como era diariamente invocado a ser/fazer. Logo depois, os repórteres passaram a bisbilhotar o quintal de sua fazenda, com a autoridade autoproclamada de quem tudo pode transformar de privado em público, para flagrar o escritor diante de sua máquina de escrever, para anunciar: novo livro de Salinger à vista. Ou encontrá-lo arando a terra, para dizer: Salinger não escreve mais (qualquer coisa é notícia quando se oferece aos leitores não a realidade em permanente movimento, apenas o detalhe que deve servir e significar ilustração e sobressalto ao dia-a-dia de cada um. Quanto a isso, Umberto Eco, em seu Pós-escrito a O Nome da Rosa, escreveu: “me recuso a responder perguntas ociosas. Do tipo: sua obra é aberta ou não? Sei lá, isso é problema seu, não meu”.).

O contrário de que Salinger queria. O contrário do que Eco espera. Salinger apenas decidiu ficar distante da cena pública, criou para si uma reserva de proteção e transformou-se em um dos mais privados cidadãos americanos, frequentemente ameaçado de violação – não apenas pela mídia: também outros cidadãos querem estar com ele para, depois, contar na mídia que estiveram com ele (revelando-lhe ao público?). Uma namoradinha de meses fez isso. E sua filha não deixou por menos. Encontramos nesses relatos o que encontraríamos na vida de qualquer um de nós: as sobras do dia-a-dia que, de fato, deixam presença. As nossas opiniões e fantasias não são maiores que o correr dos dias. E a inocência dos relatos, a insistência e revelação dos fatos tragicamente cotidianos como enfadonhos e desinteressantes – Salinger vê televisão, ara a terra, faz bolinhos de carne de carneiro, usa remédios homeopáticos... –, anunciam que o mito se desnuda e parece normal, tão comum que precisamos ver nele as ranzinzices e humores como formas de justificar que mais um candidato a deus, objeto de fabricação da mídia, se vai.

Salinger não disse: parem de escrever, parem de aparecer na mídia. Nem mesmo disse: não farei mais nada disso. Apenas ausentou-se. João Cabral não disse: parem de escrever. Menos ainda disse Haroldo de Campos. Disse apenas: com o passar do tempo, os poemas se demoram a chegar para mim. E nós devemos aprender que a vida de cada um inclui as suas idéias, servindo para nós como interesse pelo outro, não como espelho. Ou, um pouco mais: talvez todos nós, ao final, somos mais ou menos – um pouco interessantes, um pouco enfadonhos.



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