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O novo belicismo do Canadá

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Ratificado no cargo no ano passado, o premiê conservador Stephen Harper tenta deixar de lado a fama de “simpático” de seu país para colocá-lo entre os figurões da política mundial. E a guerra no Afeganistão parece ter sido a ocasião perfeita para essa nova postura

Marc-Olivier Bherer - (13/02/2009)

Até recentemente, o Canadá era uma potência medíocre que assistia passivamente ao declínio de sua influência global. Com uma política externa baseada na “compaixão”, optava pelo multilateralismo como uma maneira de se distinguir de Washington. Agora, porém, tudo mudou. A ordem do dia é endurecer o tom, a fim de recuperar o prestígio perdido o mais rápido possível.

Sem dúvida, essa transformação é consequência da militarização das relações internacionais nos últimos anos. Mas decorre também da percepção do primeiro-ministro conservador, Stephen Harper, de que esse é o melhor terreno para enfrentar a hegemonia do Partido Liberal, predominante no cenário político canadense desde sua fundação, em 1867. Parece ter funcionado: ao apostar no recrudescimento da política externa para ampliar sua influência no país, Harper foi reeleito em outubro de 2008.

A guerra no Afeganistão foi a ocasião perfeita para a nova postura. Afinal, quando Harper chegou ao poder pela primeira vez, em 2006, a política interna vivia um período de calma. As contas públicas estavam positivas, o sistema financeiro americano ainda não havia desabado e a ameaça separatista de Quebec parecia extinta. Era um período de prosperidade sem igual. Apenas o front exterior trazia grandes entraves, já que desde a invasão do Afeganistão, em outubro de 2001, o Canadá, então sob governo liberal, participava ativamente do conflito.

Pouco depois da vitória de Harper, o Afeganistão reapareceu na ordem do dia. Dois eventos coincidiram para lembrar os canadenses dessa guerra, frequentemente dita “esquecida”: o primeiro, em fevereiro de 2006, foi o redirecionamento das tropas de Cabul para Kandahar, província no sudoeste, considerada uma das mais violentas do país; o segundo foi o debate sobre a prolongação da presença canadense na guerra. A retirada estava planejada para daqui a alguns meses, mas Harper obteve três anos suplementares com facilidade.

A rejeição dessa guerra pela opinião pública já vem de longa data, mas o primeiro- ministro impede todos os debates, emprestando dos americanos slogans nacionalistas, do gênero “sustentemos nossas tropas”. Tanto que o registro da “guerra contra o terror”, caro a George W. Bush, não lhe desagrada.

Diplomacia mais robusta

Porém, o terrorismo não é sua principal preocupação. Como reforça Duanne Bratt: “ele desejava utilizar essa presença no Afeganistão para recolocar o Canadá no cenário internacional. Na sua visita ao Afeganistão (em março de 2006, sua primeira viagem ao estrangeiro depois da eleição), Harper afirmou que essa missão servia para defender os interesses do Canadá e testar sua liderança. Alguns dias mais tarde, em seu discurso de posse, o primeiro-ministro se comprometeu a desenvolver uma diplomacia mais robusta, reforçar o exército e fazer melhor uso do dólar canadense. Esse tipo de retórica é frequentemente empregada pelos chefes de estado canadenses. Mas, contrariamente aos seus predecessores, Harper colocou os investimentos necessários para respeitar seus compromissos”.

Dessa forma, pouco depois do início de sua gestão ele aumentou consideravelmente o orçamento do exército, de US$ 1,1 bilhão por ano para US$ 17,1 bilhões. A quantia foi colocada à disposição do Ministério da Defesa para compra de materiais bélicos.

Para o general canadense Rick Hillier, os talebãs são “assassinos detestáveis” e as forças ocupantes, um orgão do Estado como outro qualquer, com o “trabalho de matar”

Desde 1998, o Canadá se habituou a registrar grandes excedentes orçamentários. Mas mesmo após os atentados de 11 de setembro de 2001 e do aumento das preocupações do ocidente com a segurança, essa liquidez ainda não tinha resultado numa alta significativa dos fundos concedidos ao exército. Sob essa lógica, em 2003, o primeiro-ministro liberal, Jean Chrétien, sabendo que sua saída estava próxima, se deu o luxo de não comprometer seu país no Iraque. Uma decisão que Harper reprovava na época.

De qualquer forma, Chrétien fez a cama da revolução conservadora que Harper desejava conduzir, enfraquecendo consideravelmente o estado construído pelos liberais durante 30 anos: acabou com a dívida colocando em prática um rude programa de “desengorduramento” e deu aos conservadores a liquidez necessária para transformar o país.

Os anos de vacas magras coincidiram com o declínio da doutrina militar canadense voltada para operações de manutenção da paz. Um dos últimos episódios com essas características foi o genocídio de 1994 em Ruanda. Comandante das forças das Nações Unidas naquele país, Romeo Dallaire declarou, em 2003, sua incapacidade de impedir o massacre e mobilizar a comunidade internacional.

O antigo chefe das forças armadas canadenses, general Rick Hillier, se revelou um ótimo parceiro para Harper. Ele foi o primeiro dos seus homólogos a se formar nos estados Unidos e a defender a cultura do combate e da “liberdade”, com um tom próprio dos generais americanos – muito distante do perfil geralmente adotado pelos militares canadenses. Defendendo publicamente as orientações seguidas por Harper, afirmou em 2005: “Creio que o mundo espera mais do Canadá; que o país tome para si mais responsabilidades. Mas essas responsabilidades e a oportunidade de influenciar o curso das coisas somente são acordadas se há engajamento em uma missão específica”.

E essa missão era o Afeganistão. Com frequência, Hillier emprega um tom belicoso, sem esquecer de evocar algumas fanfarronices texanas, e toma regularmente a palavra para pedir mais recursos. Os talebãs são para ele “assassinos detestáveis e inescrupulosos”, e as forças canadenses “não são um órgão do Estado como outro qualquer: nosso trabalho é matar”.

Colaboração estreita com os EUA

Hillier deixou o cargo em julho de 2008 e foi substituído pelo general Walter J. Natynczyk, mais discreto, mas igualmente formado nos Estados Unidos. Uma nomeação que persegue a integração, pelo exército canadense, da doutrina da “segurança” americana. Trinta anos antes, o Canadá era tido como um “refúgio contra o militarismo” de seu vizinho...

Fiel ao ponto de vista dos conservadores canadenses, Harper crê que a relação com os Estados Unidos é vital para o país. O partido liberal não está longe de defender essa ideia, mas, no seu seio, há ainda divergências sobre o quanto é necessário agradar Washington. Para o primeiro-ministro, ao contrário, uma colaboração estreita com os Estados Unidos constitui a alavanca essencial para permitir que Ottawa faça diferença de novo no mundo.

“A aceleração da mundialização permite às novas potências, como a Rússia, China e Índia se afirmarem. Ao mesmo tempo, 80% do PIB canadense é vinculado aos Estados Unidos e, cada vez mais, os americanos comercializam com outros países. A assimetria crescente das relações entre o Canadá e os Estados Unidos inquieta Harper. Investir mais no Afeganistão tornou-se para ele um meio de compensar o hiato que se forma”, explica Jean Daudelin, especialista em política estrangeira canadense e professor da Universidade de Carleton.

A iniciativa certamente deixa a Casa Branca muito satisfeita, pois o apoio canadense alivia o já esgotado exército americano. E o reforço fornecido não se limita apenas ao aspecto militar: ele legitima igualmente esse conflito perante a opinião pública nos Estados Unidos ao fazer o contraponto à guerra do Iraque, em que vários países da coalizão inicial preferiram retirar suas tropas.

O cálculo efetuado por Harper lhe dá razão: ultimamente, o Canadá teve papel decisivo nos diferentes negócios internacionais. No ano passado, em Ottawa, uma comissão independente condicionou a prolongação da missão canadense no Afeganistão até 2011 à chegada de reforços vindos de países aliados para combater no sudoeste do país. O anúncio do envio de tropas suplementares pela França não tardou. Reunidos em Bucareste, em abril último, os membros da organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) acolheram calorosamente Nicolas Sarkozy.

“Stephen Harper julgou que os 700 militares que a França enviaria à fronteira paquistanesa permitiriam desafogar as forças americanas”, analisa Christian Rrioux no jornal de Montreal, Le Devoir. Essa decisão marcou também o fim, segundo ele, das “‘tensões históricas’ que opõem a França aos Estados Unidos e ao Reino Unido”.

Logo depois, foi revelado no Canadá um relatório secreto da Otan enfatizando a falta de equipamentos e de preparo dos militares franceses mortos numa emboscada, no Afeganistão, em 18 de agosto do ano passado. Esse documento “vazou” no jornal de Toronto, The Globe and Mail de 21 de setembro, na véspera do debate na Assembléia Nacional francesa sobre a manutenção de soldados no país. O primeiro-ministro François Fillon denunciou, nessa ocasião, “a mentira e a desinformação” do relatório da Otan. Todavia, ele anunciou o envio de tropas e materiais suplementares.

A imagem de “país simpático” que o Canadá mantém no exterior ajuda a legitimar essas decisões. Se somente os Estados Unidos estivessem envolvidos no conflito, talvez a decisão francesa fosse diferente. Da mesma forma, Harper endossa com assiduidade o papel de bom samaritano. Até mesmo se prontificou a fazer lobbies no exterior, defendendo, por exemplo, um tratado de livre-comércio (TLC) com a Colômbia, que envolvia principalmente os americanos.

Em novembro de 2008, o país assinou um Tratado de Livre Comércio com a Colômbia para abrir as portas sul-americanas às empresas multinacionais da mineração

O acordo abrirá o país sul-americano – e seus recursos minerais – às multinacionais sem que justos royalties sejam cobrados, o que levará à ruína pequenos agricultores colombianos, que se tornarão incapazes de fazer concorrência aos produtos subvencionados do Norte.

Esses fatos não foram ignorados pelo Congresso americano, dominado pelos democratas e pouco inclinado ao livre-mercado. Bush batalhou firme para conseguir a assinatura desse tratado. Harper se dirigiu diretamente aos membros do Congresso, numa visita a Nova Iorque, em setembro de 2007, para pedir a ratificação do acordo. Na ocasião, afirmou: “Se os Estados Unidos viram as costas aos seus amigos na Colômbia, essa será a maior derrota para nossa causa, que não importa qual ditador sulamericano poderia esperar nos infligir”. o TLC entre Colômbia e Canadá foi assinado em novembro de 2008, e o dos Estados Unidos até agora não foi ratificado pelo Congresso americano.

Força das convicções ideológicas

Durante a campanha eleitoral para as eleições legislativas diferentes opositores tentaram descrever Harper como um “Bush bis”. Essa caricatura negligencia um aspecto importante da sua personalidade: a força de suas convicções ideológicas. Nunca um chefe de governo canadense tinha sido dominado por tais ímpetos. Sua cultura política é profundamente impregnada pelos Think tanks (centros de pesquisa e análise da conjuntura)- conservadores e próximos dos interesses privados. Harper, ele mesmo, dirigiu uma dessas organizações, de 1998 a 2002, que o acompanha desde o início de sua carreira política: a Coalizão Nacional dos Cidadãos.

A retirada das tropas canadenses do Afeganistão está prevista para 2011. Mas a chegada à Casa Branca de Barack Obama, que considera essa guerra o principal assunto e a batalha central contra o terrorismo, forçará Ottawa a retomar o debate sobre a questão.

O multilateralismo defendido por Obama serve apenas para exacerbar a necessidade canadense de usar a alavanca afegã na sua relação com os Estados Unidos.




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