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Cinema e literatura

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Na maioria das vezes, o texto literário de gente do cinema carece, em sua construção, de uma personalidade própria, ficando a meio caminho entre o cinematográfico e o literário.

Mauro Rosso - (26/02/2009)

Cinema e Literatura, criações do imaginário, parceiro na construção da cultura, na era do domínio da imagem visual, dividem ainda o desejo comum: fornecer o alimento indispensável à sobrevivência da fantasia, da inteligência, da crítica. E prazer. (Beatriz Resende – UFRJ/CNPq)


Eventos como a festa do Oscar e, de resto, como os festivais regularmente realizados em distintas cidades, com diferentes temáticas e enfoques, são excelentes por permitir uma reflexão sobre a sempre vigente relação literatura-cinema , com suas interseções, confluências... e divergências. Poucas formas artísticas estabelecem entre si tantas relações de sentido mútuo, ainda que sujeitas a entreveros e embates, acusações de “infidelidade autoral”, polêmicas sobre liberdades de criação, etc. – até porque são diferenciadas as linguagens e distintos os respectivos códigos e modos de funcionamento: narrativa literária e narrativa fílmica distinguem-se e, na maioria dos casos, contrastam- se; são sempre difíceis as transposições de uma para o outro, pois as características intrínsecas do texto literário – originalidades, subjetividades, entrelinhas, elaborações – não encontram, por princípio, a mesma expressão na narrativa cinematográfica.

A par das diferenças, porém, entre a página e a tela há laços estreitos – em forma de mão e contramão: a página contém palavras que acionam os sentidos e se transformam, na mente do leitor, em imagens; a tela abriga imagens em movimento que serão decodificadas pelo expectador por meio de palavras. Entre a literatura e o cinema há um parentesco originário, diálogo que se acentuou sobremaneira após a intermediação dos processos tecnológicos. Assim, a enorme e expressiva influência da literatura sobre o cinema tem sua contrapartida, por meio de um ‘cinema interior ou mental’ sobre a literatura e as artes em geral, mesmo em uma época precedente ao advento dos artefatos técnicos.

Optando pela modalidade narrativa, o cinema roubou da literatura parte significativa da tarefa de contar histórias, tornando-se, de início, um fiel substituto do folhetim romântico. E, apesar de experimentações mais ousadas, como a "Avant-Garde" francesa da década de 1920, ou o surrealismo cinematográfico, que buscaram fugir dessa linha, a narratividade continua a ser o traço hegemônico da cinematografia.

Daí, adaptar para o cinema ou para a televisão – meios reconhecidamente ligados à cultura de massa – obras de autores como Shakeaspeare, Dostoiévski, Tolstói, Balzac, Flaubert, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, para citar apenas alguns nomes de relevo no panorama universal e nacional – equivale a trazer para as mídias o prestígio da grande arte ou, no dizer de alguns, tornar a arte erudita acessível ao grande público. Mas a adaptação de obras literárias para o cinema e, posteriormente, para a televisão – meios que privilegiam a linha narrativa – também não se tem feito sem conflitos, pois as adaptações resultam sempre em empreendimentos insatisfatórios.

Não se pode negar que, principalmente em seu período clássico, o cinema tenha procurado na aproximação com a literatura uma forma de legitimar-se. E além das freqüentes adaptações de obras literárias para a tela, tornou-se prática corrente, em particular naquele período, a contratação de escritores como roteiristas. Assim é que, em Hollywood, notáveis escritores como Scott Fitzgerald, Aldous Huxley, Gore Vidal, William Faulkner, James Age e Nathanael West, dentre outros, tornaram-se os contadores de muitas histórias que comoveram o grande público e garantiram o sucesso de vários empreendimentos. Saber se tais roteiros traziam a marca da criação literária já é uma outra questão, que talvez possa ser analisada a partir da postura de alguns desses escritores-roteiristas. Faulkner, por exemplo, não fazia segredo sobre a natureza de sua atividade em Hollywood: "Faço apenas o que me dizem para fazer; é um emprego, e pronto".

Pecados e pecadilhos

Por outro lado e em outra vertente, ao praticarem exercícios literários, cineastas e roteiristas via de regra imprimem a suas narrativas muito mais o teor, o timbre, o ritmo, o timing fílmico – e menos literário. E, além disso, mesmo que sua estória e trama seja de ação, de movimento, costumam lidar com o onírico, o sonho, e com o psicológico –que é, sabemos, elemento recorrente ao extremo no cinema, do expressionismo alemão a Stroheim, de Bergman a Buñuel, de Resnais a Godard. Não poderia ser de outra forma, pois são eles, antes e acima de tudo, pessoas do cinema.

Quase sempre, nesses exercícios literários:

- > a narrativa se faz em quadros, planos (longos, médios, curtos) e fotogramas, como num filme – e qual angulações e diferentes tomadas, utilizam mudanças de foco narrativo [de resto, recurso também comum e genericamente usado na literatura);

- > a narração geralmente corre veloz, fatos se dão e são relatados quase que a galope, denota-se certo açodamento: só que no cinema a ação é rápida e a passagem de tempo invisível para o espectador – mas não o é para um leitor; nos escritos de cineastas, de uma seqüência chega-se a outra sem intermediações, nem explicações, contando com a imaginação do leitor;

- > na maioria dos casos, os personagens são desenhados superficialmente, sem o esmero e detalhamento descritivo comum à literatura – mas como no cinema, um retratar rápido e sumário (já que o espectador vê), como se o leitor os estivesse vendo em imagem, numa tela de cinema ou de tv, e não delineando-os na imaginação; os personagens são moldados, agem e comportam-se como atores, que são vistos na tela, prontos, sem necessitar de muita elaboração;

- > assim também com as situações, fatos e com a própria ação: mesmo as reflexões e indagações que, por exemplo, um narrador faça, a respeito da natureza e do comportamento de personagens;

- > como que a analisá-los, aparecem como que anotações geralmente feitas em meio ou à margem do texto de roteiro cinematográfico.

Ora, em literatura tudo há de ser elaborado de acordo com os métodos próprios e intrínsecos à escrita ficcional. Na maioria das vezes, o texto literário de gente do cinema carece, em sua construção, de uma personalidade própria, ficando a meio caminho entre o cinematográfico e o literário: entre altos e baixos, persegue uma certa ilusão de fusão de formas, meios e linguagens.

“O romance, na verdade, sempre foi uma forma literária propensa ao diálogo com outras linguagens”, ensina o professor Flávio Carneiro, da UERJ, autor de Da matriz ao beco e depois, e o cruzamento da literatura com outras formas artísticas tomou um novo rumo, na década de 1980, com a produção de obras que “incorporam ao universo romanesco a linguagem do cinema, da televisão”.

Tudo isso propicia um exercício de reflexão e indagação: as incursões de cineastas e de profissionais de tv na literatura podem ser bem resolvidas e bem sucedidas? O caso é que um diretor de cinema ou de tv quando vai à literatura leva com ele uma bagagem da linguagem – o ritmo, o corte abrupto, o esperar pronto entendimento do leitor, qual um espectador – e assim comete pecados e pecadilhos marcantes (veja-se, por exemplo, Patrícia Melo, que de roteirista de tv impõe em seus livros uma narrativa toda cinematográfica, e ainda recebe elogios orquestrados da mídia...). Ao contrário, um escritor que vai para o cinema – como roteirista, quase sempre – o faz melhor, sabe adaptar, mostra-se mais seguro, os resultados são melhores: caso de Rubem Fonseca, dos exemplos clássicos dos escritores norte-americanos com Hollywood, e ainda de Jean Louis Carrière e Dalton Trumbo no cinema europeu.

Sob essa perspectiva, é comum cineastas em incursões literárias atuarem numa espécie de contramão, na via inversa do terreno do relacionamento – o do embate –literatura/cinema; os questionamentos sobre “apropriação de obras literárias por cineastas”, ao realizar filmes, ganha outro contorno, de sinal trocado: no caso, um cineasta não pega um livro e faz um filme (e vale lembrar que para Autran Dourado “não existe livro filmado, existe filme baseado em livro”), mas escreve um livro com elementos e cacoetes de filme. Sai de seu habitat original e vem para outro, mas utilizando o mesmíssimo instrumental, na vã tentativa de sintetizar o mimetismo palavra-imagem.

Desejariam cineastas e roteiristas, ao escreverem uma obra literária, responder a Stanley Kubrick –para quem “tudo que pode ser escrito e pensado pode ser filmado” – provando que ‘tudo que pode ser filmado poderia ser escrito?’...



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