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LITERATURA

A ternura masculina sem pudores

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José Luis Sampedro não nos permite tirar a dignidade de seu protagonista: não há como sentir pena dele

Romilda Raeder - (24/01/2009)


“A mulher, apoiada no cotovelo esquerdo, o cabelo em duas tranças caindo-lhe sobre os seios, curva delicadamente a mão direita, aproximando-a de seus lábios carnudos. Às suas costas o homem, igualmente recostado, barba em ponta sob a boca fauniana, enlaça a cintura feminina com o braço direito. Nos dois corpos o tom avermelhado da argila pretende denunciar um fundo sanguíneo invulnerável ao transcorrer dos séculos. E sob os olhos afastados, orientalmente oblíquos, floresce nos rostos um mesmo sorriso indescritível: sábio e enigmático, sereno e voluptuoso.”

Um grande sarcófago etrusco exposto no museu romano de Villa Giulia chama a atenção de um rústico camponês. Eternizado em terracota, o sorriso intromete-se na mente do homem, cutuca-lhe a alma e, por fim, prende-o ao casal ali representado. Por que estavam rindo daquela maneira?

Pela estrada que o leva a Milão, Salvatore vai matutando. Quer entender. “Não estavam rindo, pai. Era só um sorriso. Um sorriso de beatitude. Como os santos nas gravuras, quando contempla Deus.” “Os etruscos estavam rindo, estou dizendo. Gozavam até em cima da sua própria tumba, você não percebeu?... Que gente!” Renato balança a cabeça, irritado: estaria a doença lhe afetando o cérebro? Não: o velho partigiano pode estar com o intestino maltratado pela Rusca, mas seu cérebro funciona muito bem, obrigado. Uma coisa, contudo, intrigava o filho: por que aquele cabeça dura se deixara convencer a deixar sua Roccasera e ir a Milão, consultar um especialista? Teria esperança de curar-se? O velho volta à carga: “O que foi feito desses etruscos?” Não é que ficara mesmo interessado? “Os romanos os conquistaram”, responde o rapaz. “Os romanos! Sempre atrapalhando!”, responde o velho, e a memória rebusca lembranças da ditadura e da guerra, da resistência, da Gestapo e do companheiro ao qual devia a vida.

O sorriso etrusco, de José Luis Sampedro (Editora Martins Fontes), é um daqueles romances que merecem ser relidos. O texto, que a tradução de Monica Stahel permite apreciar muito bem, é preciso, flui, prende o leitor. Traz um tema raro e difícil de abordar: a ternura masculina. De um homem por seu neto, por uma mulher, por um companheiro de lutas. E Sampedro trata do assunto com rara maestria, criando uma personagem tão real que quase a podemos tocar, que nos comove e nos instiga. No silêncio da leitura, no intervalo entre o afã do dia e o repouso que nosso corpo e nosso espírito reclamam, nos humaniza e, talvez por isso, nos conforta.

Permeando o tema principal, comparecem alguns opostos que dialogam e convivem: o interior rural, rico, pleno de tradições, porém ‘tosco’, e o ‘civilizado’, o sul e o norte italianos, que mais parecem dois países – o do sul (o calabrês de Salvatore, com seus etruscos misteriosamente sorridentes) e o do norte (que, a começar por Roma, que expulsou os etruscos, para ele já não é Itália); o irascível e o terno, o velho, o jovem e o muito jovem.

Sem autopiedade

Em Milão, o rústico camponês descobre, além de um mundo urbano sem alma que o intriga, mas não o intimida, o neto (descobre também os filhos que não teve, porque em sua aldeia os homens não têm filhos, apenas recém-nascidos de que se gabam no batizado – principalmente se machos –, mas que depois “desaparecem entre as mulheres”, pois embora durmam no mesmo quarto e chorem, somente a mãe os atende e nina). É na convivência com Bruno – cujo nome é o mesmo que adotara, na resistência – que se estabelece uma relação feita de olhares e gestos, que dispensa discursos e ideias. É também nessa relação que Sampedro traça a maior parte da vida do velho guerreiro, que, mexido em seus sentimentos mais recônditos, lança inúmeros olhares sobre o passado, em que ficaram uma grande mulher e os companheiros de guerrilha.

Ainda nesse vaivém, Salvatore, que não se entrega à doença, assalta a despensa escondido e come tudo o que não deve; conta suas histórias no Seminário para etnólogos, folcloristas e estudantes por 30 mil liras a sessão; passeia pelos arredores; e conhece Helena, sua última paixão, romance tardio, que mantém escondido tanto quanto pode. Parece querer extrair da vida tudo o que ela ainda tem para lhe oferecer até o último momento. A Rusca, todavia, não lhe dá trégua, vai marcando-lhe o rosto, dando sinais externos do que lhe faz por dentro: “o nariz já se afila, o queixo tremula”, enquanto esvazia gostosamente o copo de vinho, que o médico já proibira.

“A visão reveladora machuca Renato, enquanto ele se inclina sobre o prato e traga colheradas para esconder os olhos úmidos. O pranto reprimido ameaça por dentro. Como pode ter fim a vida de carvalhos e de águias como seu pai? Aquele homem foi o céu em suas alturas: impetuoso, arbitrário, implacável às vezes; mas também generoso, criador, bom... Aferrou-se à vida com abraço de urso; bebeu-a às talagadas... E aquela fogueira está se apagando!”

Ocorre que Sampedro não nos permite tirar a dignidade de seu protagonista: não há como sentir pena de Salvatore. Ele é intenso. Ele não se permite a autopiedade – ao contrário, se zangaria com o leitor penalizado e talvez o deixasse a ver navios, saísse do texto e voltasse para Roccasera, onde mandaria construir, sobre uma lápide, a imagem de um homem mais jovem, da idade do seu espírito, deitado meio de lado, deixando espaço para uma imagem futura, que traria no rosto o mesmo sorriso da sua. Um sorriso de eterno gozo. Um sorriso etrusco.



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