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LITERATURA

O pavimento beijado

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A pobre senhora inspirou profundamente, inclinou-se para um lado e se pôs a tatear a superfície encardida da calçada

Diego Viana - (24/01/2009)

Vi primeiro a jovem. Um rosto pálido e sem arestas, emoldurado por cabelos negros e sobrancelhas grossas, duas faces ligeiramente salientes e irritadas pela acidez do tempo frio. Um par de olhos simétricos, enormes, cravados no chão. Lábios crispados de mortificação ou nervosismo. O luto de seu vestido não era sóbrio o bastante para obliterar, na discrição de seu recolhimento, a emanação de um corpo bem feito. A escuridão de pano grosso realçava o serpentear de sombra, a vibração daquela figura retesada, quase imóvel no seu caminhar controlado. Do guarda-chuva, segurado a meia altura, aos sapatos de salto fino, passando pelos joelhos que se expunham na harmonia das formas, tudo nela era sombrio e perturbador, para o bem e para o mal.

Estávamos num daqueles bairros em que as pessoas apenas moram. Um lugar a que ninguém jamais vai. Inteiramente desconhecido para mim, uma verdadeira mancha obscura no mapa mental de uma cidade que eu pensava já ter esquadrinhado de meus passos e visitas. Foi com um certo desconforto e uma discreta curiosidade social que me postei à esquina para fumar, distante dos outros, dos limpos, dos quase-amigos cuja conversa animada e estéril eu podia ouvir, de tempos em tempos, quando alguém soltava mais uma risada histérica.

Entre aliviado e melancólico, acendi meu cachimbo com dificuldade, lutando contra o vento agudo, e me deixei espiar as gentes que passavam escassas, apressadas, as abas dos capotes erguidas até as orelhas. Só não corriam elas, a moça perturbadora e a pequena senhora que, a seu lado, apoiava todo o peso do corpo no braço fino da jovem acompanhante, sem dúvida para ajudar a progressão de seu passo claudicante. Vinham no rumo da esquina oposta, vagarosas, compreendendo uma a outra através do silêncio compartilhado. Não fosse a palidez do rosto da menina, pareceriam uma única figura, rabiscada em contraste frágil com o ambiente.

Eu inspirava o tabaco queimado com a lentidão habitual, saboreando a aspereza do calor que, na descida pela garganta, compensa um pouco o clima inóspito do exterior. Minha fumaça se afastava com preguiça e ia misturar-se, lenta, ao acinzentado da tarde escura. Mas não demorou para que eu perdesse o controle sobre o ritmo do fumo, esquecesse o prazer de tragar, abandonasse qualquer plano de retornar ao convescote urbano que ainda se desenrolava alguns pavimentos acima de minha cabeça. A partir do instante em que avistei a moça triste, e com ela a senhora encalacrada, o universo de minha atenção se encerrou naquele espaço e naquele instante. O cruzamento passou a ter apenas duas esquinas, como as falésias do Helesponto, onde as almas sensíveis se atiram à perdição. Eu, de pé a um lado, me surpreendi quase disposto a pular no asfalto que me afogaria. Elas, do outro, absortas em memórias comuns, distantes de mim como os vivos dos mortos.

Chegadas à esquina, a idosa libertou-se do braço da jovem, que não fez gesto algum para retê-la, apenas a acompanhou com um olhar embaciado e deixou cair a mão paralela ao quadril. A senhora cumpriu dois passos vacilantes e foi se apoiar a um poste recoberto de adesivos. Sua acompanhante não esboçou o menor impulso de voltar a sustentá-la. Só mantinha a fixidez do guarda-chuva acima da própria cabeça, como para proteger a densidade dos cabelos negros contra um brilho sutil que o chuvisco emprestaria. Seu rosto poderia ser o de uma efígie, de uma estátua, de uma aparição, até mesmo de um cadáver. Impassível, vazio, lívido. Já eu não tinha consciência do que fazia com o próprio corpo, nem guardei lembrança. Mas, se me conheço, sei que eu estalava os dedos e mordia a língua.

Pensei que ela estivesse doente, a velha, quando a vi sentar-se pesadamente sobre o meio-fio, as saias puídas atrapalhando os movimentos. Ela respirava com dificuldade e tinha as faces vermelhas. Mas sentara-se de propósito, logo entendi pelo olhar que lançou para trás, ao encontro da moça. Uma curta comunicação, sem movimentos ou sons, durante a qual ambas seguiram em suas posições, hesitantes. Tudo isso, eu observava sem piscar, em detalhes. A pele árida e as sobrancelhas desgrenhadas da velha, a suspirar sobre a calçada. Os pés, apertados por sandálias estragadas, perigosamente estendidos sobre o asfalto. As mãos se retorcendo e torturando contra o peito. A moça, que entendi ser sua neta, segurando com firmeza o guarda-chuva, tanta firmeza que os dedos já estavam exangues.

Enfim, a pobre senhora inspirou profundamente, inclinou-se para um lado e se pôs a tatear a superfície encardida da calçada. Movimentos lentos, amorosos, como os de quem acaricia a pele de um recém-nascido. Não demorou para que seu queixo começasse a tremer. De súbito, seu rosto inteiro se crispou e da garganta brotou um guincho prolongado e desesperador, tão límpido, tão potente, que parecia vir de muito longe, outro bairro, outra cidade, outra era. Ela já tinha as mãos chapadas contra o cimento, arranhando as rachaduras, esfolando os dedos. Parecia querer cavoucar a falsa terra, recuperar algum tesouro enterrado, talvez uma memória, uma alma, uma vida.

Estive a um passo de intervir. Cheguei mesmo, talvez, a projetar ligeiramente o corpo. Mas fui interrompido, intimidado, pela postura rígida da neta, perfilada atrás de sua parente, sem se importar com a humilhação, com o delírio de uma mulher disposta a cobrir o cimento encardido de beijos e lágrimas. Eu não compreendia, nem respirava. Meu cachimbo se apagou. É possível que até minha pulsação estivesse em suspenso e, a julgar por minha percepção, a rotação da Terra tinha se interrompido. O mundo estava reduzido à distância entre meus olhos e o que eles olhavam.

Então, a jovem me avistou pela primeira vez. A potência daquelas esferas negras me petrificou, absorveu minha energia toda, congelou o sangue de meus vasos. Flagrado, só pude fabricar um pensamento, que repetia, rodeando minha consciência: jamais vi coisa tão bela. Quando o normal, o correto, o adequado, seria sofrer o mesmo sofrimento das duas mulheres, sofri de outra forma, mesmerizado por um rosto pálido de poderes hipnóticos.

Compreendi meu crime ainda antes de recuperar o fôlego. No par de olhos que me fitava de volta, pela primeira vez pude ler sentimentos. Era ódio, era desprezo, uma raiva que me era dirigida com toda razão. Ah, se eu fosse insensato o bastante para gritar naquele instante, poderia pedir desculpas, poderia manifestar minha solidariedade e oferecer algum apoio para a velha mulher que sujava suas saias puídas, a soluçar com a testa e os punhos apertados contra a calçada. Mas ainda tenho os pés no chão, conscientes e prudentemente protegidos por um par de sapatos confortáveis.

A jovem estremeceu em sua raiva. Deu um passo à frente, agachou-se, levou a mão livre ao ombro da outra e lhe sussurrou algo ao ouvido. O pranto foi cortado no mesmo instante. Os olhos que me censuravam, à distância de uma esquina, passaram a quatro. Eu aceitaria de bom grado que elas escarrassem em minha direção e me lançassem injúrias em línguas contundentes, como punição por ter sido indiscreto e estético num momento de contrição e pudor.

Mas elas não me concederam nem a migalha de sua misericórdia. Fecharam-se novamente uma na outra. A moça ajudou a velha a erguer-se e, sem mais um olhar por cima do ombro, voltaram pelo mesmo caminho por que vieram, no mesmo passo vagaroso. Restou à minha frente a esquina beijada; uma, dentre os quatro cantos naquele encontro de ruas, debaixo de um céu baixo e cinzento, açoitada pelo vento gelado e pela chuva picante, enquadrada pelo burburinho da festa, acima de minha cabeça, onde meus amigos talvez nem dessem pela minha falta.



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