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EUA

A “América profunda” está de volta

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Nos artigos do Le Monde Diplomatique, retratos do ultraconservadorismo que alimenta a ascensão de Sarah Palin e do Tea Party

(08/02/2010)

O lado mais conservador da sociedade norte-americana mostrou os músculos na noite deste sábado. O chamado Tea Party — uma articulação informal, mas capilarizada e muito ativa, dos setores que não se conformam com a presença de Barack Obama na Casa Branca — realizou sua convenção nacional em Nashville, Tennesse. Provenientes de todas as partes do país, os cerca de 1100 delegados fizeram de Sarah Palin, ex-candidata a vice-presidente, sua grande estrela.

Oradora final, ela foi aplaudida de pé durante vários minutos. Em seu discurso, pelo qual teria cobrado 100 mil dólares, desfiou um conjunto de chavões neoliberais e neoconservadores pouco coerentes entre si — mas muito atrativos para a plateia a que se dirigiam. Fustigou o aumento das despesas do governo, resultado tanto do esforço para relançar a economia (e aliviar a dor dos mais atingidos pela crise), quanto para salvar instituições financeiras. Comparou o déficit público a um “roubo generacional”. Pediu apoio aos candidatos (às eleições legislativas) que “entendam os princípios do livre-mercado e da responsabilidade pessoal”, retomando um conceito muito repetido por Margareth Thatcher, para repelir políticas sociais distributivistas. Preconizou, ao mesmo tempo, a retomada do papel imperial dos Estados Unidos — a grande fonte do déficit público. Sugeriu que Obama é antipatriótico, “ao pedir desculpas pela América”. Retomou a ideia de que o país está em guerra contra o terror — e “para vencê-la, precisamos de um comandante-em-chefe, não de um professor de Direito”. Afirmou que os EUA “estão prontos para outra revolução”, procurando inflar o crescimento do Tea Party e apresentá-lo como um contraponto ao poder de mobilização demonstrado por Obama em sua campanha à Presidência.

Exageros à parte, o movimento que fez sua convenção nacional sábado, em Nashville, é um dos grandes fenômenos do cenário político atual, nos EUA. Articulando ideias ultra-conservadoras com elementos da organização horizontal em rede, o Tea Party realizou centenas de reuniões no ano passado. Aproveita-se das dificuldades evidentes de Obama em seu início de mandato, das frustrações que se seguiram e da paralisia da esquerda. Entre diversos textos que jogam luz sobre a direita norte-americana, na Biblioteca Diplô, um, em especial, ajuda a compreender o caldo de cultura de que se nutre este movimento.

Publicado em fevereiro de 2004, foi redigido por Tom Frank, diretor da revista The Blaffer, de Chicago. Descreve uma importante alteração na paisagem político-ideológica dos EUA, iniciada nos anos 1960 e com repercussões ainda hoje. Nesse período, relata Frank, o Partido Republicano conseguiu construir, para si mesmos uma imagem mais complexa do que a de simples “representante dos patrões e da elite econômica”. Ele associou a si mesmo o selo de defensor “do povo humilde”, da “América profunda” que se orgulha de sua capacidade de iniciativa, crê em Deus e rejeita intelectualismo e “intromissão” do Estado.

Também foi capaz de construir, para a esquerda, uma caricatura impopular: a de uma minoria esnobe e arruaceira, que usa piercing,defende o aborto e o casamento homossexual, prefere carros importados, desperdiça dinheiro em restaurantes e bares caros e está sempre disposta a propor mais gastos públicos e aumentos de impostos.

Detalhe desconcertante: esta virada tornou-se mais fácil, sempre segundo Frank, porque a própria esquerda norte-americana a alimenta. Ela transformou sua militância numa espécie de selo que lhe confere pedigree e a distingue dos cidadãos comuns — vistos majoritariamente como como “caipiras” e ignorantes. Despreza os cidadãos, que agitam bandeiras de estrelas e listras — ao invés de tentar convencê-los a se somarem a combates políticos que poderiam ser majoritários. Faz da ação política mais uma “terapia individual” do que o desejo real de promover movimentos transformadores.

O ensaio provocador de Frank pode ser lido aqui. Também vale a pena consultar as dezenas de artigos disponíveis na pasta sobre os Estados Unidos da Biblioteca Diplô.



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