Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Amazônia do Conhecimento ou da Ignorância?

» Protestos multiplicam-se: como participar

» Cinedebate: a crise ambiental brasileira em três filmes

» O cineasta em sua fauna

» A revolução do Emprego Garantido

» Segurança pública: hora de trazer a pauta para a esquerda

» Segurança pública: hora de trazer a pauta para a esquerda

» Para entender a crise de Itaipu

» “Não esqueçam Julian Assange”

» Índia ocupa a Caxemira muçulmana

Rede Social


Edição francesa


» Graves menaces sur la sécurité alimentaire mondiale

» Menaces sur l'Asie

» Le rap, complainte des maudits

» L'Afrique noire est-elle perdue ?

» Comment fut liquidée toute une génération d'opposants

» Eldridge Cleaver : le retour de l'enfant prodigue

» Population, subsistance et révolution

» Une nouvelle classe de petits potentats domine les villages

» Vers une « révolution agricole »

» En dehors de la « Petite Europe » d'autres débouchés s'offriront aux produits tropicaux


Edição em inglês


» On ‘la pensée unique'

» Manufacturing public debate

» August: the longer view

» Trump returns to the old isolationism

» Yellow vests don't do politics

» Kurdish territories in northern Syria

» The changing shape of the Balkans: 1991 / 2019

» Minorities in Kosovo

» Borders 1500-2008

» Man with a mission or deranged drifter


Edição portuguesa


» Edição de Agosto de 2019

» Plural e vinculado à esquerda

» Os talibãs de São Francisco

» Edição de Julho de 2019

» Inconsistências (ou o sono da razão?)

» Comércio livre ou ecologia!

» Edição de Junho de 2019

» As pertenças colectivas e as suas conquistas

» A arte da provocação

» 20 Anos | 20% desconto


CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

O encontro marcado

Imprimir
Enviar
Compartilhe

Nunca reparei se havia realmente um KFC em République. Fui conferir no dia seguinte, na internet, e para a minha surpresa havia mesmo um, exatamente em uma das esquinas. Nem preciso dizer que a minha manhã foi simplesmente a espera da hora do encontro

Daniel Cariello - (05/02/2009)

Um dia desses tive um sonho bem estranho. Tomava uma taça de vinho na place de la République, com uma mulher que não conhecia. O papo era agradável, mas de repente surgiu uma contagem regressiva no alto da minha, digamos, tela mental. E indicava que aquele sonho terminaria em 5 segundos. Caramba, 5 segundos? No melhor da conversa? Quando já começávamos a virar fumaça como o gênio da lâmpada, tive a idéia.

— A gente se reencontra amanhã, aqui mesmo, às 14h.

— Mas onde?

— Na esquina em frente ao KFC.

— Combinado!

Nunca reparei se havia realmente um KFC em République. Fui conferir no dia seguinte, na internet, e para a minha surpresa havia mesmo um, exatamente em uma das esquinas. Nem preciso dizer que a minha manhã foi simplesmente a espera da hora do encontro. Até cheguei adiantado, como não é do meu costume.

Os termômetros marcavam 5 ºC. Moleza para quem já enfrentou - 8ºC. Tanto que fiquei sentado nas mesas do lado de fora, na esquina combinada, um pouco admirado da minha nova condição de imune ao frio. Aí lembrei que estava disfarçado de urso polar, com um grosso casaco de lã e um sobretudo. Bom, quase imune, digamos.

Eu não tinha muita certeza se ela viria mesmo. E além do mais, não seria muito fácil reconhecer um rosto que havia visto apenas uma vez, e em um sonho.

Uma senhora passa e pára em frente ao cardápio. Não era ela. Uma mais jovem vem em seguida, escutando seu iPod no último volume. Olhamo-nos nos olhos. Por um instante, pensei que poderia ser. Mas ela não me reconheceu, então não era.

Observo a paisagem ao redor. No meio da praça, a estátua construída em homenagem à volta da república na França, após o período dos imperadores. As árvores ainda estão secas. A fumaça sai da boca das pessoas quando elas falam. E elas falam os mais diferentes idiomas. Inglês, italiano, espanhol, português, línguas orientais, eslavas e tantas outras que não conseguiria entender nem aqui e nem na China. Muito menos na China, aliás.

Acredito tê-la visto, saindo de um café ao lado. Mas essa passa por mim sem nem me notar. Observo uma outra, parada, exatamente no lugar onde combinamos. Parece esperar alguém. Olha impaciente para o relógio e, depois, na minha direção. Passo a mão nos cabelos, disfarçando um aceno tímido. Mas logo pára um carro na sua frente, e ela salta pra dentro. Dommage.

O dia está bonito. Céu quase azul. O sol bate nas janelas dos prédios, revelando uma luz transversal e fraca. Apenas o suficiente para fazer dessa uma agradável journée d’hiver.

E é nesse exato momento que percebo que ela está ao meu lado. Na verdade, já estava quando eu cheguei. Reconheço seu rosto. É o rosto de todos que passam por aqui. É o negro, o japonês, o escandinavo, o latino, todos. São os carros, os ônibus, as vélibs, as motos. O KFC e o McDonald’s ao lado de tradicionais cafés e brasseries. A senhora fumando, o senhor com as compras, a moça de óculos fashion, a mãe e a filha levando flores para alguém, os adolescentes com guitarras, o cachorro na coleira, o viajante e suas malas pesadas, o casal abraçado e apaixonado, os pombos misturando-se às pessoas, a velha de cabelo tingido de vermelho, as guimbas de cigarros ainda acesas pelo chão, o jovem pai empurrando um carrinho de bebê.

São 14h30. Já estou aqui há mais de meia hora. E ela, Paris, há muito mais tempo do que isso.

Mais

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog de mesmo nome e edita a revista bilíngüe Brazuca, publicada e distribuída na França e Bélgica. Edições anteriores:

Paris para crianças II
É que os adultos falam bobagens para as crianças, talvez com medo de que a gente não entenda a explicação de verdade. Mas o que eu acho mesmo é que eles nunca sabem as respostas, então inventam uma história qualquer. Ou então dizem "é complicado explicar isso", "pergunta pro seu pai"...

Breve história nasal da França
A França foi fundada por Asterix, o herói narigudo. Luís XIV adorava enfiar o nariz onde não era chamado. Gérard Depardieu fez suspirar metade das mulheres do mundo com seus dois órgãos sexuais. E hoje, o país ainda honra sua tradição de grande sugador de oxigênio com Nicolas Sarkozy

Explicando o verão francês
Percebe-se, pois, que já no vernáculo - été - o conceito de verão na França é completamente ligado ao passado. A estação parece nunca vir. Já foi. E não tem perspectivas de volta

Sartre em si
Já dizer que o Para-si tenha consciência, é questionável. Discute-se nos meios filosóficos se um cidadão que pendura a bandeira do Vasco na janela pode ou não ser enquadrado como um grande conhecedor do mundo. Não sou eu quem diz, é Sartre

Meu vizinho Chico Buarque
— E como é que ele é?
— Nem alto, nem baixo. Cabelo curto, olhos azuis, seus sessenta e poucos anos...
— Mas isso todo mundo sabe. Quero saber da vida dele. Como ele é pessoalmente?

Joue-nous Raoul!
— O canhestro. — Hein? — O príncipe das trevas. — Paulo Coelho adorando o capeta? Agora embolou tudo. — Avisei...

Praias, pandeiros e limoncelos
As primeiras notas foram facilmente reconhecidas. E todos entraram juntos no refrão de No Woman No Cry. Todos, menos o próprio violeiro, que ficou novamente pelo caminho, mais estático que a Vênus de Milo

Sene-Sene-Senegal
— Táxi?
— Não, obrigado.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Mas alguém vem te buscar?

Pequenos espaços, grandes problemas
— E aí escolheram a resposta mais criativa. — Que pergunta? — "Qual a diferença entre a mulher e a televisão?" — E o que você respondeu? — O controle remoto!

Arigatô, monsieur
. No bairro chinês tem um McDonalds com cardápio em chinês. Ou em japonês, sei lá.
. Apesar de ter sido criado por um japonês, o Miojo e seus derivados são chamados aqui de "macarrão chinês".
. O bairro chinês, na verdade, fica na Praça da Itália.

Um quadro, três histórias
Verdadeiros samurais modernos, munidos de máquinas fotográficas ao invés de espadas, os japoneses não se importaram com as dimensões da obra e nem com o aviso, e saíram clicando em uma velocidade digna de Guiness. Do livro dos recordes, claro, não da cerveja

Salamaleque!
— Bra bra bra minha mulher bra bra bra bra. — Eu sei, eu sei. Também acharia estranho o fato de a moto sumir. — Bra bra bra bra bra loja... Gentil bra bra. — Que isso... Precisando é só chamar.

Roteiro de viagem — Essa, não.
— Não quer visitar a Torre Eiffel?
— Quero não.
— Mas todo mundo que vai a Paris visita.
— Pois eu vou ser o primeiro a não ir.

Calendário de inverno
— No fim das contas, o que importa é que o verão está chegando. Quais são seus planos?
— Eu vou pro Brasil.
— Pro Brasil, pro inverno de lá? E vai fazer o quê?
— Como assim? Usar todos esses casacos que comprei, claro.

Eu x Zidane
"Senti o peso e a responsabilidade. 160 milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos esperavam ansiosos por alguma ação minha. Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto"

Paris para crianças
— Você sabe o que é escargot?
— Não.
— É um caramujo.
— Eca.
— Os franceses comem.
— É por isso que eles fazem aquele biquinho?

Protesto!
Todo dia tem uma manifestação em Paris, pelos motivos mais diversos. Ontem, esbarrei em uma passeata pelo direito dos cães. Quando cheguei em casa, encucado, comecei a fazer uma lista de possíveis novas campanhas, organizações e movimentos, caso a inspiração dos parisienses acabe um dia

Como falar francês sem falar francês
Quanto boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "pardon, j’ai été inattentif". Em bom português, "desculpa, estava desatento". Mas nunca peça pra repetir

Pinga ni mim
Eram eles de novo, acompanhados por três policiais. Entraram e pegaram nossos dados. Enquanto um escrevia, os oito restantes ollhavam pra parede. Tinha tanta gente admirando os pingos que tombavam, como se fosse uma instalação, que se eu abrisse umas cervejas pareceria um vernissage

Alô, Hugo
— É o Hugo, mexicano?
— Não. É o Daniel, brasileiro.
— Mas você fala espanhol? (...) Que estúpida eu sou. Você fala brasileiro, né?
— Também não.

A Terceira Guerra Mundial
O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma

Procura-se pão francês
— É o pão do dia-a-dia no Brasil.
— E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
— Quer dizer que temos sido enganados esse tempo todo?
— Lamento te revelar isso assim, de sopetão.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos