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LITERATURA

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Colocou o papel com a citação à carne de ovelha na boca. Ele a macerou com a língua. Molhou-a. Tentou fazer brotar dela o enigmático sabor do animal estranho. Sentiu a tinta se desprender. Era a única coisa a conferir algum sabor exótico àquele repugnante alimento

Tibor Moricz - (06/02/2009)


...Dez minutos depois, cruzaram a fronteira que separava a civilização do estado selvagem. Por montes e vales, cortando os desertos de sal ou de areia, atravessando florestas, descendo às profundidades violáceas dos cânions, transpondo penhascos, picos e mesas, a cerca corria invariavelmente em linha reta, símbolo geométrico do desígnio humano triunfante. E junto a ela, aqui e ali, um mosaico de ossamentas brancas, uma carcaça ainda não apodrecida, escura sobre o solo fulvo, marcava o lugar onde veados ou touros, pumas, porcos-espinhos ou coiotes, ou senão urubus vorazes atraídos pelas exalações da carniça e fulminados como por uma justiça poética, haviam se aproximado demais dos fios metálicos destruidores...

A boca cheia de saliva atrapalhava a leitura. Ele fechou o livro, aprumou-se na poltrona carcomida pelo tempo e esticou o pescoço, afrouxando o nó da gravata. Seus olhos perderam-se na prateleira semidestruída, em que dezenas de livros exibiam suas presenças deterioradas. Olhou cada lombada como se tivesse diante de si o futuro da raça humana. As respostas para todas as questões que inquietavam a sua alma.

Milhares de páginas retratando o pensamento humano. Filosofia, sociologia, antropologia. Relatos fascinantes de épocas só assimiladas através de muita e poderosa imaginação. Homens e mulheres livres. Vida animal e vegetal sem contaminações. Comida farta e abundante. Famílias!

A semi-obscuridade não o impedia de admirar maravilhado cada um daqueles livros. Devorá-los tinha se transformado numa rotina absurda e assustadora. Mas dava a cada um o direito de cumprir sua missão. Lia-os, um a um, aprofundava-se em suas questões. Mergulhava em suas histórias e vivia cada realidade de maneira tão intensa que quase não podia discernir a verdade da ficção. Autores que viveram uma época de abundância; de vida e felicidade, mesmo na pior das hipóteses.

Depois, com a consciência em frangalhos, arrancava uma a uma as páginas e as devorava lentamente, transformando-as numa pasta dentro da boca para depois engoli-las em pequenos bocados. No início regurgitava a refeição, mas, depois, acostumando-se pouco a pouco, seu estômago passava a digeri-la, não sem algum esforço.

Eras de cultura acabando em poças mal cheirosas que eram defecadas pelos cantos, fora de seu esconderijo. Pele e ossos. Rosto encovado, feição típica daquela era. Olhos opacos, mas não tanto quanto os de seus semelhantes. Ele tinha informação, tinha leitura que ninguém mais tinha.

Quisera que as letras impressas nas folhas surgissem uma a uma em sua pele, saltando como brotoejas. Ele então as poderia ler. Palavras novas surgindo, formações aleatórias, sentenças surpreendentes. Poderia ele se tornar num autor esofágico, epidérmico. Contemplaria o próprio corpo nu diante de um pedaço de vidro e admiraria a metamorfose.

Compensação para o último ato de barbárie cometido contra a civilização.

...Mãe, monogamia, romantismo. A fonte jorra bem alto; o jato é impetuoso e branco de espuma. O impulso não tem mais que uma saída. Não é de admirar que esses pobres pré-modernos fossem loucos, perversos e desventurados. Seu mundo não lhes permitia aceitar as coisas naturalmente, não os deixava serem sãos de espírito, virtuosos, felizes. Com suas mães e seus amantes, com suas proibições, para as quais não estavam condicionados; com suas tentações e seus remorsos solitários; com todas as suas doenças e intermináveis dotes que os isolavam; com suas incertezas e sua pobreza – eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade?...

Franziu o cenho, fez a página deslizar pela palma das mãos e então a espremeu, apertando-a até que se transformou numa bola bem compacta. Colocou-a na boca e deixou a saliva ir amolecendo aquele fragmento de história. ...com suas certezas e sua pobreza... Como não se sentir duramente atingido por esse trecho? ...eram forçados a sentir as coisas intensamente. E, sentindo-as intensamente (intensamente e, além disso, em solidão, no isolamento irremediavelmente individual), como poderiam ter estabilidade? Seu estômago deu um salto. A bola amolecida desceu como uma bomba. Solidão... Isolamento irremediavelmente individual... Estabilidade.

Estava ali há tempos. Meses e anos tornaram-se um amalgama indecifrável. A fome conduzia a contagem do tempo. Comendo papel, comendo lixo, comendo as próprias fezes quando necessário. Não havia mais luxos como “paladar”, “aroma”, “sabor”. Apenas e tão somente a violenta necessidade de se manter vivo, apesar das condições serem as mais adversas. Viver era uma apostasia. Morte era alegria.

...Falam nela como se fosse um pedaço de carne.” Bernard rangeu os dentes. “Experimentá-la assim ou assado! Como se fosse carne de ovelha. Eles a rebaixam à categoria de um pedaço de carne de ovelha. Ela me disse que ia pensar, que me daria uma resposta esta semana. Oh, Ford, Ford, Ford! Gostaria de ir lá e esmurrá-los – com força, muitas e muitas vezes.

Sentiu as pernas trôpegas. O que um longo tempo numa dieta de celulose era capaz de fazer. Mesmo assim levantou-se, segurando numa das mãos o livro Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Uma das páginas despregadas. Carne de ovelha... Tentava imaginar que gosto teria. Que aparência. Tentava imaginar o que era uma ovelha. Um animal, decerto. Assim ou assado... Fogo. Comida quente. Apenas quando crua e fresca... Apenas.

Caminhou até uma abertura na parede que fazia a vez de janela. Lá fora o sol forte, torrando com seus raios o nada em que tinha se convertido a cidade. Pequenas nuvens de pó sendo conduzidas pela brisa leve. Fora isso apenas o silêncio.

Recuou e voltou a se ocultar nas sombras. Lambeu os beiços ressecados e repletos de feridas doloridas. A camisa cheia de manchas amareladas, o terno em trapos mas ainda com dois botões e a gravata amarela razoavelmente bem conservada. Calças cinza, presas por um fio na cintura. Uma das pernas esgarçada, acima do joelho. Sapato em um dos pés. Sem cadarços. Alguns números maior que o próprio pé. O outro descalço, caloso e inchado. Magro como um... Como um... Faltaram- lhe referências. Estes não eram tempos para analogias. Fino e distinto, tanto quanto um moribundo poderia ser. Nem um lorde inglês do século passado conservaria tamanha fleuma numa situação similar.

Colocou o papel com a citação à carne de ovelha na boca. Ele a macerou com a língua. Molhou-a. Tentou fazer brotar dela o enigmático sabor do animal estranho. Sentiu a tinta se desprender. Era a única coisa a conferir algum sabor exótico àquele repugnante alimento.

Andou até uma estante cujas portas ainda se fechavam. Abriu-as. Agachou-se com toda a graciosidade que conseguiu e retirou de dentro dela uma bandeja. Lustrada, exibia um brilho prateado. Incólume à destruição. Como um mordomo cheio de dignidade, foi com ela até a prateleira em que os livros aguardavam cada um a sua vez. Escolheu um ao acaso, tomando o cuidado de verificar que já tinha sido lido pelo menos cinco vezes. Otelo, de William Shakespeare. Sabia que escolhia uma excelente safra. Talvez a melhor de todas. Retirou-o da prateleira com circunstância. Colocou-o no centro da bandeja, ajeitando-o carinhosamente. Um drama desse naipe não poderia se prestar a uma tragédia menor. Desdêmona,Otelo, Iago e outros o perdoariam.

Uma lágrima. Só uma naqueles tempos de imensa carestia. Uma única lhe corre pela fronte. Unem-se nessa lágrima a dor da perda de mais um inestimável tesouro e a alegria de saber que a fome seria combatida em breve, dando a ele certa sobrevida.

Arrastou o pé calçado pelo chão desnivelado e sujo. Portava a bandeja com altivez. Parou diante de uma porta velha. O trinco girou e ele entrou. Fechou a atrás de si. Acostumou-se logo com a escuridão. Enfiado num canto do quarto, espremido junto à quina da parede, olhos bem abertos, esbugalhados – um menino. Ele avançou e abaixou-se numa mesura delicada. Punha diante do garoto ainda impúbere a bandeja com o livro. Observou-o. Como uma criança completamente analfabeta poderia entender a preciosidade que tinha diante de si? Como compreenderia a vida se pudesse decifrar os mistérios que habitam tomos e mais tomos!

Enfiou a mão no bolso com gestos lentos e estudados. Queria que o menino observasse, visse os movimentos e os entendesse. Tirou de dentro uma página.Conhecia-a bem. Poderia repeti-la de cor. Mas não o fez em voz alta. Não teria sentido nenhum.

...A civilização não tem nenhuma necessidade de nobreza ou de heroísmo. Essas coisas são sintomas de incapacidade política. Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade para ser nobre ou heróico. É preciso que as coisas se tornem profundamente instáveis para que tal oportunidade possa apresentar-se...

Agia com heroísmo e nobreza nesse momento. E isso porque a instabilidade o exigia. Dobrou o papel diante do moleque, amassou-o bem e o enfiou na boca. Mostrou para quê. “Comida”... repetiu em pensamento. “Coma e viva, querido menino”, “Coma e engorde para que eu viva também”.

Saiu do quarto, equilibrando pesar e esperança. Sentou-se na poltrona e observou o teto cheio de rachaduras. Ponderou sobre a sorte, inimiga comum naqueles tempos.

Ver o menino desgarrado do grupo que avançava resoluto atrás de um caçador fora uma dádiva. Descer ao nível do solo e aprisioná-lo, idem. Arrastá-lo fora relativamente fácil. Em grupo ele seria uma presa impossível. Agiam como uma matilha. Mas como indivíduo, distante dos demais, estava livre da influência e dos condicionamentos do grupo. Transformara-se numa criança arisca e desconfiada, mas frágil.

Oh, sorte maldita!

Oh, sorte maldita!

Trocaria histórias por carne e sangue frescos.

Oh, sorte maldita!



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