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outubro 2005



EUROPA

Emprego: números ilusórios

O milagre britânico do desemprego baixo nada tem a ver a com a maior flexibilização do trabalho, sempre tão demandada pelo patronato


Serge Halimi

A OCDE admite a ausência de “ligação direta evidente” entre proteção ao emprego e taxa de desemprego

Três dos principais elementos do “milagre britânico” (4,6% de desempregados recenseados oficialmente em 2004) nada têm a ver com a flexibilidade suplementar que o patronato e a direita francesa reclamam. Esta desregulamentação do trabalho, de fato, já foi conseguida há dez anos, em um momento em que, no entanto, o desemprego do Reino Unido era igual ao da França. A própria Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) admite a ausência de “ligação direta evidente” entre proteção ao emprego e taxa de desemprego: “Se examinarmos retrospectivamente a situação da Dinamarca, da Irlanda e do Reino Unido, por exemplo, três países nos quais a proteção ao emprego é fraca ou moderada, vê-se que suas taxas de desemprego, hoje em dia baixas, eram de fato elevadas nos anos 80(...) Inversamente, em outros países onde o emprego é relativamente protegido, o desemprego ficou muito tempo em níveis baixos1”.

Explicações mais razoáveis para o desempenho britânico são o papel do tempo parcial (24,1% do emprego total no Reino Unido, contra 13,4% na França2), a criação de postos na administração e nos serviços públicos, a ausência de restrições monetárias como as que o euro impôs à França e, por fim, a quadruplicação (estatística) do número de “deficientes” britânicos em vinte anos. Este último resultado é correlato com o endurecimento das condições de indenização dos desempregados (ajuda uniforme de 80 euros por semana limitada a seis meses, sanções no caso de recusa a propostas feitas, mesmo para um salário muito inferior ao do emprego precedente3). O Reino Unido conta cerca de 2,7 milhões de deficientes, contra 570 mil em 1981. O recurso à invalidez serviu, em particular nas regiões industriais sinistradas, a desinchar as estatísticas de demanda de emprego4, principalmente para os assalariados mais idosos.

A força do Estado

Metade dos empregos criados desde 1997 no Reino Unido está ligada aos serviços públicos

A pobreza dos equipamentos coletivos britânicos obrigou Anthony Blair a reagir; a dieta orçamentária dos anos Thatcher lhe trouxe os meios. Resultado: “A política posta em prática para o serviço público levou à criação de muitas vagas: 1 milhão, ou seja, a metade dos empregos criados desde 1997 está ligada aos serviços administrados (dos quais 350 mil empregos na saúde e na educação5”). Não parece provável que este tipo de receita vá inspirar a direita francesa...

Desde 1997, “a taxa de desemprego só baixou 2,2 pontos no Reino Unido, ou seja, apenas um pouco mais que na França ou na zona do euro6”. Se o crescimento global do emprego no Reino Unido ficou em definitivo comparável ou inferior à da França, no último caso a população em idade de trabalhar cresceu duas vezes mais depressa (12%) que no Reino Unido (6%)7. Em outras circunstâncias, teríamos celebrado não a redução do número de desempregados britânicos, e sim o dinamismo demográfico da França.

(Trad.: Betty Almeida)

1 - OCDE, Perspectives de l’emploi de l’OCDE, 2005, Paris, 2005, p. 216.
2 - Ibid, p. 284.
3 - Recentemente, quando a empresa Rover suprimiu 5 000 empregos, Margaret Hodge, ministra britânica do trabalho e da aposentadoria achou útil apontar que Tesco, uma cadeia de hipermercados, procurava assalariados (bem mais mal pagos que os da Rover). Ler “Britain employs carrot and stick to lure people to work ”, Financial Times, 12 de julho de 2005.
4 - Para uma análise do mesmo fenômeno, ler Dominique Vidal, “Miracle ou mirage aux Pays-Bas", Le Monde diplomatique, julho de 1997.
5 - Catherine Mathieu, “La politique économique du New Labour: un modèle pour l’Europe ?”, Lettre de l’OFCE, n° 261, 4 de maio de 2005.
6 - Ibid.
7 - The Wall Street Journal Europe, 19 de agosto de 2005.