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A constatação da alteridade

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Agathe Cléry pretende ser um filme sobre o racismo, com um roteiro que toma todas as precações possíves para não ser considerado ele mesmo racista. Se não é de modo algum crítico, social nem irônico, talvez ele seja simplesmente bom moço, politicamente correto

Bruno Carmelo - (03/02/2009)

Se em português os termos “preto” e “negro” distinguem a cor da raça, em francês a palavra é uma só. “Noir” se encarrega ao mesmo tempo de duas idéias bem distintas, e por isso o slogan “Ela é branca. Ela é racista. Ela vai virar negra”, pode ser interpretado também como “preta”. Isso porque Agathe Cléry é uma pessoa que, do dia para a noite, não muda de raça, mas de cor.

Mas vamos com calma. Há pelo menos três momentos distintos nesse filme. O primeiro deles diz respeito à apresentação de Agathe, que o roteiro (com suas cenas musicais) encarrega de rotular de racista, mesmo se seus defeitos são múltiplos. Para deixar claro que se critica a posição da protagonista, esta racista é também arrogante, falsa, nervosa e mimada. Em contraposição, o mundo ao redor é tolerante, gentil e amigável. E fez-se o maniqueísmo.

Por que exatamente ela é racista? Isso vem da criação, de uma posição política? Agathe acredita que eles sejam menos competentes, perigosos? Nada disso. Quando finalmente confrontada as suas razões, essa empresária de sucesso regressa aos argumentos mais infantis: “eles são feios, idiotas, têm lábios e narizes grossos”.

“Foi preciso que o francês matasse o primeiro argelino para descobrir que existia a Argélia”, dizia um filósofo. Igualmente, neste filme é preciso que uma pessoa mude de raça para conhecer a alteridade

O diretor, Etienne Chatiliez, parece pouco interessado em compreender o racismo, de onde ele vem, o que ele implica. Esse terço inicial é uma constatação: os negros existem, os racistas também. Negros são aqueles excluídos, enquanto racistas são os que fazem piadas de negros. Essa posição ingênua percorre o filme inteiro, mesmo se suas características transformam-se quando a protagonista descobre que, devido a uma rara doença, sua pele está escurecendo.

O filme nunca sabe muito bem se a mudança de Agathe passa pela cor ou pela raça, talvez porque ele não saiba separar os dois. A pele escurece, os cabelos frisam, mas nenhum outro traço se transforma. Chatiliez encontra esse intermediário que parece bastar às necessidades narrativas. A transformação de Agathe é compreendida então como doença mas, acima de tudo, como “justiça”. “Foi preciso que o francês matasse o primeiro argelino para descobrir que existia a Argélia”, dizia um filósofo. Igualmente, neste filme é preciso que uma pessoa mude de raça para conhecer a alteridade.

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"A posição ingênua sobre o racismo percorre o filme todo. A protagonista descobre que, devido a uma rara doença, sua pele está escurecendo"

Logo, ela percebe o racismo, o olhar diferente dos outros, a preconceito na busca por um emprego (ela deixa de ser representante da óbvia marca “Scandinav”, para peles claras). Agathe descobre uma sociedade em que a raça está em todos os lugares, em que o “discurso do povo oprimido”, nas palavras de uma amiga, torna-se um filtro para sua visão de mundo. Quando ela liga a televisão, o programa fala de negros. Os vizinhos e amigos só conversam sobre este assunto. Agathe Cléry não é mais uma mulher nem uma empresária, ela é uma negra.

A narrativa transforma-se em uma fábula com moral muito clara a respeito da aceitação da alteridade e da oposição à segregação das minorias

Este segundo movimento do filme (da ausência de raças à obsessão “bipolar” por um mundo dividido entre brancos e negros) opera uma transformação radical nos personagens. Virar negro implica entender a “dor desse povo”, e, portanto, tornar-se uma pessoa melhor. Consequentemente, percebemos que as pessoas bacanas do início são muito menos sinceras do que pensávamos (o namorado a trai, os colegas de trabalho falam mal pelas costas). Novo sistema de opostos: para que Agathe se torne simpática, é preciso que o mundo inteiro seja repressivo.

Acostumada com sua nova aparência (o filme fala mesmo em “nova personalidade”), enfiada num gueto anti-brancos e assumindo o papel de “negra-gostosa-que-dança-bem-e-intimida-os-pobres-branquelos”, ela conhece um negro e se apaixona. Eis que o filme entra em sua terceira metamorfose racial e narrativa: Agathe descobre que está voltando a ser branca. Contra as explicações médicas do início, ela simplesmente clareia. Do verossímil, a narrativa transforma-se em uma fábula com moral muito clara a respeito da aceitação da alteridade e da oposição à segregação das minorias. Segue uma comédia romântica no sentido mais formulaico do termo, com os pontos de virada típicos do gênero.

Depois de tanta comédia, drama e várias cenas musicais, é difícil pensar o que Chatiliez queria transmitir com essa história. A maioria dos críticos de cinema limitou -se a criticar a fraca mise-en-scène, os números musicais kitsch e a montagem primária; não citando uma vez sequer o tratamento da questão racial. Ora, Agathe Cléry pretende ser um filme sobre o racismo, com um roteiro que toma todas as precações possíves para não ser considerado ele mesmo racista. Se não é de modo algum crítico, social nem irônico, talvez ele seja simplesmente bom moço, politicamente correto. A personagem malvada torna-se uma pessoa boa, aprende que os negros sofrem e termina com vários pequenos filhos mestiços amavelmente apresentados à câmera. Um tanto simples como discurso, especialmente vindo de uma premissa tão incomum e mordaz.

Agathe Cléry (2008)
Filme francês dirigido por Etienne Chalitiez.
Com Valérie Lemercier, Anthony Kavanagh, Dominique Lavanant.

Mais:

Bruno Carmelo assina a coluna Outros Cinemas. Também mantém o blog Nuvem Preta, onde resenha e comenta outros filmes. Edições anteriores da coluna:

Import Export capitalismo e submissão
Retrato da exploração sistêmica, o filme do austríaco Ulrich Seidl discute submissão e humilhação relacionadas a hierarquia e exploração. Peca pela intensidade de suas cenas e desconforto causado numa tentativa pedagógica de sensibilização através do repúdio

My Magic
A imagem do sacrifício. Cada personagem é destinado a carregar em si o símbolo de uma lição inteira. My Magic separa os maus dos bons. O protagonista não consegue se livrar do alcoolismo porque ama muito a ex-esposa. Sua tristeza comprova seu amor e o torna ainda mais digno

A força e o peso do que não está
Em Lake Tahoe, Fernando Eimbcke encara um novo desafio: retratar a dor sem jamais mencioná-la diretamente, ou colocar em foco suas causas. O resultado é um filme inovador porém não-formalista, uma obra metafórica e provocadora sobre os sentidos da ausência

Imitar a "realidade" — e questionar seu valor...
Em Waltz With Bashir, Ari Folman usa animação para narrar episódio da história de Israel. Mas não retrata fatos, e sim memórias e sonhos — até o surpreendente final. Artifício traz à tona questões instigantes. Há documentário "objetivo"? Pode-se enxergar o mundo sem as lentes do que somos?

Adoção, comércio e poesia
Ao retratar o assalariamento de famílias adotivas, Foster Child expõe abismo social e alienação nas Filipinas. Mas o faz sem esquecer os laços de ternura que unem os pais de aluguel a seus filhos temporários, num sinal de que pode persistir humanidade, em meio ao que é precário ao extremo

Realidade, mentira ou Jogo de Cena?
Nova obra de Eduardo Coutinho é um "filme-tese" complexo e surpreendente. Ao embaralhar verdade e ficção, em depoimentos de mulheres que falam de parto e morte, diretor parece interessado em questionar as barreiras entre a representação do real e a do imaginário

Em O ano 01, a força de 1968
Produzido no início dos anos 70, com múltiplas referências à estética HQ, filme de Jacques Doillon imagina uma greve geral contra o capitalismo. Contra-sistema, contracultura, contra-cinema. Deliciosa, absurda e irreverente anarquia, indispensável quando o sistema se pretende avassalador

Zona do Crime, alienação e fascismo social
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Os estupradores castos
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