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Piores versos da música brasileira

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Mantendo um visual seguro, de mestre-de-cerimônias, Roberto Carlos fez o sexo ser ouvido alto nas salas dos lares brasileiros ou nos toca-cassetes dos carros já nos anos 70.

Marco Polli - (26/02/2009)

O Brasil se orgulha de ser um país liberal, mas a verdade é que aqui perduram tabus fortes. Pensemos no tabu da leitura. Em um fim de semana qualquer, você até pode dar uma espiada nas pernas da esposa do amigo – se não for por muito tempo, até ele aceitará. Porém, se você fizer a desfaçatez de abrir um livro na frente de todo mundo e ficar lendo concentrado por mais de quinze minutos, uma linha moral será cruzada. É provável que você nunca recupere tal amizade. Esse é o motivo que faz as letras das músicas brasileiras serem tão sobrecarregadas de expectativas. Como quase ninguém lê, o nosso compositor acumula as funções de “intelectual francês”, poeta lírico, farol ideológico e guru espiritual.

Esse peso, claro, acaba sendo insustentável, como mostra a seleção a seguir:

1. De “Pra Ser Sincero”- Engenheiros do Hawaii
(Humberto Gessinger)

“Nós dois temos
Os mesmos defeitos
Sabemos tudo
A nosso respeito
Somos suspeitos
De um crime perfeito
Mas crimes perfeitos
Não deixam suspeitos”

Seguindo essa lógica didática, Camões teria escrito que amor “é ferida que dói e não se sente / Mas dor pressupõe alguém sentindo”. E o livro de Drummond teria se chamado “Claro Enigma – mas se fosse claro, não seria enigma”.

2. De “Ele Me Deu Um Beijo Na Boca” – Caetano Veloso

“Ele me deu um beijo na boca e me disse
A vida é oca como a touca
De um bebê sem cabeça”

Gessinger adicionaria: “Mas bebês sem a cabeça não usam toucas”.

3. De “Saharienne” - Chico César

“Saharienne saharienne saharienne
Saravá Sarah Vaughan
Quem te escravisaurou”

Em uma corruptela concretista/joyceana, muitos compositores igualam escrever letras a achar trocadilhos. O próprio Chico César tem um disco chamado “Aos Vivos”.

4. De “Chão de Giz” - Zé Ramalho

“Há tantas violetas velhas
Sem um colibri
Queria usar quem sabe
Uma camisa de força
Ou de vênus”

Fico imaginando aquele jogo da cabine à prova de som com o Silvio Santos dizendo “Você trocaria esta camisa de vênus por uma camisa de força, branquinha?” A luz vermelha acende, o participante grita: “Siiiimm!!”.

Eu já passei alguns dias na região do Alto do Paraíso. Lá tocam apenas Raul Seixas ou Zé Ramalho, na sorte Bob Marley. Mesmo quando uma banda está tocando Raul, escutam-se gritos de “toca Rauuuul!”. Mas a região é bonita.

5. De “Cavalgada” - Roberto Carlos
(Roberto Carlos / Erasmo Carlos)

“Vou me agarrar aos seus cabelos
Pra não cair do seu galope
(....)
Estrelas mudam de lugar
Chegam mais perto só pra ver
E ainda brilham de manhã
Depois do nosso adormecer
E na grandeza deste instante
O amor cavalga sem saber
E na beleza desta hora
O sol espera pra nascer”

Mantendo um visual seguro, de mestre-de-cerimônias, Roberto Carlos fez o sexo ser ouvido alto nas salas dos lares brasileiros ou nos toca-cassetes dos carros já nos anos 70. A família ouvindo junta sobre cavalgadas, cafés da manhã langorosos, côncavos e convexos, e até estrelas do céu voyeurs. Voyeur também era a "capa pendurada", que "assistia a tudo e não dizia nada". Uma beleza.

6. De “Timoneiro” - Paulinho da Viola
(Paulinho da Viola / Hermínio Bello de Carvalho)

“Não sou eu quem me navega
Quem me navega é o mar (....)
Meu velho um dia falou
Com seu jeito de avisar:
- Olha, o mar não tem cabelos
Que a gente possa agarrar”

Cabelos para serem agarrados na água parecem ser mais de uma cena de filme de terror. E agarrar cabelo não deveria ser um procedimento padrão de qualquer maneira.

Interessante que há muitas músicas com a temática do seja-o-que-Deus-quiser:

“Deixa a vida me levar (vida leva eu)” (Zeca Pagodinho)

“Vou deixar a vida me levar para onde ela quiser” (Skank)

“Nossa Senhora me dê a mão Cuida o meu coração Da minha vida, do meu destino.” (Roberto Carlos)

Mais para o norte, lembro agora só do “Jesus, take the wheel” (Jesus, assuma o volante). Esses americanos são mesmo obcecados por carros!

7. De “Morena de Angola” - Chico Buarque

“Será que no meio da mata, na moita, a morena inda chocalha?
Será que ela não fica afoita pra dançar na chama da batalha?
(...)
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA”

A letra vinha com rimas completas – tal “panela” e “canela" – até mudar em “canela” e MPLA” (emepêla), e o motivo não é nada bom. Esse Movimento Para a Libertação de Angola governou o país como partido único de 1975 a 1991. Pelos jornais, sempre ouvimos falar sobre o conflito pesado entre MPLA e a UNITA. Esta também não é boa coisa, mas temos mesmo que apoiar um dos dois? Quem vê imagens da guerra civil angolana tem certeza que a morena não estaria afoita para dançar na chama da batalha. A música foi lançada em disco pelo próprio Chico e pela Clara Nunes em 1980, com o Brasil também penando pela falta de democracia. Para a maioria das pessoas era apenas uma música alegre, arbitrariamente sobre alguma morena em Angola que chacoalhava.

8. De “Deu Pra Ti” - Kleiton e Kledir

“Deu pra ti
Baixo astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Quando eu ando assim meio down
Vou pra Porto e...bah! Tri legal
Coisas de magia, sei lá
Paralelo 30”

Então, podes crer. Já fui a Porto Alegre duas vezes. Gostei da cidade, mas, sei lá, coisas.

9. De “Pare!” - Zezé Di Camargo e Luciano (Cesar Augusto e Piska)

“Um grande amor
Não faz assim
Você se esconde de você
Dentro de mim”

Breganejo + Invasores de Corpos. Eu nunca ouvi essa música inteira, mas um trecho numa rodoviária foi o bastante para desperdiçar alguns bits na minha mente. Onde está a Lacuna Inc. quando mais se precisa dela?

10. De “Mais Uma Vez” – 14 Bis e Renato Russo (Flávio Venturini / Renato Russo)

“Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!”

Renato Russo se transformou de um punk brasiliense para um trovador-lair-ribeiro. Nessa letra, o mais irritante talvez seja o ar vago de “Tem gente enganando a gente”, que funciona tanto em letras políticas quanto existenciais. De fato, funciona para tudo - afinal, sempre tem gente enganando a gente - menos para boas letras.



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