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Vida e morte no museu

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Véronique Roy logrou desenvolver em “Museu” (Editora Bertrand Brasil) um thriller de sucesso sobre uma polêmica que, na vida real, vem acendendo ânimos desde o surgimento da teoria da evolução das espécies.

Romilda Raeder - (13/03/2009)

Naqueles dias, quem passasse defronte ao Museu sentia-se feliz por não estar ligado àquele lugar cada vez mais sangrento. A primeira vítima fora a bióloga Anita Elberg – cujo corpo, dissecado de forma macabra, havia sido descoberto numa sala repleta de móveis antigos – “uma espécie de galeria de horrores” e vitrines antigas, em que “todas as espécies que a criação havia podido engendrar – lagartos, pássaros e mamíferos – flutuavam, com ar pensativo, no formol, alguns espécimes exibindo os órgãos em forma de guirlandas esbranquiçadas”.

Mas ninguém ainda imaginava que a morte (anterior) do dr. Ho Wan Xanh é que realmente inaugurara a série de crimes que, por algum tempo, deixaria a polícia parisiense desconcertada e impotente.

Tendo como pano de fundo um museu de história natural, a francesa Véronique Roy logrou desenvolver um thriller de sucesso sobre uma polêmica que, na vida real, vem acendendo ânimos desde que Darwin pôs as autoridades religiosas em polvorosa ao criar a teoria da evolução das espécies.

Criacionismo e evolucionismo

Qual a verdade sobre a origem do homem? Teria evoluído do macaco? Ou teria sido forjado do barro por Deus, coroando uma semana de muito trabalho criador para aplacar Sua solidão?

Evoluído do macaco, parece que não foi. Pelo menos, nem Darwin defendeu tal tese: segundo ele, o que existiu foi um ancestral comum ao homem e ao macaco, que seguiram, cada qual, seu próprio rumo. Adotado pela ciência, o evolucionismo, baseado em evidências estudadas pela antropologia, arqueologia, cosmologia, geologia e algumas outras logias, defende que o universo teria surgido há cerca de 13 bilhões de anos e a vida na Terra há menos de quatro bilhões – além de inserir o homem na natureza, uma espécie entre outras.

Já o criacionismo, que tem como base os escritos bíblicos e a fé religiosa, surgiu formalmente no fim do século XVII, quando Usher, bispo anglicano, decidiu, com base nas escrituras judaico-cristãs, que o mundo foi criado, pronto, em 4004 a.C. – assim, com essa baita exatidão. Hoje, contudo, as coisas não são tão absolutas. Além do criacionismo radical, que interpreta as escrituras ao pé da letra, há, entre outros, o chamado evolucionismo teísta. Grosso modo, e cada qual com suas nuances, essas ramificações aceitam uma evolução decorrente da ação divina.

Criacionistas e evolucionistas

É fato que a teoria darwiniana não explica tudo: há vários aspectos que ela não consegue explicar (pelo menos ainda), como o famoso “elo perdido”. Contudo, seus princípios, de um modo geral, são amplamente aceitos pelos cientistas.

O criacionismo, por sua vez, ao longo dos últimos três séculos, não se rendeu às evidências científicas – até porque seus seguidores continuam não aceitando completamente as ciências naturais –, mas algumas vertentes tendem a diminuir a distância entre criação divina e visão científica.

Se, por um lado, há evolucionistas que negam totalmente qualquer possibilidade criacionista, alguns criacionistas também rejeitam enfaticamente qualquer sombra de evolucionismo. E ambos se debatem de forma mais ou menos contundente, de acordo com o lugar e o momento.

Nos Estados Unidos, há décadas, ora uns, ora outros, levam as diferenças a julgamento. Há pouco mais de 40 anos, no sul – onde os criacionistas são mais ativos – organizou-se a Sociedade para a Investigação da Criação; e há uns 30 anos fundaram o Creation Research, para publicar textos criacionistas e lutar para que a teoria fosse aceita nas escolas públicas. E se, no passado, os evolucionistas tiveram que recorrer à Justiça para que suas teorias fossem alvo dos estudos escolares – e foram vitoriosos –, criacionistas também recorreram à Justiça, recentemente, na tentativa de tornar obrigatório nas escolas públicas o ensino da criação bíblica. Não levaram. O juiz entendeu que não há bases científicas que justifiquem a medida. Mas quem acompanha o mundo por meio das notícias – principalmente pela internet – sabe que eles nem pensam em desistir. E sempre que podem lançam seus ataques contra os que não pensam como eles.

Engana-se, contudo, quem pensa que a discussão fica lá entre os mui religiosos evangélicos estadunidenses (os católicos são bem mais abertos às ciências naturais). Aqui, no Rio de Janeiro, a então governadora (evangélica) Rosinha Matheus, conseguiu tornar lei o ensino do criacionismo nas escolas públicas estaduais. E o Instituto Mackenzie atravessou fronteiras para, em São Paulo, acrescentar a teoria à formação de seus alunos brasileiros. Muitos dos quais, como revelou uma reportagem global, há poucas semanas, acreditam firmemente que o mundo – e tudo que nele existe, inclusive o ser humano – foi criado há cerca de parcos seis mil anos e em minguados seis dias. Apesar dos geólogos. Apesar dos paleontólogos, arqueólogos, antropólogos. E de quantos mais apresentem evidências – vamos e venhamos, mais que convincentes – de que um ancestral comum ao homem e ao macaco já andava pelo planeta há infinitamente mais tempo.

Implicações nada inocentes

O que as pessoas desavisadas não sabem é que o criacionismo encontra seu viés político entre os setores mais conservadores dos Estados Unidos, os mesmos que dão sustentação ao fundamentalismo da era Bush.

Segundo Véronique Roy, “o debate entre criacionistas e evolucionistas é um fato na sociedade norte-americana. Baseado no fundamentalismo protestante, ele não deixa de ter influência sobre a política dos Estados Unidos. O debate com os criacionistas não existe na França, mas tais questões começam a agitar os espíritos. A vigilância se impõe...”

De volta ao Museu

É justamente o embate entre evolucionistas e criacionistas que forneceu o mote para a construção dessa trama bem estruturada, que tanto leva o leitor às entranhas de um inusitado museu de história natural – ao mesmo tempo vivo, produtivo, e atulhado de coisas empoeiradas e até perdidas em meio a uma desorganização inacreditável –, quanto o apresenta às coisas terríveis de que podem ser capazes algumas mentes doentias quando entregues ao radicalismo e a interesses escusos.

Tudo começa quando um meteorito cai no quintal de uma bretã aposentada, pulverizando a espreguiçadeira em que estivera aproveitando seus últimos dias de verão e da qual levantara por um minuto, para pegar um suco de laranja na cozinha.

Para estudar a pedra – transportada para o Museu de História Natural – é chamado um renomado geólogo e paleontólogo de Harvard, Peter Osmond, ateu de carteirinha. Osmond se sente bastante contrariado ao descobrir que terá de trabalhar com a Igreja, na pessoa do padre Marcello Magnani, famoso astrofísico, enviado do Vaticano e, claro, de visão criacionista, embora não radical. A missão de ambos: verificar se o meteorito, anterior à criação do sistema solar, pode provar a origem extraterrestre da vida.

A eles se juntará a conservadora Léopoldine Devair, destacada pelo museu para dar-lhes suporte documental e que resolve colaborar com o trabalho dos dois, preocupada com o desaparecimento, lá mesmo, de um certo baú contendo documentos há muito perdidos.

Começam os crimes e, durante uma semana, os longos corredores e as sombrias salas do museu se transformam num cenário de filme de horror, em que cientistas loucos e um assassino inteligente e sem escrúpulos dificultam o trabalho dos detetives. Para Osmond e Magnani, todavia, uma coisa vai ficando cada vez mais clara: por trás de tudo, existe uma mente intelectual, cujos atos, motivações e modus operandi só poderão ser entendidos por outro cientista. Caberá a eles, então, descobrir quem está por trás dos atos bárbaros que estão abalando Paris.

Museu, de Véronique Roy, publicado pela Bertrand Brasil, já vendeu horrores (além da França) na Alemanha, Coréia do Sul, Grécia, Holanda, Hungria, Portugal e Rússia, e tem tudo para cair também no gosto brasileiro. Não à toa: afinal, é o único romance a integrar a bibliografia sobre evolução do Centro Nacional de Pesquisas da França.

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