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agosto 2006



POBRES PRAZERES

Rumo ao turismo sexual de massa

Enraizado no universo antigo da prostituição, o turismo sexual avança com a pressão por mobilidade e a globalização turística. O mundo caminha para ser um gigantesco parque de diversões?


Franck Michel

Na esteira do que ocorreu com o turismo clássico, chegou agora a vez do turismo sexual viver uma “democratização”. Cada vez mais, observa-se a expansão de uma prostituição “à la carte”, uma tendência que, em última instância, nada mais faz do que seguir aquela das viagens “à la carte”... Deixou de ser raro encontrar, em Phuket ou em Ko Samui (para citar o caso da Tailândia), um viajante aventureiro ocidental acompanhado, na garupa da sua moto ou agarrada ao seu braço, por uma girlfriend, nome oficial e aceitável para a prostituta – que ele alugou para a semana ou o mês.

O turismo sexual conhece um efeito “bola de neve”, que não o deixa imune a uma massificação. Na Tailândia, os novos clientes são cada vez mais jovens ocidentais em busca de aventuras e sensações fortes. Eles substituem aos poucos os velhos turistas alemães, japoneses ou norte-americanos – que, por sua vez, já haviam sucedido os militares lá estacionados durante a guerra do Vietnã. Além do mais, uma nova clientela andou surgindo nas praias e nos bares: malásios, chineses, sul-coreanos…

A prostituição “turística” atinge muitos países do Sul: neles, as garotas (ou os rapazes) são jovens, pobres e pouco educados e, portanto, facilmente exploráveis. Elas aderem de maneira mais ou menos forçada à prostituição, uma “profissão” que não têm, contudo, nenhuma vontade de exercer. À procura de sexo fácil e barato, os turistas sexuais estrangeiros afluem, atraídos por essa carne fresca, disponível e submissa. Uma boa parte dentre eles, para se dar boa consciência, encontra todas as razões do mundo para se convencer de que não está abusando do desamparo desses jovens. Não estariam fazendo nada senão ajudá-los, sustentá-los, e até mesmo contribuir para o desenvolvimento do seu país…

Nesses Estados, depois da expansão do turismo de massa, o setor informal da prostituição desenvolveu-se com o afluxo mais importante de turistas individuais. Tornou-se possível estabelecer uma espécie de cartografia do turismo sexual: as mulheres vão a Goa, à Índia, à Jamaica, a Gâmbia, enquanto os homens preferem os países do sudeste asiático, o Marrocos, a Tunísia, Senegal, a República Dominicana, Cuba, Panamá, o Suriname, o México – sem esquecer o Brasil onde teriam sido recenseadas não menos de 500 mil crianças que praticam a prostituição [1].

Uma perda de rumo inevitável?

Com isso, o turismo sexual de massa se desenvolve no universo das mobilidades turísticas. Para muitos ocidentais, ele representa uma forma de colonização nova e adaptada à nossa época. Alguns gostariam de estabelecer a todo custo uma distinção entre a prostituição forçada e a prostituição voluntária ou “livre”. O pretexto é que, em certas cidades do Norte – ou nos enclaves ricos dos países pobres – a prostituição de luxo, poderia permitir que certas garotas (que teriam escapado das pressões dos gigolôs) “disponham livremente do seu corpo”. Em contrapartida, admite-se que, na maioria dos países do Sul – assim como em enclaves de miséria nas cidades do Norte ou do Leste –, a prostituição é sempre uma atividade exercida sob efeito de coação (proxenetismo, violências, estupros) [2]. Mas como combater a prostituição nos países pobres do Sul, quando se alega que, nos países ricos do Norte, ela resultaria de opções individuais?

Outros insistem para que não se confunda prostituição infantil com prostituição adulta. De tanto lançar mão desta diferença, ela torna-se suspeita. E quanto mais se estabelece um consenso para condenar o abuso sexual em crianças, tanto mais facilmente o abuso em adultos (mulheres e homens) parece ser admitido como uma perda de rumo supostamente inevitável do mundo no qual nós vivemos. A prostituição infantil horroriza todo mundo, enquanto cada um, finalmente, acaba acomodando-se com a prostituição “clássica”.

Num ambiente como este, o turismo sexual acaba, de certa forma, livrando-se de toda responsabilidade, de toda culpa. Ainda mais porque se apóia fortemente nas indústrias “clássicas” do sexo: pornografia e prostituição. Uma prostituição que não passa da tradução prática daquilo que a pornografia propõe [3]. Num contexto em que os dois universos se juntam para transformar os seres humanos em instrumentos, em ferramentas, e industrializar os corpos. Além de tudo, a máquina da mídia e da propaganda encarrega-se de preparar o terreno para reforçar o reconhecimento oficial da indústria do sexo. A violência sexual é celebrada ao ser exibida em toda parte pelos meios de comunicação, inclusive para ser denunciada. Trata-se de um paradoxo e de uma confusão que são reflexos exatos da nossa cultura do pornô chique e “soft”, que celebra a dominação do macho na hora em que a sua virilidade parece ser menos assumida.

Indústria alimentada pela pobreza

A demanda sexual é incentivada e estimulada por uma oferta cada vez mais atraente. O mercado amplia-se e vai se diversificando: uma internacionalização da oferta, com garotas cada vez mais novas, provenientes dos quatro cantos do globo, vem atraindo novos clientes [4]. Com este afluxo de migrantes do sexo, alimentado pela sede de consumo, a rotação das garotas está garantida. Objetos de todo tipo de tráficos, os corpos são disponíveis e prestativos. Por tarifas cada vez mais baixas, conforme manda a concorrência.

Já o sucesso crescente do turismo sexual feminino mostra que, em relação a esses pontos, a mulher vem adotando um comportamento similar ao do homem, repetindo as mesmas representações sobre o poder, a dominação e a exploração. A este respeito, parece apropriado aproximar – no plano essencialmente simbólico – de um lado, o “turista organizado”, que entregou a organização da sua viagem a uma agência ou um “tour operator” e, de outro, o “turista sexual”.

Não raro o turista organizado exime-se de toda responsabilidade no exato momento em que pisa o solo do seu destino exótico. Foi o que deu a entender um viajante que, recém-desembarcado no aeroporto de Hanói no Vietnã, explicou o seguinte: “Pronto, eu acabo de aterrissar. Daqui para a frente, estou entregando meu destino dessas próximas semanas nas mãos do meu guia. Eu estou cansado demais por causa do meu trabalho. Durante essas férias, não quero mais pensar, mas apenas me deixar levar!”. É verdade que não havia nessas explicações nenhuma segunda-intenção sexual, mas outros turistas perceberão facilmente a ligação, e então darão o passo…

De fato, do outro lado do mundo tudo volta a ser possível – principalmente desafiar uma série de proibições. Outro exemplo: por mais que um turista perdido no meio do seu grupo possa eventualmente entregar seu destino ao guia ou à agência de viagens, ele se autorizará, ao mesmo tempo, práticas que costuma proibir a si mesmo em seu país. Por exemplo, banhar-se nu numa praia na Malásia, ao lado de pescadores muçulmanos melindrados, ou namorar uma menina novinha que sentou à sua mesa para lhe vender cigarros ou bugigangas num restaurante no Vietnã…

A sensação de fim da responsabilidade

É quase sempre desta forma que o turista ordinário, longe da sua casa, começa a praticar atos que seriam totalmente impensáveis em suas próprias terras. Esta aspiração à transformação de si é tanto mais fácil para os turistas – organizados ou não – quanto mais tiver se instalado em sua mente a perda de responsabilidade que ocorre durante a viagem… Para o turista organizado, o Outro – o “indígena”, diziam no tempo das colônias – é o servidor turístico, cujo papel consiste em ser explorado.

O turista sexual livra-se com freqüência de toda responsabilidade humana, uma vez que, por meio de uma transação financeira, sente-se liberado da necessidade de se preocupar com o Outro. Ele não se sente mais nem na obrigação de respeitar sua (ou seu) parceiro efêmero, nem de lhe proporcionar prazer. Ao pagar por um serviço – no caso, sexual – ele está comprando a liberdade de uma pessoa sobre a qual, por um tempo determinado, tem todos os direitos. Inclusive o de reduzir esta pessoa ao estado de “bem”, de mercadoria.

Ele não precisa poupar sua presa, forçada à submissão, da qual pode dispor como bem entende, sem ter medo de ser expulso ou castigado por uma autoridade. O cliente é rei. Em férias, muito particularmente. O cliente-turista é o único a mandar a bordo, uma vez que o Outro foi relegado à condição de escravo sexual, pouco importando, aliás, que ela (ele) seja bem ou mal tratada pelo seu mestre de plantão.

É patente, as diferenças entre o turista organizado e o turista sexual são grandes, mas a passagem de um para o outro por vezes vem a ser surpreendentemente fácil. “Em geral”, explica Paola Monzini, “o sexo pago tornou-se uma componente mais ou menos visível do turismo de massa [5]”. Contudo, a maioria dos turistas sexuais opera de modo solitário. Essencialmente por duas razões: o medo de chamar a atenção e ser denunciado, e o egocentrismo evidente do abusador.

Pode um turista organizado transformar-se num turista sexual? Sim, caso ele se acomode com muito facilidade à tendência atual de ficar ligado na onda do momento – que celebra o culto do corpo e o do rejuvenescimento, tendo como pano de fundo a apetência sexual e o mal-estar da civilização [6]. Encontramos, por exemplo, o arquétipo desse veranista chinfrim no personagem central do romance “Plataforma”, de Michel Houellebecq [7], no qual o mergulho no sexo e na viagem permite ao turista vulgar ter a impressão de ser alguém diferente daquele empregado submisso e homem sem qualidades que ele é na sua morna vida cotidiana. No Ocidente, o turismo sexual continua sendo representado de duas maneiras muito simplistas e incompletas demais: de um lado a miserabilidade, e de outro o angelismo.

No Sul, miséria econômica; no Norte, afetiva

Cinco causas principais estão na origem da expansão sem precedente do turismo sexual de massa: a pauperização crescente; a liberalização dos mercados sexuais, que incentiva mais ou menos diretamente o tráfico de mulheres para fins de prostituição; a persistência de sociedades patriarcais e sexistas; a deterioração da imagem da mulher, tendo como pano de fundo a violência sexual generalizada e banalizada; e a explosão do turismo internacional e dos fluxos de migrantes de todo tipo.

Esta expansão foi estimulada por duas características das nossas sociedades: em primeiro lugar, a "democratização" dos fluxos de viajantes (massas de turistas que circulam por todo lado); em segundo lugar, a hiper-sexualidade dos jovens, cultivada por meios de comunicação obcecados pela violência sexual. Ela também se alimenta do encontro entre a miséria e a beleza do mundo. Miséria e beleza atestam o corte que rege a ordem desigual do planeta. Uma miséria afetiva no Norte, uma miséria econômica no Sul e no Leste; “beleza” dos bens materiais de consumo no Norte, beleza das paisagens e das pessoas, assim como da espiritualidade, do modo de vida e das “tradições” no Sul e no Leste.

Em decorrência da publicação da Declaração da Organização Mundial do Turismo (OMT) sobre a prevenção do turismo sexual organizado [8], adotada no Cairo em outubro de 1995, que sensibilizou os atores do turismo e o conjunto dos clientes-viajantes para este flagelo global (que não diz respeito apenas às crianças), a luta contra “o turismo sexual de massa” começou a melhor se organizar.

Tradução: Jean-Yves de Neufville jeanyves@uol.com.br

[1] Sobre a tragédia da exploração sexual das crianças para fins turísticos, ler Jeremy Seabrook, En finir avec le tourisme sexuel impliquant les enfants. L’application des lois extraterritoriales (Como acabar com o turismo sexual envolvendo as crianças) (editora L’Harmattan, Paris, 2002).

[2] A respeito da mercantilização sexual dos corpos, ler Richard Poulin, La mondialisation des industries du sexe (A Globalização das indústrias do sexo), (editora Imago, Paris, 2005). Ler também, Bruno Rochette, “ Prostitution: l’esclavage des filles de l’Est ” (Prostituição: a escravidão das garotas do Leste), Le Monde diplomatique, abril de 2006.

[3] Cf. Michela Marzano, Malaise dans la sexualité (Mal-estar na sexualidade), (editora J.-C. Lattès, Paris, 2006).

[4] Ler, Mona Chollet, “Qui profite de la prostitution?” (Quem lucra com a prostituição?), Le Monde diplomatique, edição francesa, julho de 2006.

[5] Paola Monzini, Sex Traffic. Prostitution, Crime and Exploitation, Editora Zed Books, Londres, 2005, p. 32.

[6] Ler, entre outros, o dossiê da revista Téoros, “ Tourisme et sexualité ”, Montréal, Vol. 22, n°1, primavera de 2003.

[7] Editora Flammarion, Paris, 2001. Publicado no Brasil pela editora Record, em 2002.

[8] www.world-tourism.org/protect_children/fr/statements/WTO-F.HTM