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Os objetivos exatos da operação foram vagamente definidos, mas em todo caso os palestinos deveriam, mais uma vez, “aprender sua lição”. Desde o início, o movimento sionista sempre assumiu que representava justiça, progresso e racionalidade sofisticada, enquanto os árabes eram uma ralé primitiva e violenta

Tom Sergev - (12/02/2009)

A antiga primeira-ministra de Israel, Golda Meir, costumava dizer que odiava os árabes pelo que eles obrigavam os israelenses a fazer. O último ataque de Israel a Gaza pareceu reviver não só a autorretidão de Meir, mas também seu odioso pessimismo. Ela nunca acreditou na paz com os árabes e agora a maioria dos israelenses não acredita também.

A operação contra Gaza era esperada e praticamente inevitável. o momento parecia perfeito. Foguetes do Hamas haviam atingido cidades do sul de Israel e a pressão pública para que o governo agisse crescia com a proximidade das eleições gerais, agendadas para o final de fevereiro. Israel aproveitou os últimos dias de trabalho da administração Bush e o período de férias, que manteve a comunidade internacional alheia à questão por alguns dias. O céu claro de Gaza nessa época do ano permitiu ataques aéreos ininterruptos.

Os objetivos exatos da operação foram vagamente definidos, mas em todo caso os palestinos deveriam, mais uma vez, “aprender sua lição”, como em tantas outras ocasiões. Desde o início, o movimento sionista sempre assumiu que representava justiça, progresso e racionalidade sofisticada, enquanto os árabes eram uma ralé primitiva e violenta. Consequentemente, os árabes deveriam “entender” pela força a verdadeira natureza do sonho sionista e, em particular, seu poder e sua determinação implacável para torná-lo realidade.

Os tão falados “arabistas” da organização sionista e mais tarde do governo de Israel tentaram repetidas vezes encorajar forças “moderadas” no mundo árabe, induzindo os palestinos a desistir de suas aspirações nacionais. Por meio de promessas e ameaças, suborno e extorsão, essa aproximação passou a ser vista como uma política do “bate e depois assopra”.

Ao longo dos anos, os palestinos frequentemente aceitaram subornos de Israel, mas poucos retribuíram com “moderação”. Por muitas vezes Israel agiu contra civis palestinos, esperando que criticassem seus próprios líderes e os substituíssem por outros mais “moderados”. Essa política nunca funcionou. Fracassou inclusive em Gaza.

Quando o Hamas assumiu Gaza em 2007, depois de uma curta e afiada briga com seus rivais seculares do Fatah, Israel impôs um bloqueio à faixa, empurrando 1,5 milhão de palestinos em direção a uma catástrofe humanitária e destruindo as perspectivas de vida de uma geração inteira. Mas o Hamas apenas se fortaleceu.

Atacar as cidades israelenses com foguetes é obviamente tão cruel quanto atacar Gaza e, como qualquer outro país, Israel tem o dever de proteger seus cidadãos. A culpa imediata pelos últimos acontecimentos recai sobre o Egito, já que sua corrupção e ineficiência permitiram que o Hamas contrabandeasse seu arsenal para Gaza.

No entanto, é preciso ressaltar que o Hamas não é meramente uma organização terrorista, mas também um movimento religioso nacional e genuíno, apoiado pela maioria das pessoas em Gaza. A tentativa de Israel de banir o movimento com bombas não parece fadada ao sucesso. Assim, três semanas após as operações israelenses começarem, o Hamas estava abalado, mas não destruído.

Apesar das perdas horrendas, incluindo famílias inteiras e centenas de crianças, o Hamas recusou a rendição, o que obviamente aumentou o número de vítimas, mas também deu à luz a um mito heróico de resistência. E certamente pode agora reivindicar para si a maioria dos elementos da história mitológica de Israel, incluindo a noção da briga entre poucos e muitos, os fracos contra os fortes, David e Golias. Nesses dias em Gaza, David fala árabe.

O ataque de Israel trouxe novamente repórteres de todo o mundo para a região. Muitos deles se perguntam por que israelenses e palestinos simplesmente não concordam em dividir a terra. Hoje, de fato, os líderes de Israel apoiam a solução de dois estados, que previamente havia sido defendida somente pela extrema esquerda. E os líderes palestinos, ainda que não os do Hamas, aceitam essa saída. Aparentemente, faltaria apenas acertar os detalhes do acordo. Infelizmente o problema é infinitamente mais complicado que isso. O conflito não é meramente por terra, água e reconhecimento mútuo. É por identidade nacional. Ambos, israelenses e palestinos, se veem vivendo em sua Terra Santa. Qualquer conciliação territorial os compeliria a renunciar à parte de suas identidades.

Direito de retorno

A última erupção do conflito provavelmente será lembrada como outro passo em uma longa marcha de loucura que começou em 1967. Após a Guerra dos Seis Dias, o governo de Israel cogitou transferir centenas de milhares de palestinos de Gaza e reassentá-los na Cisjordânia, o que poderia tornar a situação infinitamente menos convulsionada. Mas os planos ficaram no papel, porque alguns dos mais poderosos membros do governo de Israel, incluindo Menahem Begin e Moshe Dayan, acreditavam que a Cisjordânia deveria ser reservada exclusivamente para o assentamento judeu.

Esse foi, provavelmente, o maior erro da história de Israel. Com cerca de 300 mil israelenses vivendo hoje na Cisjordânia e mais 200 mil na parte oficialmente árabe de Jerusalém, é quase impossível desenhar fronteiras sensatas e alcançar a paz. Além da surpreendente dificuldade de sair da Cisjordânia e dividir Jerusalém, está a demanda dos palestinos a Israel pelo “direito de retorno”, uma reivindicação dos refugiados que saíram ou foram tirados de suas casas durante a guerra de 1948-49. Muitos deles e seus descendentes vivem em Gaza.

Recentemente, com a ascensão do Hamas e a crescente militância de alguns colonos judeus, esse conflito irracional tem também assumido um caráter mais religioso – e, por isso, se tornou mais difícil de resolver. Extremistas islâmicos, assim como os fundamentalistas judeus, fizeram do controle da terra parte de sua fé. E, para eles, essa fé é mais importante que a vida humana.

E assim, enquanto o mundo se engaja em debates fúteis e moralistas sobre quem está certo e quem está errado, cada vez mais israelenses não acreditam na paz. eles sabem que Israel pode não sobreviver sem paz, mas de guerra em guerra foram perdendo seu otimismo. O mesmo aconteceu comigo.

Eu pertenço a uma geração de israelenses que cresceu acreditando na paz. No final da Guerra dos Seis Dias de 1967, eu tinha 23 anos e nenhuma dúvida que 40 anos mais tarde a guerra Árabe-Israelense estaria terminada. Eu não acredito mais na resolução do conflito. As posições são simplesmente muito divergentes neste momento.

Eu realmente vislumbro um melhor gerenciamento do conflito – incluindo conversas com o Hamas. Muitos governos declararam sua recusa em negociar com organizações terroristas, mas no fim a maioria o faz. Nós temos uma experiência similar. Anos atrás, Israel se recusou a falar com a organização de Libertação da Palestina de Yasser Arafat. Na verdade, ativistas israelenses foram presos por fazer isso. Finalmente em 1993, Arafat, o primeiro ministro israelense Yitzhak rabin e o ministro das relações exteriores Shimon Peres apertaram as mãos em frente à Casa Branca, em Washington.

Os tão citados acordos de Oslo entre Israel e os palestinos falharam. Primeira e principalmente devido à pretensão de fazê-los a pedra angular pela paz permanente, em vez de ir passo a passo de um problema específico a outro. Sob George W. Bush nasceu outra ficção diplomática, chamada “o Processo de Paz”. De acordo com o “roteiro” de Bush pela paz, o conflito israelo-palestino deveria ter terminado no final de dezembro passado. Mas não havia tal “processo”. em vez disso, a opressão aos palestinos continuou e foi intensificada, mesmo depois de Israel ter evacuado vários milhares de colonos de Gaza em 2005. Mais assentamentos foram feitos na Cisjordânia.

Muitos israelenses mantêm grandes esperanças em relação à administração de Barack Obama, um amigo declarado de Israel. A administração de Obama pode ser mais útil e bem-sucedida que a de seu antecessor por tentar meramente gerenciar o conflito, focando em uma limitada, porém urgente meta a ser atingida: tornar a vida mais suportável para israelenses e palestinos.




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