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abril 2005



RELIGIÃO

Milagres da multiplicação de votos

O crescimento das denominações evangélicas no Brasil modificou o padrão dissimulado de se fazer política dentro das Igrejas, mas deve-se relativizar seu peso eleitoral e a força do “clientelismo religioso”


Regina Novaes

O “savoir faire” das autoridades religiosas garantia fluxos e vasos comunicantes para promover as “misturas” institucionalmente não comprometedoras entre religião e política

Religião e política não se misturam! Esta foi uma das frases mais ouvidas durante as eleições municipais de 2004 no Brasil. Esteve muitas vezes na boca de autoridades religiosas e de candidatos de todas as religiões. Vejam algumas manchetes de muitas edições de jornais e revistas das duas maiores cidades brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro: “Evangelho segundo os políticos” (Revista Veja, junho, 2004); “Política em cena com Pastor” (Jornal O Dia, 27 de agosto de 2004); “César: Conde e Crivella usam o nome de Deus pra manter eleitor cativo” (IG 26/8/2004); “Infame Mistura no Púlpito Evangélico”(O Globo18/08/2004); “Não misturo Religião com Política diz Crivella” (Jornal do Brasil 24 de setembro de 2004); “Guerra por votos Evangélicos ” (O Dia, 11 de outubro de 2004); “Bittar condena mistura de religião com política” (O Dia, 11 de setembro de 2004); “Guerra Santa na Baixada” (O Globo, 11 de outubro de 2004).

Como explicar a recorrência deste tema, em eleições democráticas, neste início de século XXI? Voltemos um pouco no tempo. A separação entre religião e política faz parte do ideário republicano. No Brasil, desde o final do século XIX, esta separação habita a república de nossos sonhos. Ao mesmo tempo, bem o sabemos, na história do Brasil real, com variações surpreendentes em termos de perfil ideológico de candidatos e partidos, instâncias da Igreja Católica, denominações evangélicas históricas, líderes das religiões espíritas Kardecistas e afro-brasileiras participaram acordos eleitorais. Ao longo do tempo, estes “funcionários religiosos” influenciaram a política a partir de seus templos, Igrejas, centros e terreiros sem enfraquecer a “comunidade religiosa”, sem colocar em risco sua razão de ser. Uma condição histórica garantia a ordem das coisas: a hegemonia da Igreja Católica no Brasil. Religião dominante, sem concorrentes à altura para competir na influência política

Em outras palavras, o “savoir faire” das autoridades religiosas garantiu, no correr da história, fluxos e vasos comunicantes para promover as “misturas” institucionalmente não comprometedoras entre religião e política. Uma condição histórica garantia a ordem das coisas: a hegemonia da Igreja Católica no Brasil. Religião dominante, sem concorrentes à altura para competir na influência política, a presença da Igreja Católica junto ao Estado tornava-se natural, não favorecia polêmicas. Afinal, até o início do século XX, quase 100% dos brasileiros se diziam seguidores do Vaticano.

Pentecostalismo e telecomunicações

Cem anos depois, o catolicismo segue como maioria absoluta, mas o maior país católico do mundo não é mais o mesmo. Segundo as estatísticas oficiais, década após década, a Igreja Católica foi perdendo uma parte considerável de seu rebanho: em 1980, 88% da população se declarava "católica", em 1991 eram 83,3% e, em 2000, chegou-se A 73,9%. Quem ganhou com a perda católica? Na década de 90 destacou-se um grupo que se define como “sem religião”, que subiu de 4,7% em 1991 para 7,4% da população. Mas, no decorrer das três décadas, a transferência dos fiéis se deu para as correntes evangélicas, sobretudo pentecostais. Há dez anos os evangélicos representavam 13,5 milhões de brasileiros (9,1%), hoje eles são 26,2 milhões (15,5%). Com efeito, este crescimento é hoje um fenômeno relevante em duas dimensões fundamentais: a dimensão estatística e a dimensão política.

A história do pentecostalismo no Brasil acompanha de perto a evolução das telecomunicações. As igrejas pentecostais aqui chegaram no início do século XX, mas sua primeira onda de crescimento se deu nos anos de 1950, início da industrialização quando o rádio era o principal meio para transmitir suas mensagens. Nas décadas de 1960 e 1970, as Igrejas acompanharam a dinâmica das concessões de rádio e TV que, feitas durante a ditadura militar, desenharam a estrutura atual dos meios de comunicação no Brasil. Cultos, curas, testemunhos, pregações podem hoje ser acompanhados ao vivo pelo rádio, pela televisão. Transmite-se à distância a emoção decorrente da “presença do Espírito Santo”, fala-se da Bíblia e das questões da “vida real”: desemprego, falta de dinheiro, problemas afetivos, traições, alcoolismo, drogas, violência.

As diferentes denominações evangélicas, sobretudo de viés pentecostal, se concentram hoje nas periferias dos grandes centros e nas fronteiras agrícolas

Certamente os católicos também estão nos meios de comunicação, mas a segmentação e a autonomia das denominações protestantes, históricas e/ou pentecostais, favorecem o uso ágil e simultâneo de tais meios. Mesmo sem intenção ecumênica de cooperação ou diálogo entre denominações, do ponto de vista dos receptores, e no cômputo geral, umas favorecem às outras e o conjunto ganha em visibilidade. Para quem assiste nem sempre importa saber as diferenças entre as várias denominações independentes entre si: a mensagem parece a mesma.

Religião de pobres

Nos anos 90, a densidade deste fenômeno foi muito comentada. Uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião mostrou que no grande Rio de Janeiro, entre 1990 e 1993, foram fundados cinco novos templos evangélicos por semana, um por dia útil. O crescimento do número dos adeptos vinha acompanhada da densidade da participação semanal às reuniões de culto (85% dos fiéis pentecostais; a freqüência mensal atingindo 94%). E, como mostrou posteriormente o Censo de 2000, o Rio de Janeiro não era uma exceção.

As diferentes denominações evangélicas, sobretudo de viés pentecostal, se concentram hoje nas periferias dos grandes centros e nas fronteiras agrícolas. Estes territórios tão diferenciados entre si partilham duas características constitutivas de um mesmo processo histórico: são áreas que atraem migrantes que se desenraizam geográfica e culturalmente em busca de melhores condições de vida e que se caracterizam pelo abandono do poder público. Apesar de uma crescente presença de camadas de classe média entre os evangélicos, quando se considera a renda e a escolaridade do rebanho pentecostal podemos dizer que se trata de uma religião de pobres entre os quais a conversão promove ganhos materiais e simbólicos advindos de novos laços sociais e de um novo sentido para viver e recomeçar a vida.

Quando se considera a renda e a escolaridade do rebanho pentecostal, trata-se de uma religião de pobres entre os quais a conversão promove ganhos materiais e simbólicos

Os efeitos deste processo de conversões religiosas que mudam a vida privada chegaram ao espaço público. A visibilidade dos evangélicos na política aconteceu pós-ditadura militar, chegou junto com a reformulação da Constituição Brasileira (1988). Evangélicos de denominações diferentes uniram esforços para que nova Constituição não privilegiasse os católicos no que tange ao calendário, ao uso dos espaços públicos e à legislação que regula a filantropia. Na ocasião, elegeram 32 deputados federais que - a partir de um espectro amplo de diferentes Partidos Políticos - formaram a “bancada evangélica”. Na legislatura de 1990 tiveram menor êxito, mas nas seguintes viram crescer seus congressistas. Em 1998 foram eleitos 43 parlamentares evangélicos, só a Igreja Universal do Reino de Deus elegeu 15 representantes federais, além de 26 deputados estaduais em 17 estados e no Distrito Federal chegando hoje a 62 deputados federais, 18 deles da Igreja Universal do Reino de Deus. A chamada “bancada evangélica” não tem unidade partidária ou ideológica, ela tem funcionado para votar questões coorporativas, isto é consideradas “de interesse evangélico” em um país de cultura católica, ou questões morais (aborto e casamento de homossexuais, principalmente) momento este em que se aliam com uma parte de deputados católicos ou espíritas Kardecistas.

O exemplo do Rio de Janeiro

No entanto, se em uma eleição para deputado estadual ou federal pode-se falar - a partir de referências bíblicas - sobre os interesses das Igrejas Evangélicas que são “perseguidas” pelas autoridades, em maioria católicas, este argumento perde sua eficácia em uma eleição majoritária, isto é para cargos executivos. Afinal prefeitos, governadores e presidentes devem governar para todos. Neste contexto, o peso deste atributo “ser evangélico” só pode ser avaliado em relação com outras variáveis do jogo político em conjuntura eleitoral. Neste sentido, cada eleição é inédita pois apresenta uma configuração dos aliados e opositores determinantes na disputa em questão.

Igreja Universal do Reino de Deus teve uma perda considerável no número de vereadores: há quatro anos atrás eram 350, em 2005 só foram eleitos 70

Vejamos um exemplo. Quando se fala no assunto, o evangélico Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro e ex-candidato à presidente da República em 2002, é sempre citado. Em 1998 ele se elegeu ao governo do Estado do Rio de Janeiro, pelo Partido Democrático Brasileiro (PDT), tendo como vice-governadora Benedita da Silva, também evangélica, do Partido dos Trabalhadores. Para além de suas outras vinculações e do perfil de seus adversários daquele momento, é possível que os votos evangélicos tenham sido o “diferencial“ que na ocasião garantiu a Garotinho vencer para governador. A identidade evangélica também foi acionada nas eleições nacionais de 2002 para presidente da República quando Anthonhy Garotinho teve uma votação expressiva. É o que demonstra o Atlas da filiação religiosa e indicadores sociais no Brasil, publicação da Editora Loyola, assinado pela equipe do professor Cesar Romero Jacob, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Os mapas ali publicados mostram que, em função da mistura inédita de fé e religião, a votação de Anthony Garotinho (na época filiado ao Partido Socialista Brasileiro) naquelas eleições presidenciais vieram de lugares onde a Rede Record – controlada pelo bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus – tem mais retransmissoras de rádio e TV e vieram também de regiões onde há maiores concentrações de pentecostais. Em outras palavras, o candidato Garotinho teve menor votação nos locais onde o Brasil é mais católico.

Contudo, dois anos depois, agora em 2004, Conde, o candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro apoiado por Anthony Garotinho, agora filiado ao PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro) mesmo tendo um vice-evangélico da Assembléia de Deus, ficou em terceiro lugar perdendo para Casar Maia que acionou suas raízes católicas e ficando atrás do Bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal do Reino de Deus, que teve votação expressiva no Rio de Janeiro e contou com uma legião de fiéis voluntários fazendo campanha pelas ruas da cidade. A trajetória de Garotinho e o exemplo do Rio de Janeiro demonstram a importância do fenômeno religioso no contexto eleitoral, mas relativizam as somas que apontam apenas para um crescimento (sempre espetacular, linear e cumulativo) do peso do voto evangélico.

Perda de votos da Universal

A ofensiva evangélica modificou o dissimulado padrão anterior pelo qual se fazia política dentro das Igrejas e deu outro sabor à controvérsia sobre as misturas entre religião e política

Outro exemplo, no mesmo sentido relativizador, vêm da Igreja Universal do Reino de Deus que inaugurou entre os evangélicos a valorização, sem subterfúgios, da disputa política. Esta denominação teve uma perda considerável no número de vereadores: há quatro anos atrás eram 350, em 2005 só foram 70 os vereadores ligados à Igreja Universal a tomar posse nos municípios brasileiros.

Em São Paulo, também nas eleições municipais de 2004, o candidato que se auto - proclamava evangélico – Francisco Rossi - teve um desempenho eleitoral sofrível. Mas os dois candidatos Marta Suplicy (do PT do Presidente Lula, que tentava a reeleição) e José Serra (do PSDB, partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, vitorioso no pleito final) não disputaram apenas o segundo turno das eleições, mas disputaram também eleitores evangélicos, buscando apoio de denominações, visitando templos e recebendo orações e declarações de votos de seus pastores. Tal interesse se justifica porque as Igrejas evangélicas, com seu alto índice de freqüência, são vistas como celeiros de eleitores congregados. Não há outra instituição social que reúna tantas vezes as mesmas pessoas na mesma semana. Nesta busca de votos, mesmo criticando candidatos evangélicos, todos os candidatos acabam misturando religião e política.

Em resumo, a ofensiva evangélica modificou o dissimulado padrão anterior através do qual se fazia política dentro das Igrejas e deu outro sabor à controvérsia sobre as misturas entre religião e política. No entanto, isto não quer dizer que evangélicos votem necessariamente de acordo com a orientação do pastor, nem há garantia que os evangélicos - divididos em centenas de denominações - votem sempre em candidatos evangélicos. Isto porque as disputas no plano religioso que separam as denominações em diferentes configurações eleitorais, podem tanto ser atenuadas quanto ser radicalizadas no plano político. E também porque, para a sociedade em geral, o atributo “evangélico” não resulta sempre em um diferencial positivo. No Brasil, a imagem dos evangélicos é ambígua. Nela há sempre uma mistura de respeito - por se tratar de uma religião de conversão em que o fiel se sujeita ao controle social de suas Igrejas - com a desconfiança alimentada pelas acusações de manipulação, charlatanismo e extorsão financeira através do dízimo.

A mobilidade do “clientelismo religioso”

Coagir ou cobrar o voto pode colocar em risco a adesão à Igreja, porque há muitas e simultâneas ofertas: “não satisfeitos” os fiéis mudam com facilidade de “pastores

Frente a estas virtualidades, como avaliar o impacto do chamado “voto evangélico” na chamada “cultura política brasileira? Não podemos negar que hoje no Brasil existe um certo tipo de “clientelismo religioso” que nos afasta da idéia de cidadania pressuposto da República laica, presente nos compêndios de ciência política. Contudo, é preciso lembrar sempre dois aspectos. Em primeiro lugar, vale destacar que, independentemente dos feitos dos “evangélicos”, o sistema partidário brasileiro é inconsistente e frágil favorecendo migrações motivadas por interesses pessoais (vejam no exemplo acima em que o ex governador Garotinho em um intervalo de poucos anos passou por três partidos). Em segundo lugar, no que diz respeito aos eleitores, não foram os evangélicos que chegaram e lograram desmanchar sólidas e generalizadas práticas de participação democráticas pré existentes.

Assim, sem idealizar nossa história política, talvez possamos indagar se, paradoxalmente, tal “clientelismo religioso” acima citado é necessariamente equivalente ou pior do que o que historicamente ficou conhecido como “clientelismo político”: uma prática que pressupunha a manutenção do “curral eleitoral”, um coronel que trocava de voto por proteção e/ou dinheiro em cenários compostos por distintas formas de violência simbólica ou até física. Os vínculos propostos pelos pastores evangélicos estão ancorados em crenças e mecanismos de convencimento religioso. Coagir ou cobrar o voto pode colocar em risco a adesão à Igreja. Até mesmo porque há muitas e simultâneas ofertas: as pesquisas mostram que “não satisfeitos” os fiéis mudam com facilidade de “pastores”, de templos e mesmo de denominações. A combinação entre uma acirrada e crescente concorrência por fiéis e (infelizmente) um sistema partidário que favorece a rotatividade e alianças ad hoc torna-se, assim, um antídoto para as temidas possibilidades de intolerância religiosa e de “fundamentalismo” no Brasil. A religião evangélica faz diferença nas eleições porque agrega nos templos, motiva militâncias, é um celeiro de votos. Mas, para o bem ou para o mal, aqui entre nós não suplanta o pragmatismo das práticas políticas costumeiras.

Enfim, se não é fácil entender este fenômeno que às vezes parece ser único, orgânico e poderoso e, outras vezes, parece ser múltiplo, segmentado e frágil, mais difícil ainda é prever suas conseqüências eleitorais.