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Comentários sobre esse texto:

A arma da impostura

O texto abaixo foi escrito pelo Sr Rodrigo Barros Gewehr (o segundo dele neste blog), que conheci quando morava em Joaçaba - SC (sua família ainda mora lá), mas que atualmente mora em Paris, onde faz doutorado na universidade de Paris VII

A ronda dos obstinados
Sobre a interiorização da Universidade Pública

Já era tempo! Finalmente o projeto de interiorização da universidade pública começa a ganhar relevo em Santa Catarina. A Educação é um dever do Estado, dever estabelecido constitucionalmente. No entanto, o que víamos no âmbito do ensino superior, principalmente em regiões mais afastadas dos grandes centros, era um domínio quase absoluto das instituições de ensino privado. Essa prevalência do setor privado é uma lástima para o país e para a Educação, pois que estas instituições, em sua imensa maioria, pensam a Educação num sentido mercadológico, mesmo que o efeito secundário seja alguns programas pontuais de benefício social.
O que está em jogo, porém, é algo muito mais sério e profundo. A universidade não é apenas responsável pela formação técnica, mas também, e principalmente, pelo despertar do senso político, pela crítica às cristalizações sociais; e não somente no sentido de haver disciplinas específicas nessas áreas, mas pelo próprio ambiente acadêmico, historicamente ligado aos movimentos sociais contestatórios. Isso cria um traço hereditário que permeia (ou deveria permear) a própria representação da Universidade.
Ocorre que nesta seara da crítica social, as instituições privadas são em geral nulas; são em geral instrumentos favorecedores da alienação social e da lógica financeira. Os Centros Acadêmicos dessas instituições mostram tal deficiência com bastante clareza: são desimplicados politicamente e no mais das vezes podados de sua ação por uma subserviência ao poder econômico das Reitorias, que utilizam de barganhas e favorecimentos para aplacar o que poderia ser um movimento estudantil legítimo. Uma vez mais, é a lógica do mercado que invade as filigranas da Academia e desmantela sorrateiramente a resistência das lógicas opostas a essa mercantilização do processo ensino-aprendizagem.
Todavia, se a Educação é tomada como um bem de consumo qualquer, e se as pessoas cedem a esta relação, a formação crítica da sociedade inteira está em jogo, pois são os egressos das universidades que serão os formadores das gerações futuras.
O Jornal Cidadela (Joaçaba) da semana passada apresentava uma matéria sobre a Universidade Federal que vai se instalar em Chapecó, e havia no artigo certo tom de lamento, dizendo que as pessoas da região não conseguirão ingressar nesta universidade, dada a difícil equação entre número de vagas e concorrência. Talvez aconteça mesmo tal fato. No entanto, isso está longe de ser o mais importante, assim como a gratuidade da Universidade pública também não deve ser o elemento central de análise. A universidade pública vai trazer desenvolvimento regional, vai obrigar o mercado obscuro dos cursinhos a se desenvolver, vai gerar a médio e longo prazo a necessidade de as escolas se adaptarem a um processo seletivo diferenciado e sem dúvida mais sério (ainda que questionável) do que a seleção praticada pelas instituições privadas. Muitas destas vão certamente falir, o que a curto prazo pode ser entendido como um prejuízo, mas no médio e longo prazo será sem dúvida um benefício, tanto em termos técnicos quanto de formação geral.
A universidade pública, com todas suas dificuldades, segue sendo nossa maior fonte de produção científica, e luta a duras penas para se manter crítica face ao quadro deplorável do comércio de ensino superior. É claro que estas novas universidades levarão certo tempo para ganhar relevância e formar um quadro técnico consistente, mas é preciso dar o sinal de partida. Além disso, esse movimento de interiorização das universidades públicas ao menos freia um pouco o investimento absurdo do Governo Federal em vagas no setor privado. O dinheiro público, que é nosso, tem que ser investido e bem gerido em instituições que também pertencem, em tese, a todos os cidadãos e não a alguns poucos empresários do ensino.
Neste exato momento, em frente à prefeitura de Paris, ocorre, há mais de 200 horas, a chamada “Ronda dos Obstinados”. Trata-se de um movimento que mantém vigília incessante, 24 horas por dia, a fim de protestar contra a reforma universitária proposta pelo governo francês, reforma esta que significa, grosso modo, uma privatização lenta da Universidade. As pessoas vêm e vão, se substituem, porém conservam o movimento de cerco e vigília no intuito de demarcar a resistência de professores, alunos e simpatizantes da causa universitária. Ora, tal espírito de coesão, tal capacidade de mobilização, é sem dúvida fruto de uma história complexa, mas também resultado direto de um ensino público e independente, onde a reflexão crítica se mantém aliada à excelência técnica.
Nós, ao invés de festejar essa iniciativa de nosso governo, corremos o risco de não enxergar, por interesses econômicos imediatistas, a riqueza potencial deste projeto de interiorização. De minha parte, eu felicito a iniciativa e sou mão-de-obra, mesmo que indireta, para vê-la crescer com qualidade e, sobretudo, senso profundo de universalidade.


Site: A ronda dos obstinados
teri roberto guérios
2009-04-02 19:10:47

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